Por: Paulo Ricardo Zargolin
Infância
Acordei achando que o mundo sabia meu nome.
Nas janelas, o sol parecia bater palmas.
Imaginei que os balões conversavam comigo.
Vi no bolo uma montanha de nuvens doces.
Era pouco, mas parecia infinito.
Ri de coisas pequenas, como quem encontra tesouros.
Soprei a vela com o coração cheio de céu.
Água, estrela, brinquedo: tudo virava milagre.
Recebi abraços como quem ganha asas.
Inventei desejos sem saber pedir demais.
O aniversário era Deus brincando de festa comigo.
Adolescência
Acordei sem paciência para tanta cerimônia.
Ninguém parecia entender o incêndio que eu carregava.
Irritava-me o parabéns cantado fora do tom da minha alma.
Vestiam-me de alegria quando eu só queria desaparecer.
Eu sorria por educação, mas rangia por dentro.
Recusava o bolo como quem recusava o mundo.
Sentia vergonha da infância que ainda me chamava pelo nome.
Ás vezes, queria quebrar os espelhos só para não me explicar.
Revoltava-me contra tudo, inclusive contra o carinho.
Imaginava que crescer era fugir sem deixar endereço.
O aniversário era uma festa tentando abraçar minha tempestade.
Vida adulta
Acordei sem pressa de provar alguma coisa.
Nem todo silêncio agora me parece abandono.
Inventar-se continua difícil, mas já não me assusta tanto.
Vejo nos anos não uma cobrança, mas uma colheita.
Entendo que sobreviver também é uma forma de beleza.
Reconheço, no menino que fui, uma pequena luz teimosa.
Saúdo o adolescente ferido que tentou me proteger.
Árduo foi chegar até aqui sem perder toda a ternura.
Respiro com mais calma diante do que não controlo.
Ilumino minhas perdas sem transformá-las em altar.
O aniversário, enfim, é o tempo me devolvendo a mim mesmo.



