A cadeira que ainda não tinha nome

Magenta! apresenta: #OJogo

Segunda parte — A mesa responde

Capítulo 5

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Na segunda parte de O Jogo, a mesa começa a responder. Paulinho e Caio descobrem que ninguém entra por acaso: cada cadeira vazia espera uma resposta, cada pergunta abre uma passagem, e o simples ato de dizer “sim” pode ser suficiente para transformar presença em destino.

Paulinho tentou se levantar.

Não conseguiu.

Não havia cordas.
Não havia mãos.
Não havia qualquer coisa visível impedindo o movimento.

Ainda assim, o corpo permaneceu sentado.

A cadeira não o prendia.
A cadeira o reconhecia.

Essa diferença pareceu importante demais para ser ignorada.

Paulinho olhou para baixo. As próprias pernas estavam ali, obedientes, inteiras, reais o bastante para doerem se ele batesse o joelho na mesa. Tentou mover o pé direito. Conseguiu. Tentou afastar o corpo para trás. A cadeira acompanhou o gesto por uma fração mínima e depois parou, como se tivesse encontrado o limite exato entre permissão e recusa.

À esquerda, Caio respirava curto.

Não chorava mais.

Ou talvez ainda chorasse, mas por dentro, naquele lugar onde o medo deixa de escorrer e começa a endurecer.

— Paulinho.

A voz dele saiu pequena demais para o tamanho da mesa.

Paulinho não respondeu de imediato.

Estava olhando para a carta presa diante de si.

O Compartimento MAGENTA! parecia mais sólido ali do que no quarto. Antes, sobre a cama, ele era um objeto estranho. Na mesa, era outra coisa. Pertencia ao lugar. Não como peça colocada ali, mas como órgão. Como se a mesa tivesse crescido ao redor dele e não o contrário.

A carta estava fixa.

Quatro quadrantes.

Magenta.
Ciano.
Amarelo.
Preto.

Ou talvez não.

Paulinho não podia ver a própria carta de frente. Via apenas a borda, o verso preso, o desenho parcial escondido pelo suporte. Sabia que ela estava ali. Sabia que havia uma orientação. Sabia que aquela orientação importava.

Mas saber que algo importa não é o mesmo que saber o que fazer com isso.

— Paulinho — Caio repetiu.

Dessa vez, Paulinho virou o rosto.

Caio estava pálido. Os olhos procuravam alguma porta, alguma janela, algum erro no cenário que permitisse chamar aquilo de sonho comum. Mas não havia saída. Havia mesa.

E mesa, naquele lugar, era pior que parede.

— Você também não consegue levantar? — Caio perguntou.

Paulinho tentou de novo.

A cadeira rangeu.

Não alto.
Não forte.
Apenas o suficiente para responder.

— Não do jeito que eu quero.

Caio fechou os olhos por um segundo.

— Que resposta horrível.

Paulinho concordou em silêncio.

A mesa era grande, escura, lisa demais. Não refletia os rostos, mas guardava sombras. No centro, a caixa permanecia aberta, com a tampa inclinada para trás. As palavras ainda estavam lá, formadas por ausência:

Nem todo sonho termina quando alguém acorda.

Paulinho olhou para a frase por tempo demais.

As letras não se mexiam.

Mas pareciam continuar sendo escritas.

Ao redor da mesa, havia cadeiras vazias.

Não muitas.

O suficiente.

Paulinho contou.

Uma diante dele. Ocupada por ele mesmo.
Uma à esquerda. Caio.
Uma à direita. Vazia.
Mais uma depois de Caio. Vazia.
Outra mais distante, quase engolida pela sombra. Vazia.

Não pareciam cadeiras disponíveis.

Pareciam lugares reservados.

Isso o incomodou mais do que qualquer tranca.

Lugar vazio é uma ausência.

Lugar reservado é uma promessa.

A cadeira à direita de Paulinho rangeu.

Ele virou depressa.

Nada.

O assento continuava vazio.

Mas agora havia algo sobre a mesa diante dela.

Uma folha.

