Por: Paulo Ricardo Zargolin
Uma sátira pop e afetuosa à fórmula de Walcyr Carrasco: entre Xica da Silva, Ana Francisca, Clara e a nova Quem Ama, Cuida, o folhetim brasileiro prova que repetir também pode ser linguagem, ritual e vício nacional.
Há autores que escrevem novelas. Walcyr Carrasco parece escrever um território. A gente entra por uma fazenda, sai por uma cidadezinha, tropeça num segredo de família, cai numa herança mal resolvida, encontra uma vilã de vestido impecável, um núcleo cômico aos berros, uma mocinha injustiçada, um homem rico com culpa antiga, uma criança esperta, uma criada que sabe demais, um delegado distraído, uma mesa de jantar onde todo mundo finge civilidade enquanto a tragédia passa o cafezinho.
E, mesmo assim, a gente assiste.
Talvez seja essa a maior vitória do multiverso Walcyr: ele não esconde a fórmula. Ele a põe no centro da sala, passa um pano rendado por cima, acende uma vela, serve bolo de fubá, chama a vilã para sentar e deixa o público descobrir, mais uma vez, que repetição também pode ser ritual.
Agora, com Quem Ama Cuida, atual trama das nove da Globo, Walcyr retorna ao horário nobre ao lado de Claudia Souto, prometendo novamente aquilo que seu universo sabe entregar: amor ferido, justiça tardia, tragédia doméstica, recomeço emocional e aquela arquitetura moral em que ninguém sofre pouco, ninguém ama sem consequência e ninguém esconde um segredo sem que ele bata na porta durante o jantar.
Mas é injusto tratar essa repetição como pobreza criativa. Fórmula, quando dá errado, vira preguiça. Quando dá certo, vira linguagem. E Walcyr tem linguagem. Desde Xica da Silva, quando já havia ali um gosto pelo excesso, pela ascensão improvável, pelo desejo como força social e pela personagem que se levanta contra a ordem que tentou esmagá-la, sua dramaturgia parece dizer ao Brasil: a vida é melodrama, sim — e quem disser que não é talvez esteja apenas disfarçando melhor o próprio barraco.
O povo não ama Walcyr porque ele inventa uma novela completamente nova a cada vez. O povo ama Walcyr porque reconhece a casa. Muda o papel de parede, muda a década, muda a fazenda, muda a empresa, muda o santo na parede, muda o tipo de herança, mas a casa está lá. E, nessa casa, sempre existe alguém sendo humilhado antes de vencer, alguém sendo desmascarado antes de cair, alguém fazendo graça para que a dor não vire um velório permanente.
É o folhetim em sua forma mais assumida: a pedagogia do exagero. Walcyr não cochicha o conflito; ele coloca o conflito numa bandeja, manda servir na sala e ainda põe uma trilha sonora para avisar que a bofetada moral vem depois do intervalo.
Há quem torça o nariz. Há quem diga que é tudo igual. E talvez seja mesmo. Mas “tudo igual”, quando encontra o ponto certo, vira assinatura. A maçã também é sempre maçã — e nem por isso deixa de provocar queda, desejo, conhecimento ou torta.
O multiverso Walcyr funciona porque ele entende uma coisa que a crítica sofisticada às vezes esquece: novela não é apenas novidade. Novela é companhia. É reencontro. É a sensação de voltar a um lugar onde a injustiça pode até demorar, mas costuma receber endereço, nome completo e punição em horário nacional.
Por isso, saudemos a fórmula. Saudemos a vilã que ainda não derramou todo o veneno. Saudemos a mocinha que perderá quase tudo antes de descobrir a própria força. Saudemos o núcleo cômico que parece exagerado até lembrarmos que o Brasil real também fala alto na fila, no cartório, no grupo da família e no caixa do supermercado.
Walcyr Carrasco não faz apenas novelas parecidas. Ele construiu uma espécie de parque temático do folhetim brasileiro: entramos rindo, saímos comentando, juramos que já vimos aquilo antes — e, no dia seguinte, estamos lá de novo.
Porque quem ama, cuida.
E quem ama novela, repete.




