Cinco anos depois: mulheres, de guerra e de paz

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Em Em 2021, quando o quarto episódio do Paulo Falante foi ao ar, havia nele uma indignação muito evidente, quase juvenil em sua pressa de nomear o incômodo. O programa partia da música “Pega isso, pega aquilo”, das Ellens, para tratar do modo como a sobrecarga doméstica ainda recaía sobre as mulheres, especialmente quando a vida cotidiana disfarça exploração sob o nome de amor, costume ou “jeito da casa funcionar”.

A provocação inicial contra o discurso do “mimimi” já revelava uma disposição importante: não aceitar que toda denúncia fosse imediatamente transformada em exagero, histeria ou chatice contemporânea.

Cinco anos depois, talvez o ponto mais significativo não esteja em corrigir aquele Paulo, mas em perceber que ele já intuía uma estrutura maior do que conseguia formular naquele momento. Quando dizia que as pessoas deveriam dividir as tarefas domésticas com maturidade, considerando limitações e habilidades de cada uma, ele falava a partir de uma ética da convivência; hoje, no entanto, essa mesma afirmação pode ser lida de modo mais profundo. Não se trata apenas de maturidade individual, mas de uma herança social que ensinou muitos homens a entenderem o cuidado como ajuda eventual, enquanto ensinou muitas mulheres a carregarem a manutenção da vida como destino.

Também é bonito perceber que o episódio não tentou falar sozinho. Ao convidar Gabi e Elisa para participar, o programa reconhecia, ainda que de forma leve e radiofônica, que certas experiências precisavam ser ditas por quem as vivia. Hoje, essa escolha ganha outro peso: não era apenas uma participação especial, mas um deslocamento necessário do centro da fala. O Paulo Falante trazia a voz de Paulo, mas já ensaiava a ideia de que protagonismo não é posse; é circulação.

A indicação de Erin Brockovich — uma mulher de talento também se ressignifica. Em 2021, o filme aparecia como recomendação cultural; em 2026, ele se revela quase como espelho do próprio tema. A personagem interpretada por Julia Roberts não vence porque se adapta ao modelo esperado de autoridade, mas porque insiste justamente a partir de um lugar desacreditado. A força dela não está em ser aceita pelo sistema, mas em constrangê-lo com sua presença, sua inteligência e sua recusa em desaparecer.

A sinopse, com sua ironia sobre Eva, talvez seja o ponto mais zargoliniano do episódio. A brincadeira com o paraíso, a culpa feminina e a maçã do conhecimento já continha uma crítica mais densa do que parecia: a humanidade construiu uma longa tradição de responsabilizar mulheres pelo desequilíbrio do mundo, como se toda transgressão começasse no gesto feminino de desejar saber. Cinco anos depois, essa imagem se torna ainda mais forte, porque a curiosidade de Eva deixa de ser pecado e passa a ser método: comer o fruto, afinal, talvez tenha sido o primeiro ato de insubordinação epistemológica da história.

O episódio não envelheceu mal. Ele apenas ficou mais nítido. Em 2021, havia indignação, humor e desejo de contribuir. Em 2026, há mais consciência sobre as estruturas que sustentam aquilo que antes aparecia como problema doméstico, relacional ou comportamental.

A revisita, portanto, não precisa apagar nada. Basta reconhecer que algumas falas amadurecem quando encontram, anos depois, uma escuta mais preparada para compreendê-las.

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One response to “Cinco anos depois: mulheres, de guerra e de paz”

  1. […] história da Vivi como fã de Sandy & Junior e, em seguida, dizia que também era fã dela, da Gabi e da Elisa pelo entrosamento no trabalho em 2020, em meio à pandemia de Covid-19. Essa passagem talvez seja o […]

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