O mínimo como projeto de existência

O mínimo protege do erro, mas raramente conduz alguém à própria grandeza.

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Há pessoas que fazem apenas o mínimo. Entregam o que foi pedido, cumprem o horário, assinam onde mandaram assinar e vão embora com a serenidade dos que confundem ausência de falta com presença de mérito.

Não falo dos cansados — estes merecem repouso e delicadeza. Falo dos que transformaram o mínimo em filosofia.

É uma curiosa estética da escassez moral.

Faz-se o mínimo para não ser cobrado. Lê-se o mínimo para ser aprovado. Estuda-se o mínimo para permanecer. E, aos poucos, sem perceber, vive-se o mínimo para existir.

O problema do mínimo é que ele quase sempre vem fantasiado de prudência.

“Pra que mais?”

“Já não basta?”

“Isso não é atribuição minha.”

Frases assim parecem inocentes, mas às vezes escondem um apequenamento voluntário diante da própria potência.

Curioso como essa lógica invade até a formação. Há quem pergunte quantas disciplinas precisa cursar para cumprir carga horária, como quem mede o conhecimento com trena burocrática.

Mas aprender não foi feito para caber em exigência.

Conhecimento não é pedágio.

É expansão.

Sempre me intrigou ver profissionais orgulhosos por terem feito só o obrigatório, como se o mínimo fosse uma medalha e não um piso.

Porque o mínimo protege, sim.

Mas raramente transforma.

E talvez o desenvolvimento humano comece exatamente quando alguém suspeita que cumprir não é o mesmo que crescer.

Não se trata de fazer mais por produtivismo, essa religião moderna da exaustão.

Trata-se de não aceitar que o necessário seja também o desejável.

Há uma diferença entre limite e estreiteza.

Uma é humana.

A outra é escolha.

E talvez toda formação verdadeira comece quando alguém, diante do cálculo do indispensável, ousa perguntar: e se eu aprendesse além?


Mais crônicas, aqui.
0Capa da categoria Acervo com a palavra “Acervo” em letras metálicas prateadas, sendo a letra O substituída por uma maçã prateada. Ao fundo, uma biblioteca digital futurista com estantes, documentos, telas e interfaces tecnológicas em tons de prata.
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