Pudim e Toddynho em: o sumiço da barata

Por: Paulo Ricardo Zargolin

A casa era nova. Os cachorros também; pelo menos naquele espaço.

Pudim e Toddynho haviam sido temporariamente exilados para um dia de princesos no petshop, enquanto eu travava minha primeira batalha doméstica: a dedetização.

Química contra instinto. Civilização contra herança genética.

Voltaram limpos, cheirosos e, como sempre, absolutamente incapazes de qualquer crime.

Ou assim eu pensei.

Foi num segundo. Um descuido mínimo, desses que não cabem nem na memória depois.

Uma porta entreaberta. E lá estava ela.

Uma criatura cascuda. Enorme. Daquelas que não pertencem à cozinha; mas sim à história da humanidade.

Ela estava no chão, derrotada, ou ao menos aparentava estar. Fui buscar a pá e a vassoura. Quando voltei, não havia mais nada.

Nada.

Nem corpo. Nem vestígio. Nem testemunha.

Foi aí que o caso começou. Olhei para Pudim. Olhei para Toddynho. Ambos sustentaram aquele olhar clássico da inocência canina:

— “Nós? Jamais.”

Sem provas, sem flagrante, sem perícia… o inquérito foi arquivado provisoriamente.

Até a madrugada.

Pudim começou a salivar. Não era pouco. Era o tipo de salivação que aciona alarmes internos e externos.

Toddynho, solidário ou cúmplice, também entrou em estado de alerta.

Em minutos, estávamos na clínica veterinária 24 horas. Consulta. Injeção. Diagnóstico: nada conclusivo.

A doutora, com a serenidade de quem já viu coisas piores, descartou a hipótese do inseto.

Eu não descartei.

Pudim melhorou rápido demais. Rápido como quem supera um episódio… ou elimina uma evidência.

Hoje, ele segue bem. Bem demais, inclusive — com um apetite que ignora leis, limites e, possivelmente, espécies.

Mas o bicho peçonhento… nunca mais foi visto.

E eu sigo aqui, convivendo com dois suspeitos extremamente fofos, sem qualquer histórico criminal; e com um segredo que, aparentemente, foi completamente digerido.

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