Paulinho teve certeza de que a folha não estava ali antes.

Era parecida com a sua. Quadrantes vazios. Linhas discretas. Espaços para anotações. No canto superior, uma marca circular em magenta, quase apagada, como se tivesse sido impressa de dentro para fora.

Um lápis rolou lentamente até parar junto à folha.

Caio viu.

— Isso também apareceu agora?

Paulinho assentiu.

— Acho que sim.

— Você acha?

— Eu estou tentando não ter certeza cedo demais.

Caio soltou uma risada sem riso.

— Ótimo. Viramos filósofos sequestrados por papelaria.

A frase deveria aliviar alguma coisa.

Não aliviou.

Porque, no instante em que Caio terminou de falar, o lápis da cadeira vazia se moveu sozinho.

Não muito.

Apenas girou alguns centímetros.

A ponta apontou para Paulinho.

Depois parou.

Caio recuou o corpo, mas a cadeira dele também não permitiu muito.

— Não gostei disso.

Paulinho olhou para o lápis.

— Acho que não era para gostar.

A cadeira vazia rangeu de novo.

Desta vez, não pareceu madeira.

Pareceu impaciência.

Paulinho sentiu um arrepio subir pelos braços.

A mesa queria alguma coisa.

Não.
Corrigiu-se.

A mesa não queria.

A mesa aguardava.

Querer era humano demais para aquilo.

Caio passou a mão no rosto.

— A gente tem que jogar?

Paulinho olhou para ele.

A pergunta era grande demais.

O ar não mudou. A mesa não reagiu. A caixa não fez som. Nada naquela pergunta encontrou encaixe.

Caio percebeu também.

— Ela não respondeu.

— Talvez porque não seja pergunta do jogo.

— Ah, claro. Desculpa. Vou perguntar com educação para o tabuleiro demoníaco.

— Caio.

— O quê?

Paulinho apontou para a cadeira vazia.

Caio acompanhou o gesto.

A folha diante do lugar sem dono havia mudado.

Não muito.

Mas havia, agora, uma linha escrita no alto.

Ninguém leu de imediato.

Não por distância.

Por defesa.

As palavras, quando finalmente se deixaram ver, eram simples demais:

A terceira resposta ainda não chegou.

Caio ficou imóvel.

— Terceira resposta?

Paulinho sentiu a garganta fechar.

A frase não dizia “terceiro jogador”.

Não dizia “terceira pessoa”.

Dizia resposta.

Como se, naquele lugar, uma pessoa só começasse a existir depois de responder a alguma coisa.

O celular de Paulinho estava sobre a mesa.

Ele não lembrava de tê-lo colocado ali.

No quarto, segurava o aparelho com as duas mãos. Depois tudo apagou. Depois a mesa. Agora o celular estava diante dele, ao lado da folha, com a tela virada para cima.

Apagada.

Paulinho tentou pegá-lo.

Conseguiu.

A cadeira permitiu.

Isso o assustou mais.

Algumas ações eram possíveis.

Outras, não.

O jogo não bloqueava tudo.

Só o que ameaçava a forma.

A tela acendeu.

Não havia sinal.

Não havia horário.

No lugar onde deveriam estar os ícones comuns, havia apenas quatro pontos pequenos no alto: magenta, ciano, amarelo e preto.

Caio inclinou o corpo.

— Tem internet nesse inferno?

— Não sei.

— Manda mensagem pra alguém.

Paulinho olhou para ele.

— Foi assim que você veio.

Caio abriu a boca.

Fechou.

A lembrança voltou aos dois ao mesmo tempo.

Sim.
Não.
Tô na esquina.
Jogador confirmado.

Caio engoliu seco.

— Então não manda.

O celular vibrou.

Os dois se afastaram como se o aparelho tivesse respirado.

A tela abriu sozinha na lista de contatos.

Mas não era a lista inteira.

Havia nomes faltando.

Muitos.

Quase todos.

Restavam poucos.

Nomes conhecidos, mas não todos os conhecidos. Amigos de escola. Gente que já estivera na casa da avó. Pessoas com quem Paulinho dividira trabalhos, recreios, conversas partidas, mensagens esquecidas.

