Lia no país da Logosgrafia
Capítulo 2
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Hugo Monteiro subiu ao palco como quem ainda não sabia se voltava para a cidade ou para a lembrança da cidade.
O microfone chiou.
Algumas pessoas bateram palmas antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa, talvez porque o silêncio, em cidade pequena, quase sempre pareça uma falta de educação.
Lia continuava olhando para o cartaz.
A frase já não se movia.
Mas também não descansava.
Havia nela uma espécie de inquietação miúda, como se uma palavra tivesse acordado antes das outras e estivesse esperando que alguém percebesse.
— Boa noite — disse Hugo.
A voz saiu falhada no começo, atravessada pelo ruído do microfone, mas logo encontrou um lugar entre as cadeiras, as conversas baixas e o rio fingindo ser mar.
Sofia endireitou o corpo.
Emília parou de perguntar.
Alice cruzou os braços.
Lia ouviu.
Não porque quisesse.
Porque alguma coisa, nela, parecia ter sido chamada pelo nome.
Hugo começou falando da infância, da cidade, das primeiras leituras feitas em livros emprestados, desses que passam de mão em mão até perderem a capa e ganharem uma espécie de alma coletiva. Falou do rio, das ruas, das pessoas que não sabiam que estavam virando personagens enquanto compravam pão, esperavam ônibus ou reclamavam do calor.
As pessoas riram.
Lia não.
Ela viu.
Quando Hugo pronunciou a palavra infância, alguma coisa se soltou da boca dele.
Não era som.
Também não era luz.
Era quase uma letra.
Ou quase uma lembrança.
A palavra ficou suspensa por um instante no ar, trêmula, como poeira iluminada por uma fresta.
Lia piscou.
A palavra desapareceu.
Depois veio outra.
Cidade.
Dessa vez, demorou mais.
Pairou acima do palco, fina e instável, como se tivesse sido escrita com o próprio chiado do microfone.
Lia segurou a respiração.
— Você viu isso? — sussurrou para Emília.
— Vi o quê?
Lia apontou discretamente.
— A palavra.
Emília olhou para o palco, depois para o céu, depois para o cartaz.
— Qual palavra?
Lia não respondeu.
Porque, naquele momento, Hugo disse:
— Às vezes, a gente pensa que escreve para guardar o que viveu. Mas talvez escreva porque certas coisas só começam a existir quando encontram palavras.
E então aconteceu.
Não uma explosão.
Não um milagre grande.
Os milagres grandes costumam ser grosseiros.
Foi pequeno.
Delicado.
Terrível.
Todas as palavras da frase pareceram sair da boca de Hugo e permanecer no ar, alinhadas por alguns segundos, como se o mundo tivesse se esquecido de apagá-las.
Lia leu.
E, ao ler, sentiu que não estava apenas entendendo.
Estava atravessando.
O palco, as cadeiras, o rio, as luzes amareladas, tudo pareceu recuar um pouco. Não sumir. Apenas perder a certeza.
Atrás de Hugo, entre duas tábuas mal pregadas do cenário improvisado, surgiu uma fenda estreita.
Uma fresta.
Não havia nada atrás do palco que pudesse explicar aquilo.
Mesmo assim, havia.
A fresta era escura, mas não vazia. Dentro dela, alguma coisa se mexia com a lentidão das ideias antes de virarem pensamento.
Lia deu um passo.
Sofia percebeu.
— Lia?
A menina parou.
O chamado da mãe foi suficiente para prendê-la de novo ao chão, mas não para desfazer o que ela tinha visto.
Alice olhou para a irmã.
Dessa vez, não riu.
— Você está estranha.
— Eu sei — disse Lia.
E era verdade.
Ela estava estranha.
Mas não de um jeito ruim.
Estava como uma página antes de ser escrita.
Hugo continuava falando.
— Escrever não é só colocar palavras no papel. É mexer na ordem secreta das coisas.
A fresta se abriu um pouco mais.
Emília agora também parecia inquieta.
— Lia… por que eu tô achando que aquele palco tá olhando pra gente?
Alice respondeu antes:
— Porque vocês duas têm imaginação demais.
Mas sua voz falhou no fim.
Lia olhou novamente para o cartaz torto.
A frase do logosgrafema ainda estava lá.
Só que agora uma palavra nova surgia abaixo dela, escrita devagar, sem mão alguma segurando caneta:
logosgrafar
Lia leu em silêncio.
E, ao ler, compreendeu sem explicar.
Logosgrafar não era simplesmente escrever.
Era tocar uma palavra até que ela abrisse uma passagem.
Era fazer com que o sentido, cansado de ficar escondido, empurrasse a porta por dentro.
A fresta atrás do palco brilhou.
Lia deu outro passo.
Dessa vez, ninguém chamou.
Ou talvez todos tenham chamado.
Mas as vozes ficaram longe.
Muito longe.
Como se viessem de uma cidade escrita em outra página.
Mini Dicionário Logosgráfico
logosgrafar
verbo
Ato de escrever, ler ou reorganizar palavras de modo a revelar sentidos ocultos, simbólicos ou ainda não plenamente percebidos; gesto de transformar linguagem em passagem.

