Entre a régua do professor e o coração da criança, a escola revela aquilo que nenhuma lousa apaga.
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Encontrei uma fotografia antiga de uma lousa, uma chave esquecida no fundo de uma gaveta. A gente encontra esse tipo de arquivo por acaso, toca nele sem querer, e alguma porta antiga se abre por dentro.
Era uma lousa de quando eu dava aula.
Não uma lousa cenográfica, dessas que aparecem em propaganda de escola, com letra perfeita, criança sorrindo em câmera lenta e professor segurando livro como quem segura o futuro da humanidade. Era uma lousa real. Dessas que juntam conteúdo, pressa, giz, rotina, recado, cálculo, tentativa de ordem e um pouco de cansaço.
No alto, havia o alfabeto.
Letras maiúsculas, minúsculas, cursivas, bastão. O alfabeto inteiro vigiando a sala como uma espécie de céu gramatical. As crianças, lá embaixo, ainda estavam aprendendo que o mundo podia ser dividido em sons, sílabas, palavras, frases. Ainda estavam descobrindo que a boca dizia uma coisa e a mão podia guardar essa coisa no papel.
A lousa tinha uma agenda.
Português. Caderno. Recreio. Matemática. Produção. Atividade. Essas palavras simples, quando vistas de longe, parecem burocracia escolar. Mas quem já esteve diante de uma turma sabe que a agenda é mais do que uma lista. É uma promessa de sobrevivência. É o professor dizendo, para as crianças e para si mesmo: calma, o dia tem uma sequência. Primeiro fazemos isso. Depois fazemos aquilo. Em algum momento haverá recreio. Em algum momento todos voltarão. Em algum momento a manhã acabará.
Havia também uma atividade de matemática.
Planificação de sólido geométrico. Dobrar. Recortar. Colar.
Hoje, olhando de fora, parece quase poético. Na época, era provavelmente só uma tentativa honesta de fazer a geometria caber na mão das crianças. Um cubo deixava de ser palavra difícil e virava papel, aresta, dobra, cola branca, tesoura sem ponta e aquele desespero coletivo quando alguém recortava a aba errada. A aprendizagem, quase sempre, acontece antes da beleza. A beleza vem depois, quando a memória organiza o caos e transforma tudo em cena.
Em outro pedaço da lousa, havia um texto.
João e Maria recebiam um aviso. Tinham que tomar cuidado com uma velhinha que morava numa casa de doces, porque havia uma bruxa querendo comê-los. Era um bilhete infantil, escrito com a solenidade dos grandes perigos. Ali estavam, juntos, o conto clássico, a alfabetização, o destinatário, a intenção comunicativa e o drama universal de toda criança que descobre que nem tudo que é doce é bom.
Mas o que mais me atravessou não foi o conteúdo.
Foi o canto da lousa.
Ali havia nomes.
Não direi quais, naturalmente. A infância não precisa ser exposta para provar que existiu. Mas eram nomes de alunos bagunceiros, acompanhados de uma espécie de escala. Um nível de bagunça. Uma medição improvisada do caos.
Hoje eu rio.
Na época, talvez eu não risse tanto.
Professor alfabetizador aprende rapidamente que a sala de aula tem muitas camadas. Existe a aula planejada, que mora no caderno. Existe a aula possível, que mora na sala. Existe a aula lembrada, que mora em nós. Entre uma e outra, passam lápis caindo, apontadores quebrando, banheiro pedido a cada cinco minutos, briga por borracha, conversa paralela, criança chorando porque perdeu a vez, criança rindo porque alguém falou uma palavra engraçada, criança que termina antes, criança que nunca começa, criança que sabe tudo, criança que finge que não sabe, criança que pergunta se pode desenhar no verso.
E há os bagunceiros.
Os bagunceiros são uma categoria pedagógica complexa. Não cabem inteiramente no relatório, nem na ocorrência, nem no bilhete para casa. Há o bagunceiro artista, que transforma qualquer silêncio em espetáculo. Há o bagunceiro diplomata, que negocia a própria culpa com argumentos impressionantes. Há o bagunceiro meteorológico, que não faz nada sozinho, mas muda o clima da sala inteira. Há o bagunceiro filosófico, que pergunta “mas por quê?” até desmontar a autoridade do adulto. Há o bagunceiro carente, que bagunça para ser visto. Há o bagunceiro alegre, que ainda não aprendeu onde colocar a vida que sobra.
