A nova Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq não transforma a Inteligência Artificial Generativa em vilã. Mas desloca a pergunta essencial: não basta saber se o pesquisador usou IA. É preciso saber se ele continua sendo capaz de responder intelectualmente pelo que entrega.
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Em 2020, ao concluir o trabalho Formação docente para práticas reflexivas no Ensino de Ciências, pela UTFPR, eu me perguntava como os professores deveriam ser formados para refletir sobre sua própria prática. Naquele momento, a questão me parecia essencialmente pedagógica. Hoje, diante da Inteligência Artificial Generativa, ela retorna com outra roupa: como formar pesquisadores capazes de refletir sobre a própria produção quando parte do processo pode ser mediada por uma máquina?
A Portaria CNPq nº 2.664/2026 institui a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq e apresenta uma resposta normativa para esse novo cenário. A política se apoia em ações de educação, prevenção, apuração e sanção, e busca garantir a integridade das atividades científicas apoiadas pelo Conselho.
Mas o ponto mais interessante talvez não esteja na sanção. Está na pedagogia da responsabilidade.
A norma afirma que o uso de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa deve ser declarado em qualquer fase do desenvolvimento da pesquisa — concepção, redação, análise de dados ou submissão —, especificando a ferramenta utilizada e a finalidade. Também veda a submissão de conteúdo gerado por IAG como se fosse de autoria humana e mantém os autores integralmente responsáveis pelo conteúdo final, inclusive por plágios ou imprecisões produzidas pela ferramenta.
A IA, portanto, não é expulsa da pesquisa.
Ela é chamada à mesa.
Mas não na cadeira do autor.
Essa distinção é fundamental. Há diferença entre usar uma ferramenta para revisar a fluidez de um parágrafo e permitir que ela fabrique o argumento. Há diferença entre pedir ajuda para organizar uma estrutura e terceirizar a responsabilidade intelectual. Há diferença entre traduzir um resumo com supervisão humana e entregar à máquina a tarefa de pensar o problema, escolher o método, interpretar os dados e vestir tudo com uma linguagem acadêmica convincente.
O pesquisador continua sendo o ponto de gravidade da pesquisa.
Em meu trabalho de 2020, eu defendia que a prática reflexiva alça os professores ao papel de produtores de conhecimento, e não de meros executores. A frase, pensada para a formação docente, ganha agora uma força inesperada diante da IA: o pesquisador também não pode se reduzir a executor de comandos, nem a gerente de textos produzidos por ferramentas que não respondem ética, jurídica e intelectualmente pelo que dizem.
O problema da IA na pesquisa não está apenas no texto gerado. Está no pesquisador que deixa de se implicar no próprio texto.
A Portaria parece dizer, em linguagem administrativa, algo que a formação reflexiva já dizia em linguagem pedagógica: não há autoria sem consciência do processo. Não há integridade sem capacidade de explicar o caminho. Não há pesquisa responsável quando o autor já não sabe distinguir o que pensou, o que pediu, o que aceitou, o que corrigiu e o que simplesmente deixou passar.
Por isso, declarar o uso de IA não deve ser visto como confissão de culpa.
Deve ser visto como parte da metodologia.
Quem usou uma ferramenta para revisão linguística deve dizer isso. Quem usou para tradução deve dizer isso. Quem usou para organizar tópicos, testar clareza, levantar hipóteses preliminares ou estruturar uma apresentação deve dizer isso. Não porque a ferramenta seja proibida, mas porque a transparência permite que o leitor compreenda as condições de produção daquele trabalho.
A pergunta deixa de ser moralista: “você usou IA?”
E passa a ser científica: “como esse uso interferiu no percurso da pesquisa?”
Há, no entanto, um limite ético muito claro. A Portaria veda que projetos de pesquisa de terceiros sejam inseridos em ferramentas de IAG para elaboração de pareceres científicos. Aqui, a questão não é apenas autoria. É confidencialidade. Um projeto submetido à avaliação não é matéria-prima livre para experimento tecnológico. É trabalho intelectual de alguém, ainda em trânsito, ainda protegido pelo sigilo, ainda dependente de uma avaliação humana responsável.
A máquina pode ajudar a escrever melhor. Mas não pode virar parecerista clandestina. Também não pode virar orientadora fantasma. Nem autora oculta. Nem consciência terceirizada.
Quando escrevi sobre o professor reflexivo, afirmei que os professores são chamados à responsabilidade de refletir sobre os impactos e consequências de sua forma de fazer e pensar a docência. Esse trecho pode ser transportado, quase sem perda, para o campo da pesquisa: pesquisadores também são chamados à responsabilidade de refletir sobre os impactos e consequências de sua forma de produzir, publicar, avaliar e circular conhecimento.
A IA generativa escancara uma fragilidade que talvez já existisse antes dela: muita produção acadêmica sempre correu o risco de valorizar mais a aparência formal do que a autoria real. O texto bem formatado, a citação bem encaixada, o resumo elegante e a linguagem de segurança podem esconder pensamento frágil. A IA apenas tornou essa encenação mais rápida, mais barata e mais convincente.
Por isso, a questão não é apenas tecnológica.
É formativa.
Que pesquisador queremos formar?
Um pesquisador que cole resultados em uma interface e aceite respostas polidas? Um pesquisador que use a IA como muleta para evitar o confronto com a própria dúvida? Um pesquisador que confunda fluência textual com rigor metodológico? Ou um pesquisador que use ferramentas contemporâneas sem abdicar da responsabilidade de pensar?
A Portaria do CNPq, lida pelo viés da formação, não é apenas um regulamento. É um lembrete institucional de que a pesquisa científica depende de autoria consciente, rastreabilidade e honestidade intelectual. Entre as sanções previstas para desvios de integridade estão advertência formal, suspensão de bolsas e auxílios, interrupção de benefício com possibilidade de ressarcimento, impedimento temporário de participação em ações de fomento e até suspensão temporária do Currículo Lattes.
Mas antes da punição, existe uma pergunta mais íntima. O pesquisador sabe dizer como chegou ao que escreveu? Se não sabe, talvez a pesquisa já tenha perdido algo antes mesmo de ser avaliada.
A Inteligência Artificial Generativa pode ser uma ferramenta poderosa. Pode ampliar possibilidades, acelerar tarefas, sugerir caminhos, revisar linguagem e tornar certos processos menos solitários. Mas ela não substitui a pergunta, a dúvida, a escolha, a responsabilidade e a coragem intelectual de sustentar uma posição.
No fim, a nova política não exige apenas que o pesquisador declare a IA. Ela exige que o pesquisador reapareça. Que ele não se esconda atrás da ferramenta. Que ele não transforme tecnologia em álibi. Que ele não confunda produtividade com pensamento.
Em tempos de textos instantâneos, talvez a integridade científica comece por uma pergunta simples, quase artesanal: quanto de mim ainda responde pelo que eu assino?
Referência
ZARGOLIN, Paulo Ricardo. Formação docente para práticas reflexivas no Ensino de Ciências. Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Práticas Educacionais em Ciências e Pluralidade. Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Dois Vizinhos, 2020. Disponível em: https://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/25334/1/DV_PECP_II_2020_43.pdf Acesso em 30 jun. 2026.




