Luzes da cidade

Por: Victoria Grassi Bonamigo
grifos do Logosgrafia.com

Tenho passado muito tempo em bibliotecas. De alguma maneira estranha, sinto-me acolhida em meio a todas aquelas folhas de papel encadernadas com a função de contar uma história. Gosto de olhar diferentes capas e de ler prefácios aleatórios de livros que eu não pretendo ler. Entretanto, vez ou outra, pego uma obra que já conheço e a revejo. Às vezes é sem querer, não consigo lembrar de tudo que já li. Pela falta de memória relacionada a minhas leituras anteriores, aconteceu algo curioso comigo dia desses: peguei um livro de poesias, o qual já tinha lido na época de escola. Lembro-me de ter que o reler umas cinco vezes para responder meia dúzia de questões na prova de Literatura. Comecei, então, a lê-lo, pela, sexta vez, e, pasmem, no terceiro poema, eu me emocionei, o que significou, brutamente, que o entendi. Senti uma lágrima escorrendo por minhas bochechas.
– Eu lhe avisei que um dia você leria esse livro por vontade própria. – disse uma voz masculina grossa, vinda sabe Deus de onde.
Reparei em volta e, ao perceber a quem pertencia o timbre o qual falara comigo, congelei. Milhões de memórias passaram em minha mente, de forma que não consegui responder o comentário do conhecido prontamente. Conhecido… Ele já foi mais que isso, muito mais, aliás ele que me explicara o intuito do livro na véspera da minha prova. Olhei para baixo e assenti, sorrindo. Não conseguiria fazer mais do que isso, uma vez que o nosso passado não lhe dava o direito e de aparecer e sumir quando bem entendesse.
– Concordo completamente com o autor quando ele cita que tentar clarear a noite faz com que pensemos no que deixamos para trás e nos deixa ainda mais ansiosos para o que está por vir. Aposto que foi esta a parte que te fez chorar, sim, eu vi. – Continuou o rapaz, para minha infelicidade.
Um turbilhão de imagens veio à minha cabeça e eu senti vontade de sair correndo, assim não teria que continuar o assunto. Uma boa escapatória seria fugir, e de preferência, para um lugar no qual ele não me encontrasse outra vez, pois ele me faz pensar. Pensar no que deixei pelo caminho, aquele que eu trilhei sozinha, diferente do programado. Percebi que, enquanto pensava na programação que fiz para minha vida, o homem, que havia desenvolvido barba nos últimos anos, continuava me encarando, esperando por uma resposta. Depois de respirar o mais fundo que consegui, oxigenar o cérebro, fui capaz de pensar em algo e retruquei:
– Normalmente, o que deixamos para trás, e ficamos remoendo como teria sido se tivéssemos levado em frente, é justamente o que nos espera, uma vez que é pelo que esperamos. Acredito que foi isto que o escritor deixou implícito nessa estrofe. – apontei o conjunto de versos do poema, tema da nossa quase conversa.
Ele se calou por alguns minutos. Vários, aliás; acredito eu que, assim como ocorreu comigo, ele estava refazendo momentos em sua cabeça. O que era a deixa perfeita para eu ir embora e me livrar do prosa intelectual, todavia não consegui de primeira, nem de segunda; necessitei ouvir a resposta que ele gaguejou:
– Faz sentido… O que esperamos é o que nos espera. Dá uma boa frase de efeito.
– Eu preciso ir… Estou atrasada.
– Tudo bem… Vou te esperar para ver se algum dia te encontro.
– Um dia nós nos vemos. – acabei com o diálogo.
Saí pela porta da frente e ele pela saída lateral, já estava escuro e a iluminação da rua estava tão forte que era capaz de cegar quem passava despreocupado pela rua.
Nunca entendi o que ele pensava, porém, nesse dia, eu soube: ele iria refletir sobre a vida sob as luzes da cidade. Porque o que nos espera é o que esperamos. Realmente, é uma boa frase de efeito.

Victoria é do tipo de garota que tem o hábito de imaginar, de acreditar no incrédulo. Entretanto, ela acredita que o que nós criamos pode muito bem nos criar em algum momento e tomar a frente em nossas decisões, porque, quando algo se torna verdade, em nosso mundo, toma forma… E o que tem forma… Ah, o que tem forma faz o que bem entende.

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