Entre um calhambeque imaginário, uma página em branco e um sinônimo torto sugerido pelo Word, uma criança descobre que escrever também é desconfiar das palavras; mesmo quando o erro parece absolutamente jurídico.
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Houve um tempo em que o Word era brinquedo, oráculo e oficina.
Eu era menino e passava horas diante do computador tentando escrever um livro chamado Os guardiães do Universo. Talvez o plural mais esperado fosse “guardiões”, mas a infância nem sempre obedece às formas mais esperadas. Às vezes, escolhe a palavra que soa mais misteriosa.
E havia mistério naquele título.
O livro, hoje perdido, reunia crianças que recebiam poderes, um Calhambeque e passagens multicoloridas para lugares que eu já não consigo reconstituir. A memória, quando volta, não traz o arquivo inteiro. Traz faíscas. Um carro antigo atravessando o impossível. Crianças escolhidas por alguma força maior. O universo precisando ser salvo por quem ainda nem sabia preencher corretamente uma ficha de escola.
Eu escrevia com a seriedade das brincadeiras.
Essa é uma das coisas mais bonitas da infância: ela brinca como quem funda civilizações. Um adulto pode passar anos procurando método, projeto, conceito, estética. Uma criança senta diante da tela, inventa uma aventura cósmica e segue viagem. Sem bolsa, sem edital, sem parecer, sem medo de parecer ridícula.
O Word estava ali, aberto, branco, obediente e cheio de pequenos poderes.
A página vazia parecia infinita. As letras surgiam como se obedecessem não apenas aos dedos, mas a uma espécie de comando secreto. Havia fontes, tamanhos, negritos, sublinhados vermelhos, sugestões de correção. O computador tinha uma solenidade de máquina adulta, mas, nas minhas mãos, funcionava em modo de brincadeira.
Em algum momento da história, um personagem precisava dizer:
— Que legal!
Mas eu desconfiei.
“Legal” me pareceu simples demais. Informal demais. Infantil demais — justamente eu, uma criança, achando infantil a fala de outra criança dentro de uma aventura em que o mundo já havia sido suficientemente rasgado pelo extraordinário.
Eu queria outra palavra.
Cliquei com o botão direito do mouse.
Naquele tempo, o botão direito tinha qualquer coisa de magia. A gente clicava sobre a palavra, e a máquina abria uma pequena janela de possibilidades. Era como se o texto tivesse fundos falsos, gavetas escondidas, corredores secretos por onde a frase poderia escapar de si mesma.
O Word me ofereceu um sinônimo.
E a frase virou:
— Que jurídico!
Achei incrível.
Por algum tempo, devo ter acreditado que havia sofisticado a literatura. Onde antes havia uma exclamação comum, agora havia uma palavra adulta, importante, quase engravatada. Diante do espanto, meu personagem não dizia apenas que aquilo era bacana. Dizia que era jurídico.
Depois fui entender que o Word não estava me ajudando.
Ele apenas confundira sentidos. Para a máquina, “legal” podia ser aquilo que pertence à lei. Não importava o personagem, a idade, o susto, a cena fantástica, a urgência da aventura. O programa não escutava o mundo. Apenas abria um armário e entregava uma palavra parecida.
Mas há erros que permanecem porque ensinam mais do que os acertos.
“Que jurídico!” talvez tenha sido uma das minhas primeiras aulas sobre linguagem. Não uma aula formal, dessas com nome no quadro e explicação organizada. Foi uma aula escondida dentro do equívoco. A máquina podia sugerir. O menino podia aceitar. Mas a frase, coitada, precisava viver na boca de alguém.
E aquela não vivia.
Ou talvez vivesse de outro jeito: como lembrança.
Hoje, quando penso naquele menino diante do Word, não sinto vontade de corrigi-lo. Sinto vontade de protegê-lo. Ele estava errado, claro. Mas estava errado na direção certa. Queria melhorar a frase. Queria ultrapassar o óbvio. Queria que a palavra coubesse no tamanho do espanto que havia inventado.
Isso, de algum modo, já era vanguarda.
Não a vanguarda dos manifestos, dos movimentos literários ou das grandes rupturas anunciadas em jornais. Era uma vanguarda doméstica, instalada em um computador comum, no silêncio de uma casa, diante de uma criança que ainda não sabia que escrever também é desconfiar das palavras disponíveis.
O menino de Os guardiães do Universo não publicou o livro. Talvez nem tenha terminado. Talvez o arquivo tenha se perdido em algum computador antigo, em algum disquete esquecido, em alguma pasta apagada sem cerimônia. Mas as ideias têm um jeito estranho de sobreviver ao desaparecimento dos documentos.
Elas mudam de roupa.
Uma aventura infantil pode virar metáfora. Uma passagem colorida pode virar memória. Uma frase errada pode virar crônica. Um livro perdido pode continuar trabalhando por dentro de quem o escreveu.
Talvez nada morra completamente quando foi imaginado com força suficiente.
O universo daquele menino se perdeu, mas alguma coisa dele ficou. Ficou a vontade de atravessar linguagens. Ficou o fascínio pelas máquinas. Ficou a desconfiança diante da palavra fácil. Ficou a alegria meio absurda de perceber que escrever é conduzir alguma coisa antiga por caminhos que ninguém asfaltou.
Toda ferramenta, no fundo, é um veículo imperfeito.
Pode engasgar, errar a marcha, entregar “jurídico” quando o personagem só queria dizer “legal”. Mas também pode levar a lugares improváveis quando há alguém segurando o volante.
E talvez seja isso que me comova agora: perceber que, antes de qualquer nome bonito para a criação, havia apenas um menino tentando fazer literatura com os recursos que tinha. Um menino que ainda não sabia separar erro de descoberta. Um menino que aceitava sinônimos tortos porque queria muito que o texto crescesse.
No fundo, Os guardiães do Universo nunca foi apenas um livro perdido.
Foi um ensaio.
Um laboratório.
Uma primeira travessia.
A página branca era a passagem. O Word era a máquina. A imaginação, o combustível. E eu, menino, seguia digitando como quem acreditava que, se encontrasse a palavra certa, talvez conseguisse mesmo salvar alguma coisa.
Não salvei o universo.
Mas salvei a cena.
E, convenhamos, para uma criança diante de um computador, tentando transformar espanto em linguagem, isso já era absolutamente jurídico.