O jogo não mostrava possibilidades.

Mostrava compatibilidades.

Caio apontou para um nome.

— Lia.

Paulinho já estava olhando para ele.

Lia.

O nome parecia mais nítido que os outros.

Não brilhava.

Não tremia.

Apenas ocupava melhor a tela, como se as letras tivessem peso próprio.

Lia era amiga deles, mas de outro jeito.

Caio era barulho, improviso, piada antes do desastre.

Lia era observação.

Ela tinha uma mania irritante de ouvir até o fim. Não por delicadeza. Por método. Quando alguém contava uma história, ela não ria no ponto esperado. Guardava uma pergunta para depois. E essa pergunta, quase sempre, estragava a versão mais confortável dos fatos.

Paulinho lembrou de uma tarde em que Caio inventou uma desculpa qualquer para não entregar um trabalho. Lia ouviu tudo calada. Depois perguntou:

— Se sua internet caiu às oito, como você mandou meme às oito e quinze?

Caio nunca perdoou aquela precisão.

Talvez por isso o nome dela estivesse ali.

Ou talvez o jogo apenas soubesse que uma mesa feita de respostas precisava de alguém capaz de desconfiar das perguntas.

— Não — Caio disse.

Paulinho olhou para ele.

— Você acabou de apontar.

— Eu apontei porque vi. Não porque concordei. Não chama a Lia para isso.

— Eu também não chamei você.

Caio ficou quieto.

A frase não foi cruel.

Foi pior.

Foi correta.

Paulinho olhou para a cadeira vazia.

A folha ainda dizia:

A terceira resposta ainda não chegou.

O celular abriu a conversa com Lia.

Nenhuma mensagem anterior aparecia.

Isso era impossível.

Paulinho tinha conversas antigas com ela. Trabalhos. Figurinhas. Áudios. Discussões sobre filmes que Caio interrompia sem ter assistido. Mas ali não havia histórico. Só campo em branco.

Como se o jogo não aceitasse passado que não servisse à partida.

O cursor piscava.

Paulinho sentiu as mãos frias.

— O que eu pergunto?

Caio respondeu rápido:

— Nada.

A mesa não reagiu.

Paulinho quase sorriu.

Caio percebeu.

— Não começa.

— Sua resposta não valeu.

— Graças a Deus.

Paulinho olhou de novo para a tela.

Uma pergunta começou a se formar no campo de digitação.

Não escrita por ele.

Letra por letra.

Você está sozinha?

Paulinho segurou o celular com força.

— Não.

Caio olhou.

— O quê?

Paulinho mostrou a tela.

Caio leu.

— Apaga.

Paulinho tentou.

A frase não apagou.

Tentou selecionar. Nada.

Tentou bloquear o aparelho. A tela permaneceu acesa.

A pergunta continuava ali.

Você está sozinha?

— Isso é covardia — Caio disse.

Paulinho sabia por quê.

Perguntar se alguém estava sozinha não parecia uma pergunta sobre jogo.

Parecia armadilha.

Parecia medir vulnerabilidade.

Parecia escolher o momento certo de arrancar alguém do mundo.

Paulinho encostou o dedo no botão de envio.

Não apertou.

A cadeira à direita rangeu.

A folha mudou.

A terceira resposta ainda não chegou.

Depois, abaixo, apareceu outra linha:

Toda entrada começa por uma pergunta possível.

Caio leu e balançou a cabeça.

— Possível pra quem?

Paulinho respirou fundo.

Apagou mentalmente todas as explicações.

Não havia explicação.

Havia decisão.

— Eu não vou perguntar isso.

A luz da mesa diminuiu.

Não apagou.

Apenas retirou um pouco de mundo das bordas.

Caio ficou tenso.

— Paulinho…

— Não vou.

O celular vibrou de novo.

A frase desapareceu.

Por um segundo, o campo ficou vazio.

Depois outra pergunta surgiu.

Você está acordada?

Caio olhou para Paulinho.

