Maracangalha
Capítulo 03
Por: Paulo Ricardo Zargolin
A chegada de Ísis não foi grandiosa. Não houve alarde, nem malas demais, nem perfumes que denunciassem pretensão. Mas ainda assim, algo nela ocupava espaço demais. E era difícil dizer onde, exatamente.
O táxi deixou poeira na entrada de pedras mal dispostas. Cristina saiu primeiro, limpando as mãos no avental. Laura veio depois, devagar, como quem não sabe se espera visita ou sinal.
Ísis desceu do carro com um sorriso largo, óculos escuros e um lenço amarrado no pescoço. Cumprimentou Cristina com um beijo meio no ar, mas sincero. Em seguida, voltou-se para Laura com um olhar que não pedia licença.
— Você é a Laura… — disse. Não foi uma pergunta.
Laura assentiu. Não sabia sorrir sob comando. Ficou ali, com as mãos ocupadas pela barra do vestido, e os olhos presos ao lenço azul que tremulava no pescoço da outra como se soprasse de dentro.
Ísis estendeu a mão. Laura hesitou, depois apertou de leve. A pele era fria, como os talheres de domingo. Mas o toque foi firme, e durou um segundo além do que seria considerado protocolar.
— Trouxe pouca bagagem — disse Ísis, rindo — mas muito barulho.
Cristina soltou uma risada que não se sustentou.
— Aqui o barulho vem mais do vento que das pessoas…
A mala de rodinhas rangeu no chão. Um som tão pequeno e tão fora do lugar que pareceu acordar os santos da estante. Dentro da sala, os objetos pareciam ter se reorganizado sozinhos. Até o relógio da parede, calado há anos, balançou o pêndulo.
Ísis olhou em volta e soltou, com certo encantamento:
— Aqui o tempo não passa — ou então passa escondido.
Laura não respondeu. Nem precisava. No fundo, sabia que algo tinha entrado naquela casa além da visitante.
Na cozinha, Cristina ofereceu café.
— Acabado de coar, como antigamente.
— Como se o presente tivesse que pedir licença pra entrar — comentou Ísis, sem ironia.
A conversa continuou, mas os silêncios se tornaram mais interessantes que as palavras. Enquanto Cristina falava sobre o calor da semana e o desafio de encontrar tomates firmes na feira, Ísis olhava ao redor com olhos de quem decifrava paredes. Laura, quieta, apertava a borda da toalha de crochê com as pontas dos dedos.
— E como vai ser na prefeitura? — perguntou Cristina, fingindo distração.
— Um susto por dia, provavelmente. Mas gosto disso.
Fez uma pausa. Depois, como quem tateia um assunto:
— Maracangalha… é menor do que eu me lembrava, mas… tem coisa aqui. Tem cheiro de história enterrada.
Laura ergueu os olhos. E pela primeira vez, encarou. Por um segundo — só um segundo — sentiu que era ela mesma essa coisa enterrada.