Naquela lousa, eu tentava classificar o inclassificável.
Nível um. Nível dois. Nível três.
Como se a infância aceitasse escala.
Como se a desordem infantil pudesse ser domesticada por um número.
Talvez eu estivesse bravo. Talvez estivesse cansado. Talvez estivesse tentando evitar que a aula desandasse completamente antes da Educação Física. Quem já deu aula sabe que há momentos em que o professor não está exatamente ensinando; está administrando uma travessia. Ele atravessa quarenta minutos como quem atravessa uma ponte estreita, segurando conteúdo numa mão, autoridade na outra, e rezando para ninguém derrubar a ponte no caminho.
Então vi o coração.
Pequeno, no canto da lousa.
Desenhado por alguma aluna antes de a turma sair para a Educação Física.
Esse detalhe mudou tudo.
Porque a mesma lousa que guardava a minha tentativa de controlar a bagunça guardava, também, uma declaração silenciosa de afeto. De um lado, a régua do professor. Do outro, o coração da criança. De um lado, o adulto tentando dizer: organizem-se. Do outro, a infância respondendo: estamos aqui.
A lousa inteira virou uma síntese da escola.
A escola nunca é apenas conteúdo. Também nunca é apenas afeto. Ela é esse território instável em que os dois se encontram, se atritam, se corrigem, se salvam. Há dia em que o professor precisa escrever nomes. Há dia em que a criança precisa desenhar um coração. E há dias, muitos anos depois, em que uma fotografia nos obriga a reconhecer que ambos estavam dizendo a mesma coisa de modos diferentes: eu me importo com isso aqui.
Talvez a bagunça incomodasse justamente porque eu me importava.
Talvez o coração tenha aparecido justamente porque, apesar da bronca, alguma coisa ali era habitável.
A criança que desenhou aquele coração talvez nem se lembre mais. Talvez tenha crescido, mudado de escola, de cidade, de jeito, de letra. Talvez nunca saiba que um gesto distraído, feito antes de correr para a quadra, sobreviveu dentro de uma fotografia e voltou, anos depois, para me lembrar de uma parte de mim.
Eu também mudei.
Já não estou naquela sala. Já não escrevo a rotina diária naquela lousa. Já não divido a manhã entre produção de texto, recreio, matemática e tentativa de impedir que alguém coma cola. A vida me levou para outros espaços, outras palavras, outras responsabilidades. Mas existe um professor antigo em mim que ainda sabe o peso de uma sala antes da Educação Física. Ainda sabe o som de um ventilador cansado. Ainda sabe a poeira do giz no dedo. Ainda sabe que a criança que mais bagunça, às vezes, é a que mais precisa ser lida.
Olhar aquela fotografia foi reencontrar não apenas uma lousa.
Foi reencontrar uma versão de mim que escrevia no quadro tentando organizar o mundo para crianças pequenas. Um Paulo com menos anos, talvez menos defesas, talvez mais pressa, talvez mais giz na roupa. Um Paulo que achava que estava ensinando letras, números, formas geométricas e gêneros textuais, quando, na verdade, também estava sendo alfabetizado por eles.
Porque professor também aprende a ler.
Lê o silêncio.
Lê a birra.
Lê o desenho no canto.
Lê a bagunça que é pedido.
Lê o coração que aparece sem autorização.
E talvez seja isso que a fotografia veio me dizer: nenhuma lousa é apagada por completo. A gente passa o apagador, a poeira sobe, a aula muda, a turma vai embora, o ano termina. Mas alguma coisa fica. Fica no risco branco que resiste. Fica no canto que ninguém limpou direito. Fica na memória do adulto que, anos depois, encontra uma imagem antiga e percebe que uma sala de aula nunca coube inteiramente dentro da escola.
Naquela lousa havia letras, contas, bilhetes, nomes e níveis de bagunça.
Mas havia, sobretudo, um coração.
E, talvez, olhando agora, seja ele quem tenha entendido a aula antes de mim.