Paulinho olhou para a pergunta.

Era melhor.

Ou parecia.

Ainda era perigosa, mas de outro modo. Não invadia o lugar. Tocava o estado. A pergunta tinha sim ou não. Era fechada. Cabia.

Mas caber não significava ser inocente.

Paulinho pensou na avó repetindo frases.
No café que não esfriava.
No quarto que era cenário.
Na porta que não abria.
Em Caio dizendo “eu não vim”.

Você está acordada?

Se Lia respondesse “sim”, o que isso provaria?

Nada.

Ou tudo errado.

Paulinho sentiu, pela primeira vez, que a pergunta não era só instrumento. Era isca.

— Talvez ela nem receba — Caio disse, quase implorando.

Paulinho olhou para ele.

— Você recebeu.

— Eu queria muito que esse argumento fosse pior.

O dedo tocou a tela.

A mensagem foi enviada.

Não subiu como mensagem comum.

Deslizou.

Como peça empurrada sobre tabuleiro.

Por alguns segundos, nada aconteceu.

A mesa permaneceu imóvel.

A cadeira vazia também.

Caio não respirava direito.

Paulinho encarava a tela.

Nenhum tique azul. Nenhum sinal. Nenhuma indicação de entrega.

Então surgiram três pontos.

Lia estava digitando.

Caio fechou os olhos.

A resposta veio:

Sim.

A palavra permaneceu sozinha na tela.

Sim.

Paulinho não conseguiu sentir alívio.

Sim podia significar que Lia estava acordada.

Ou que acreditava estar.

Ou que, como Caio, havia respondido de dentro de um quarto que talvez já não fosse quarto.

A cadeira à direita rangeu.

A folha diante dela ficou lisa.

A inscrição desapareceu.

O lápis rolou até a borda.

A mesa inteira pareceu prender o ar.

Caio sussurrou:

— Não.

A tela vibrou outra vez.

Lia enviou nova mensagem.

Por que você está perguntando isso?

Paulinho quase respondeu.

Os dedos começaram a formar uma explicação.

“Não sei.”

“Tem uma coisa acontecendo.”

“Não responde mais.”

“Desliga o celular.”

Nenhuma frase completou.

O campo de digitação travou.

A mesa não queria conversa.

Queria entrada.

A terceira resposta ainda não chegou.

Paulinho entendeu tarde demais.

O “sim” não tinha bastado.

Talvez porque fosse resposta à pergunta.

Mas não à mesa.

A cadeira vazia ainda não tinha nome.

O celular escureceu.

Depois acendeu sozinho.

Nova pergunta, formada sem pressa:

Você aceita jogar?

Caio soltou uma palavra que Paulinho não entendeu.

Talvez fosse xingamento.

Talvez fosse oração.

A pergunta era direta demais.

Paulinho não gostou.

O jogo, até então, parecia preferir frestas. Agora oferecia uma porta. E portas oferecidas por coisas que prendem pessoas à mesa nunca são portas de verdade.

— Não manda — Caio disse.

Paulinho concordou.

Não mandaria.

Antes que pudesse afastar o celular, a mensagem foi enviada sozinha.

Você aceita jogar?

Paulinho largou o aparelho sobre a mesa como se queimasse.

— Eu não mandei.

Caio olhou para ele.

Não acusou.

Esse foi o pior sinal.

Caio acreditou.

Os três pontos apareceram quase imediatamente.

Depois sumiram.

Apareceram de novo.

Sumiram.

O silêncio se estendeu.

A cadeira vazia começou a se mover.

Não para trás.

Para dentro.

Aproximou-se da mesa alguns centímetros.

Ainda vazia.

Esperando a resposta antes do corpo.

A mensagem chegou:

Que jogo?

Paulinho sentiu um alívio absurdo.

Não era sim.

Não era não.

Era pergunta.

Pergunta não servia.

A cadeira parou.

Caio abriu os olhos.

— Ela quebrou?

Paulinho observou a tela.

Que jogo?

As letras pareciam vivas, mas não do mesmo jeito que as frases da caixa.

Eram dela.

