Maracangalha #05: Um ponto de cada vez

Por: Paulo Ricardo Zargolin

A mesa estava posta com cerimônia doméstica: toalha de crochê lavada no sol, suco de goiaba na jarra de vidro, pão requentado com zelo. Cristina servia em silêncio, seus gestos envoltos na autoridade mansa de quem acredita que cuidar é também manter tudo no lugar.

Ísis sentou-se com naturalidade. Laura, um pouco depois, ajeitou a cadeira como quem procura seu lugar num mundo que já estava montado antes dela nascer.

— Vocês moram aqui há muito tempo? — perguntou Ísis, mordiscando uma fatia de pão com queijo branco.

— Desde que a mãe da Laura se foi — respondeu Cristina. — A casa ficou nossa. É onde a vida aprendeu a andar devagar.

Laura esboçou um sorriso leve. Não era resposta, era reflexo. Mexia o suco com a colher como quem procura o fundo de algo que não está no copo.

— E você… deixou alguém lá em São Paulo? — perguntou Cristina, fingindo casualidade.

Ísis parou por um instante, limpou os lábios com o guardanapo e respondeu com aquela franqueza mansa de quem não precisa dramatizar o que já doeu:

— Terminei um namoro assim que saiu o resultado do concurso.

— Foi difícil? — arriscou Laura, com a voz baixa.

— Foi certo — disse. — A gente se despediu antes do aeroporto. Ele não entendia minha vontade de ir. E eu não queria ficar onde não havia espaço pra mim.

O silêncio se estendeu, preenchido pelo tique-taque do relógio e o zumbido de um inseto que insistia na vidraça.

Cristina encheu os copos mais uma vez.

— E vai se ajeitar aqui com a gente mesmo?

— Por pouco tempo — respondeu. — Pretendo buscar uma kitnet. Não ficaria bem que a assessora de imprensa da prefeitura more na casa do prefeito.

Cristina ajeitou os talheres como quem reposiciona a autoridade no prato.

— Você fala bonito, viu? Só não se esqueça que cidade pequena ouve até o que não foi dito.

— E pensa o que não se atreve a dizer — completou Ísis, sem desafio, mas com pontaria.

Laura observava tudo com olhos de parede: via, mas não interferia. O pão no prato seguia intocado. Mas seus pensamentos já tinham mordido frases que não sabia digerir.

Cristina tentou então reconectar-se a um ponto seguro da conversa, como quem volta ao porto diante de um mar que começa a mostrar fúria nas bordas.

— Sua mãe… foi minha amiga mais querida. A gente se entendia só de olhar. Costurávamos sonhos e vestidos, um ponto de cada vez.

Ísis sorriu. Era um sorriso com ternura, mas também com sombra.

— Mamãe era impecável. Nunca faltava aos jantares, às apresentações da escola, às visitas aos parentes.

Fez uma pausa.

— Mas era como se a alma dela morasse em outro endereço. Tinha saudade do que não viveu. Cresci ouvindo isso nas pausas entre as preces.

Cristina apertou o guardanapo com dedos discretamente tensos.

— Ela tinha um olhar triste, mesmo jovem.

— E nunca soube o motivo — disse Ísis, enxaguando a frase com um gole d’água.

Laura continuava muda, mas havia algo em sua expressão que começava a se desfazer do contorno. Como se uma crença estivesse sendo soprada aos poucos.

— Mas ela me ensinou a fazer malas — continuou Ísis. — A não me demorar onde eu não coubesse inteira.

Cristina levantou-se antes do fim da refeição. Disse que precisava passar um pano no corredor, mas sua pressa denunciava mais que poeira.

Laura recolheu os pratos devagar. Pela primeira vez desde a chegada da prima de consideração, teve vontade de, como quem realmente acolhe, tocar seu ombro. Não o fez. Ainda não.

Mais tarde, quando a casa enfim mergulhou no escuro — um escuro que não era repouso, mas digestão —, Laura cruzou o corredor e notou uma fresta de luz escapando pela porta entreaberta do quarto de hóspedes.

Não havia som. Só o filete dourado da vela projetado no chão, tremendo como se respirasse.

Espiou devagar. Ísis estava sentada na beira da cama, de costas, os cabelos soltos, um livro fechado no colo. Sobre a mesinha, uma vela acesa — pequena, mas firme. A chama dançava, testando os limites da noite sem pressa de apagar.

Laura ficou ali, alguns segundos, respirando o silêncio daquela cena como quem vê um presságio sem saber o nome. Depois voltou ao quarto com os pés descalços e o coração aceso — sem, no entanto, compreender o motivo.


Retome o quarto capítulo, aqui.
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