Paulo Ricardo Zargolin
Tudo começou com uma mensagem do pombo-correio, que dizia:
Prezado Roberto Hood,
Em virtude de critérios estratégicos perfeitamente razoáveis e nada pessoais, informamos o encerramento de sua conta por desinteresse comercial.
Ressaltamos que seu saldo permanece integralmente disponível para retirada, mediante os procedimentos adequados, intuitivos e humanizados.
O pombo trazia no peito o brasão da Mercearia Quitada: duas moedas cruzadas sobre um cofrinho rendendo 120%.
E aqui preciso defender a Mercearia.
O capitalismo é um organismo sensível. Ele depende de circulação. De entusiasmo. De clientes que confundam porcentagem com esperança.
Não é culpa da Mercearia se Roberto Hood decidiu interpretar 120% como número.
Roberto cometeu a extravagância de calcular o rendimento do Cofrinho Produtivo 120%™. E descobriu o óbvio inconveniente: cashback não é presente; é monogamia financeira. Ele precisa voltar para casa.
A Mercearia, zelosa pela biodiversidade do lucro, convocou uma Assembleia Extraordinária no Salão Concêntrico.
O salão era redondo.
O logotipo era redondo.
O discurso era redondo.
A responsabilidade, naturalmente, também.
No centro da parede, pendia o alvo corporativo: círculos concêntricos em tons de crescimento sustentável. No miolo, a fotografia ampliada de Roberto Hood, sorrindo com a serenidade irritante de quem entende juros compostos.
Nada pessoal.
O Presidente abriu a sessão:
— Senhores, enfrentamos um caso grave de prosperidade autônoma.
O Diretor de Sinergia exibiu gráficos:
— Ele mantém saldo acumulado. Saldo acumulado não dança. Não interage. Não performa.
O Diretor do Cofrinho, quase em lágrimas:
— O 120% foi desenhado para gerar engajamento, não patrimônio.
Permitam-me esclarecer, como narrador imparcial: o capitalismo não é contra o lucro individual. Ele apenas recomenda que o lucro individual se manifeste de maneira colaborativa — isto é, preferencialmente retornando ao centro.
As portas se abriram com teatralidade contábil. O Jurídico entrou carregando um pergaminho verde-musgo.
— Notificação do Baceflen — anunciou. — O místico Banco Central da Floresta Encantada.
Silêncio respeitoso.
O Baceflen aprecia coerência, essa entidade abstrata e inconveniente.
O pergaminho foi aberto. Selos reluziam como advertências éticas.
— O cliente alega impossibilidade prática de retirar o saldo.
Risos discretos percorreram o círculo.
— Impossibilidade é subjetiva — ponderou o Diretor de Compliance. — O fluxo é claro: autenticação, validação, revalidação, confirmação, contemplação e, se necessário, reflexão.
— A contemplação fortalece o vínculo — completou o Diretor de Engajamento.
O Presidente levantou-se.
— Não podemos permitir que a matemática se volte contra nós.
Tomou o arco cerimonial, de madeira certificada. A corda vibrava com responsabilidade social.
Mirou.
A flecha atravessou o salão como um relatório anual bem diagramado e cravou-se no olho esquerdo da fotografia.
Aplausos.
Nada pessoal.
— Que conste em ata — declarou o Presidente — que o cliente continua podendo retirar seu saldo.
— Desde que compreenda o fluxo.
— Intuitivo.
A nota oficial foi redigida com ternura corporativa:
Nota à Comunidade da Prosperidade Circular
A Mercearia Quitada reafirma que o cliente Roberto Hood sempre teve pleno acesso às funcionalidades de resgate. Eventuais percepções de inoperância decorrem das etapas naturais de nosso fluxo sistêmico, desenhado para segurança e harmonia coletiva.
O encerramento ocorreu por desinteresse comercial, instituto legítimo e essencial à sustentabilidade do ecossistema.
Seguimos rendendo 120% de possibilidades para quem compreende nosso modelo colaborativo.
E, demonstrando nosso compromisso com o entretenimento responsável, patrocinamos o reality show mais amado da Floresta: o Big Bosque Brasil.
Permitam-me, novamente, defender a Mercearia.
Ela apenas protege o sistema.
Cliente que gira é virtuoso.
Cliente que compreende é imprevisível.
Imprevisibilidade gera risco.
Risco ameaça o equilíbrio.
Equilíbrio não rende 120%.
Roberto, alheio à coreografia circular, clicava em “Sacar”.
O sistema carregava.
Meditava.
Respirava.
“Aguarde alguns segundos.”
Segundos são elásticos na Floresta Encantada.
E o capitalismo — moralmente neutro, infinitamente sensível e discretamente armado com arco e flecha — apenas incentiva o consumo responsável.
Responsável, claro, para o lado correto do alvo.


