Paulo Ricardo Zargolin
(crônica inspirada na performance de Arina Shilo no Bulgaria’s Got Talent)
Há apresentações que pedem aplausos. Outras pedem silêncio. A performance de Arina Shilo pertence a esta segunda espécie — aquela em que o corpo do artista não apenas emociona, mas pensa diante de nós.
Logo no início, antes mesmo que a narrativa se adense, há um detalhe que captura o olhar atento: uma tesoura suspensa. Ela não está escondida, nem surge como revelação tardia. Está ali desde o começo, balançando no espaço como um convite evidente à libertação. A personagem luta para alcançá-la. O público, naturalmente, interpreta o gesto como um prenúncio de ruptura: finalmente virá o corte dos fios, finalmente virá o alívio do peso.
Mas a lógica da cena é mais inquietante do que isso.
Quando ela finalmente conquista a tesoura, o gesto não é de libertação. Não há corte. Não há ruptura. Há apenas um movimento meticuloso e quase doméstico: ela abre a mala e guarda o objeto ali dentro. O instrumento da saída não é usado, mas sim arquivado.
Nesse momento, o público percebe que aquele compartimento já abriga outras tesouras. Aquela não era a primeira solução disponível; era apenas mais uma, acrescentada à coleção de saídas que nunca se concretizam.
A pantomima muda de natureza. Até então, poderíamos ler os fios como forças externas: limitações sociais, traumas, circunstâncias adversas. A partir da mala aberta, porém, a narrativa revela algo mais perturbador: a personagem não sofre apenas com as amarras — ela administra cuidadosamente as ferramentas que poderiam desfazê-las.
É uma metáfora tão elegante quanto incômoda. Porque a personagem não é ignorante de sua situação. Ela sabe que há saída. Ela sabe como cortar. Ela tem instrumentos suficientes para fazê-lo várias vezes. Ainda assim, prefere guardá-los. A tesoura torna-se parte da bagagem, e não da solução. Cada novo instrumento de libertação passa a contribuir para o peso da própria mala.
Enquanto assistia a essa cena, confesso que pensei no serviço público.
Não na caricatura preguiçosa que muitos fazem dele, mas no cotidiano real das instituições, onde pessoas comprometidas tentam mover estruturas antigas. Em muitas dessas estruturas, o problema raramente é a ausência de diagnóstico.
Sabemos onde estão os nós. Sabemos quais fios apertam demais. Sabemos quais procedimentos poderiam ser revistos, quais práticas poderiam ser abandonadas, quais soluções já foram inclusive discutidas em reuniões, planejamentos, formações, pareceres e relatórios.
As tesouras existem.
O que muitas vezes acontece — e aqui a performance se torna quase cruel em sua precisão — é que essas ferramentas vão sendo cuidadosamente guardadas na mala institucional.
Uma nova política pública é estudada, mas fica para o próximo ciclo. Um ajuste administrativo é reconhecido como necessário, mas aguarda um momento mais oportuno. Uma mudança pedagógica é defendida em discurso, mas permanece suspensa entre prudências e receios. A solução entra para o acervo das possibilidades.
E o curioso é que, quanto mais tesouras acumulamos, mais pesada fica a mala.
A cena de Arina Shilo não acusa a personagem de covardia; ela revela algo mais humano e mais complexo. Há sofrimentos que se tornam familiares. Há estruturas que, mesmo desconfortáveis, oferecem uma forma conhecida de equilíbrio. Cortar os fios significa também lidar com o vazio que aparece depois do corte. Esse vazio exige responsabilidade, decisão e reinvenção.
Talvez seja por isso que a imagem final da mala cheia de tesouras mostre-se tão poderosa. Não estamos diante de alguém sem saída. Estamos diante de alguém que transformou a própria possibilidade de mudança em item de bagagem. A liberdade está presente, organizada, catalogada; mas cuidadosamente preservada para não ser usada.
E é aí que a arte cumpre seu papel mais raro: ela nos devolve, em silêncio, uma pergunta que não pode ser respondida apenas no palco: quantas tesouras carregamos sem jamais utilizá-las?