E isso tornava tudo mais triste.

Lia ainda estava do outro lado.

Ainda havia alguém fora da mesa.

Ainda havia mundo.

Talvez.

Paulinho tentou digitar:

Não responde mais.

Dessa vez, o campo permitiu.

Ele escreveu.

Antes de enviar, a frase se apagou sozinha.

No lugar, a pergunta anterior reapareceu:

Você aceita jogar?

Caio murmurou:

— Ele vai insistir.

Paulinho olhou para a cadeira.

A folha estava em branco. O lápis esperava. O Compartimento MAGENTA! diante dela permanecia fechado, mas agora havia uma carta em seu interior. Paulinho não a vira surgir. Talvez sempre estivesse ali. Talvez as peças só aparecessem quando a pessoa começava a caber no lugar.

Lia respondeu de novo:

Isso é do Caio?

Caio arregalou os olhos.

— Eu?

Paulinho quase riu.

Quase.

A normalidade daquela suspeita doeu.

Em qualquer outro dia, faria sentido. Se havia uma brincadeira idiota acontecendo, Caio seria culpado até prova em contrário. Lia conhecia o mundo o suficiente para começar pela hipótese mais simples.

Mas ali a hipótese simples já tinha morrido.

O celular enviou sozinho, pela terceira vez:

Você aceita jogar?

Desta vez, logo abaixo, apareceu outra linha.

Responda sim ou não.

Paulinho fechou os olhos.

O jogo estava aprendendo a falar com ela.

Ou ensinando.

Caio se inclinou para a tela.

— Lia, responde não — ele disse, como se ela pudesse ouvir.

A mensagem chegou:

Não sei que jogo é esse.

A cadeira vazia tremeu.

Não de raiva.

De inadequação.

A resposta não cabia.

Paulinho percebeu algo.

— Ela está resistindo.

— Ela nem sabe ao que.

— Talvez por isso.

O celular vibrou.

Nova mensagem dela:

Vocês estão me assustando.

Caio levou as mãos ao rosto.

— Para. Para com isso.

Paulinho não sabia se Caio falava com ele, com a mesa ou com alguma parte do mundo que ainda pudesse ter piedade.

A tela apagou.

Por um instante, tudo pareceu acabar.

A cadeira vazia ficou quieta.

A folha permaneceu em branco.

A caixa não fez som.

Então o aparelho acendeu de novo.

Desta vez, não havia conversa.

Havia apenas a câmera frontal aberta.

Paulinho viu o próprio rosto na tela.

Atrás dele, Caio.

Atrás de Caio, a escuridão sem parede daquele lugar.

E, no canto direito da imagem, uma cadeira vazia.

A mesma cadeira.

Mas no reflexo da tela, ela não estava vazia.

Havia alguém sentado.

Paulinho virou o rosto.

A cadeira real continuava vazia.

Olhou de volta para a tela.

Lia estava ali.

Não totalmente.

Como imagem atrasada.

O cabelo preso de qualquer jeito. A camiseta larga. O rosto iluminado por luz de celular. Os olhos atentos, irritados, assustados.

Ela parecia estar em seu quarto.

Mas o quarto aparecia atrás dela como uma memória mal sustentada: uma estante desfocada, um travesseiro, a parede clara. Tudo tremia nas bordas.

Lia olhou para algum ponto fora da câmera.

Depois para a tela.

— Paulinho?

A voz saiu do celular.

Mas também saiu da cadeira.

Caio se levantaria se pudesse.

Como não podia, ficou ainda mais parado.

— Lia? — Paulinho chamou.

Ela franziu a testa.

— O que vocês fizeram?

Caio respondeu antes:

— Nada! Pela primeira vez na vida, nada é uma resposta honesta!

A cadeira vazia rangeu.

Na tela, Lia ouviu o som.

Virou o rosto para trás.

— Que barulho foi esse?

Paulinho não sabia como explicar.

E talvez explicar fosse inútil.

A pergunta apareceu na tela, sobreposta ao rosto dela:

Você aceita jogar?

Lia leu.

