Uma lembrança de infância atravessada por dardos, madrugadas e campeonatos domésticos revela, anos depois, uma forma silenciosa de coragem materna: brincar para manter a casa acesa e o medo do lado de fora.
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Houve uma época em que meu pai precisou viajar a trabalho algumas vezes. Não eram viagens longas de novela, dessas que mudam destinos e deixam cartas sobre a mesa. Eram viagens comuns, práticas, provavelmente ligadas a treinamento da empresa. Coisas de adulto. Coisas que, quando somos crianças, entram na casa sem explicação completa.
Eu não sabia exatamente o que significava meu pai estar fora. Sabia apenas que a casa mudava.
À noite, parecia haver mais espaço entre os móveis. Os barulhos ficavam maiores. A porta tinha mais importância. O relógio parecia trabalhar com mais responsabilidade. Tudo continuava no lugar, mas alguma coisa se deslocava.
Nessas noites, minha mãe e eu jogávamos dardos.
Não era metáfora. Era dardo mesmo. Tiro ao alvo. Competição. Pontuação. Brincadeira levada suficientemente a sério para virar campeonato doméstico. Ficávamos ali, às vezes até de madrugada, mirando, errando, acertando, rindo, disputando como se o mundo inteiro dependesse daquela pequena circunferência apoiada no sofá, como se ali coubesse uma arena inteira.
Eu amava.
Amava porque era noite e eu podia ficar acordado. Amava porque minha mãe entrava no jogo. Amava porque havia uma espécie de licença secreta naquele horário em que crianças normalmente deveriam dormir. Enquanto outras casas apagavam suas luzes, a nossa parecia abrir uma arena.
Minha mãe não era uma espectadora da minha infância. Essa talvez seja uma das maiores verdades que só percebi depois. Ela não ficava apenas olhando de fora, mandando tomar banho, guardar brinquedo, desligar a televisão, parar de fazer barulho. Ela entrava. Jogava videogame. Competia. Comentava. Aprendia os caminhos. Descobria fases. E, naquela época, jogava dardos comigo como quem aceitava que a infância também tem seus esportes oficiais.
Eu não sabia que aquilo era raro.
Para mim, mãe era isso também: alguém que podia fazer comida, mandar escovar os dentes, chamar atenção e, de repente, acertar um dardo no alvo no meio da madrugada. Eu não achava extraordinário. Achava apenas meu.
A criança costuma chamar de normal aquilo que, mais tarde, o adulto chamará de precioso.
Durante muito tempo, guardei essa lembrança como uma cena simples: meu pai viajando, minha mãe e eu brincando até cansar. A casa um pouco diferente. A noite um pouco maior. O alvo esperando. Os dardos indo e voltando. Uma disputa sem troféu, dessas que vencem justamente porque ninguém precisa vencer.
Anos depois, soube de outra parte da história.
Minha mãe tinha medo de ficar sozinha comigo em casa quando meu pai viajava.
Ela não me dizia isso. Não me entregava o peso. Não transformava a noite numa ameaça. Não me convocava para carregar uma angústia que não era minha. Em vez disso, me chamava para brincar.
E então a memória mudou sem deixar de ser bonita.
Aquela competição de dardos continuou sendo uma das minhas lembranças felizes. Mas ganhou uma segunda camada. Por trás da brincadeira, havia uma mulher tentando atravessar a noite. Por trás da pontuação, havia companhia. Por trás do riso, havia uma forma discreta de coragem.
Minha mãe mirava no alvo, mas talvez estivesse acertando o medo.
Há amores que não sabem se explicar. Eles não aparecem em grandes discursos, não fazem declaração solene, não pedem reconhecimento. Apenas inventam uma maneira de manter a casa acesa até o sono chegar.
Na infância, eu achava que minha mãe brincava comigo porque eu queria brincar.
Hoje, desconfio que ela brincava comigo também porque precisava não ter medo sozinha.
E talvez seja isso que torne a lembrança ainda mais bonita: sem saber, eu era cuidado por ela; sem saber, eu também fazia companhia.
Jogávamos até cansar.
Depois, íamos dormir.
E a noite, derrotada por alguns dardos, finalmente passava.




