Maracangalha
Capítulo 04
Por: Paulo Ricardo Zargolin
O gabinete do prefeito Agenor cheirava a suor antigo, desodorante vencido e papel molhado. O ventilador no canto gemia, cuspindo ar quente sobre uma planta morta num vaso brilhante demais. Tudo ali era limpeza de vitrine sobre podridão de porão.
Agenor estava de mangas arregaçadas e olhos encovados. Apertava os próprios dedos como quem contava pecados que só ele conhecia. Usava uma gravata bege com nó frouxo — dessas que fingem descontração, mas nasceram em curso de oratória política.
— Ele quer o contrato pra semana que vem — disse o assessor, sem erguer os olhos.
— A licitação nem abriu, Agenor. Nem tem nome pra empresa.
— Claro que tem. Tá no nome da irmã dele. Ou da empregada. Tanto faz. Desde que o carimbo esteja certo e o recibo volte assinado.
O assessor, um homem magro com a alma já desidratada, esfregava a borda do celular como quem busca uma saída pela tela.
— E a orla?
— A orla é fotografia, meu filho. É moldura pra campanha. A gente cava um buraco, finca uma estaca, chama a imprensa e diz que o mar tá chegando. Pronto. Ninguém pergunta por que a areia não molha.
No canto do gabinete, um porta-retrato com a imagem de Laura ainda criança. O vestido branco, a fita azul, o sorriso hesitante. Agenor mirou aquilo como se visse um documento antigo. Passou os olhos, mas não pousou.
— Precisamos pensar no sucessor — disse o assessor, tateando o tema como quem pisa em telhado podre.
— Já tá escolhido.
— O povo não gosta dele.
Agenor ergueu os olhos, com a calma de quem já perdeu o pudor:
— O povo nunca gostou de ninguém. Gostar é luxo. Eles votam em quem a gente manda. Até agora, sempre funcionou.
O assessor, por fim, calou. A voz engasgou no orgulho, mas não reagiu. Do lado de fora, um carro de som passou testando vinheta: “Maracangalha vai avançar!”. A música vazava pelas venezianas, repetitiva, alegre demais, nojenta, um doce ruim, como se o progresso viesse embalado em plástico colorido.
— Essa eleição tem que parecer limpa — disse Agenor, acendendo um cigarro sob a plaquinha de “Ambiente climatizado”.
— A sujeira, a gente esconde com gravata.
E ficou ali, soltando a fumaça devagar, como quem ensina o próprio veneno a ter elegância.
O assessor passou a mão no rosto, como quem tenta acordar de uma ressaca ética. A barba por fazer, o suor na nuca, os botões da camisa apertando o que restava de dignidade. Havia um envelope pardo sobre a mesa, com letras garrafais escritas a caneta: CONFIDENCIAL. Agenor não o abriu. Só passou o dedo por cima, como quem confere o peso do segredo, sem coragem de encarar o conteúdo.
— Você já leu isso? — perguntou o assessor, a voz mais baixa que o ar.
— Claro que não.
— Mas vai assinar?
— Claro que sim.
No canto da sala, a impressora começou a ronronar um documento. Era como se a máquina soubesse de cor os moldes da fraude: ela cuspia as páginas com pressa, já ciente de onde receberiam o carimbo. Nenhum dos dois foi até lá pegar. O barulho era parte do ambiente. Parte da decoração moral do lugar.
Agenor se levantou devagar, foi até o frigobar e tirou uma latinha de refrigerante quente. Abriu com um estalo suado. Olhou pela janela embaçada — que dava pra um muro. Nem céu, nem rua. Muro. Paredão cinza que impedia qualquer ilusão.
— Sabe o que me cansa? — disse ele, já quase com ternura. — É ter que fingir arrependimento quando algo vaza. O povo, coitado… se escandaliza todo. Como se já não soubessem que estão dentro de um teatro sujo, pagando ingresso com voto parcelado.