Seus olhos mudaram.

Paulinho percebeu o momento exato em que ela deixou de achar que era brincadeira.

Não porque acreditou no impossível.

Mas porque o impossível tinha organização.

Lia aproximou o rosto da câmera.

— Onde vocês estão?

A pergunta atravessou a mesa sem encaixar.

Nada respondeu.

A imagem dela falhou.

Por um segundo, o quarto atrás de Lia desapareceu.

No lugar, Paulinho viu outra cadeira.

A dela.

Vazia.

Aguardando.

Quando a imagem voltou, Lia estava mais pálida.

— Eu vi uma mesa.

Caio sussurrou:

— Não responde.

Mas Lia não olhava mais para eles.

O olhar dela estava fixo em alguma coisa que talvez tivesse surgido no próprio quarto.

— Tem uma folha na minha cama.

Paulinho sentiu o estômago afundar.

— Lia, escuta. Não encosta.

— Tem um lápis também.

— Não encosta.

Ela respirou fundo.

— Por que tem meu nome nela?

A cadeira à direita de Paulinho mudou.

Não fisicamente.

Mas mudou.

O vazio ganhou direção.

A folha sobre a mesa, antes branca, recebeu uma palavra no alto.

LIA.

Caio viu.

— Droga.

Paulinho segurou o celular com as duas mãos.

— Lia, responde não.

Ela olhou para a câmera.

— Para o quê?

A pergunta apareceu de novo.

Você aceita jogar?

Responda sim ou não.

Lia leu em silêncio.

Depois disse, devagar:

— E se eu disser não?

A mesa permaneceu imóvel.

Não por não saber.

Por não precisar convencer.

Paulinho queria responder qualquer coisa. Queria mentir. Queria dizer que ela acordaria. Que a folha desapareceria. Que tudo terminaria. Que o jogo aceitaria a recusa como gente decente aceita uma porta fechada.

Mas ele olhou para Caio.

Caio havia dito não antes de aparecer.

Não para vir.

Não para chegar.

Não para atravessar dez minutos.

E mesmo assim estava ali.

Talvez o “não” não impedisse a entrada.

Talvez apenas definisse a natureza da queda.

— Eu não sei — Paulinho respondeu.

Foi a única frase que não pareceu uma traição.

Lia ficou quieta.

A imagem falhou outra vez.

O quarto dela se apagou pelas bordas.

Agora só havia o rosto.

E atrás do rosto, a mesa.

— Vocês estão aí mesmo — ela disse.

Não era pergunta.

Era dedução.

Caio tentou falar:

— Lia, não—

Mas a voz dele sumiu antes de alcançá-la.

A mesa retirou Caio da conversa.

Ele percebeu e ficou vermelho de raiva.

Paulinho também percebeu.

Agora era entre Lia e a pergunta.

A tela do celular escureceu ao redor do rosto dela. As letras permaneceram.

Você aceita jogar?

Lia respirou.

Uma vez.

Duas.

Ela não era Caio.

Não corria para piada.

Não se debatia contra o absurdo antes de observá-lo.

Lia olhou para a própria folha, fora da tela.

Depois para Paulinho.

— Se eu responder, eu vou para aí?

Paulinho tentou dizer “acho que sim”.

Não conseguiu.

A boca abriu, mas a voz não saiu.

A mesa não aceitava aproximações quando havia uma pergunta melhor no centro.

Lia entendeu.

— Você não pode responder.

Paulinho balançou a cabeça.

Os olhos dela se estreitaram.

Mesmo assustada, Lia estava pensando.

Isso deu a Paulinho um medo novo.

Porque talvez o jogo não quisesse apenas pessoas disponíveis.

Talvez quisesse pessoas úteis.

Lia olhou novamente para a frase.

Depois disse:

— Isso não é convite. É triagem.

A caixa no centro da mesa fez um som baixo.

Um ajuste.

Paulinho gelou.

A palavra dela tinha acertado alguma coisa.

Caio olhou para a caixa.

— Não dá ideia.

Lia não ouviu.

Ou ouviu tarde demais.

A folha diante da cadeira dela recebeu nova inscrição:

Jogadora compatível.

Lia viu pela câmera.

Ou por algum reflexo do próprio quarto.

Seu rosto perdeu cor.

— Jogadora?

Paulinho sentiu vontade de pedir desculpa.

Mas desculpa era pequena demais para aquilo.

A pergunta permaneceu.

Você aceita jogar?

Responda sim ou não.

Lia fechou os olhos.

Por um instante, Paulinho achou que ela diria não.

E talvez dissesse.

Talvez resistisse.

Talvez ficasse presa no próprio quarto, com uma folha impossível sobre a cama, até que a manhã acabasse ou o mundo cedesse.

Mas então alguma coisa aconteceu.

Não na tela.

Na mesa.

A cadeira à direita dele se afastou um pouco.

Como se abrisse espaço para o corpo antes da decisão.

Lia abriu os olhos.

— Se eu disser sim, pelo menos eu fico com vocês?

Caio tentou responder.

Nada.

Paulinho também.

Nada.

Lia soltou uma risada mínima.

— Que ótimo. Até o silêncio de vocês está com regra.

Ela olhou para Paulinho uma última vez.

Não parecia pedir permissão.

Parecia registrar testemunha.

Então respondeu:

— Sim.

A palavra saiu pelo celular.

Mas não ficou nele.

Atravessou a mesa.

A cadeira vazia puxou o ar ao redor.

A imagem de Lia congelou.

Por um segundo, Paulinho viu as duas versões dela: a menina no quarto, iluminada pela tela, e a ausência na cadeira, desenhada pelo jogo. Depois as duas se sobrepuseram.

Não houve clarão.

Não houve vento.

Não houve grito.

Apenas uma troca silenciosa de lugar.

O celular caiu deitado sobre a mesa.

A tela apagou.

E Lia estava sentada à direita de Paulinho.

Com a mão sobre o lápis.

Com a folha diante de si.

Com o Compartimento MAGENTA! fechado à sua frente.

Ela não se mexeu.

Caio também não.

Paulinho olhou para ela como se olhar demais pudesse quebrá-la.

Lia respirou fundo.

Depois olhou ao redor.

Primeiro para Paulinho.

Depois para Caio.

Depois para a caixa.

Por fim, para a própria cadeira.

— Eu estava no meu quarto — disse.

Caio respondeu baixo:

— Eu também.

Lia levou a mão ao rosto.

Tocou a própria pele, como quem verifica se ainda é matéria.

— Eu respondi só “sim”.

Paulinho sentiu a frase bater na memória.

Sim.

Pequena.
Comum.
Inocente.

Nunca mais.

Lia olhou para ele.

— Sim para quê?

Paulinho não respondeu.

Ela franziu a testa.

— Eu não lembro da pergunta.

A mesa escutou.

A folha de Lia se moveu.

O lápis, ainda sob sua mão, riscou sozinho a primeira linha.

Entrada confirmada.

Abaixo, outra frase apareceu.

A cadeira agora tem nome.

Caio sussurrou:

— Isso não é bom.

Paulinho olhou para a caixa.

No centro da mesa, a tampa aberta parecia menos inclinada do que antes. Como se tivesse se aproximado para observar melhor os três.

As palavras antigas desapareceram lentamente.

No lugar, surgiu uma nova inscrição:

Três respostas formam uma mesa.
Quatro iniciam a ordem.

Lia leu em silêncio.

Caio também.

Paulinho sentiu a presença das outras cadeiras vazias ao redor.

Uma depois de Caio.

Outra mergulhada na sombra.

Lugares demais.

Nomes ainda não escolhidos.

Perguntas ainda não feitas.

Lia ergueu os olhos.

— Tem mais alguém vindo?

Antes que Paulinho respondesse, a cadeira vazia depois de Caio rangeu.

Dessa vez, com nome nenhum.

Mas com fome de resposta.

(continua)

Outras reflexões, aqui.
Acompanhe a jornada, aqui.
Volte ao início, aqui.

Fediverse reactions

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo