O segredo que entrou sorrindo

Magenta! apresenta: #OJogo

Segunda parte — A mesa responde

Capítulo 7

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Com Davi finalmente à mesa, a partida começa a ganhar ritmo — e perigo. Entre piadas, suspeitas e respostas que nunca dizem tudo, Paulinho, Caio e Lia percebem que MAGENTA! não é apenas um jogo de cores, mas de natureza, leitura e risco.

Davi estava digitando.

A frase apareceu nas três telas ao mesmo tempo.

Paulinho olhou para o próprio celular.

Caio olhou para o dele.

Lia olhou para o aparelho que não lembrava de ter trazido e que, ainda assim, estava ali, ao lado de sua folha, como se sempre tivesse pertencido à mesa.

Davi estava digitando.

Depois parou.

A cadeira vazia à esquerda de Caio rangeu.

Caio fechou os olhos.

— Eu retiro tudo de ruim que já disse sobre ficar só nós três.

Lia não tirou os olhos da tela.

— Não dá para retirar depois que a mesa ouviu.

— Você está ficando muito confortável com frases horríveis.

— Estou me adaptando.

— Isso também é horrível.

A pergunta continuava ali:

Você sabe guardar segredo, Davi?

Abaixo, duas opções.

Sim.

Não.

Paulinho sentiu um incômodo diferente.

Com Caio, havia medo.

Com Lia, havia cuidado.

Com Davi, antes mesmo de ele aparecer, havia suspeita.

Davi era o tipo de pessoa que sorria antes de contar a verdade, não para suavizá-la, mas para impedir que os outros percebessem qual parte era verdade e qual parte era ensaio.

Na escola, ele nunca dizia “eu sei”.

Dizia:

— Tenho uma hipótese.

E, quase sempre, a hipótese era apenas um jeito elegante de já saber e querer assistir os outros demorarem.

Caio apontou para a tela.

— Ele vai responder sim.

— Você já disse isso — Lia falou.

— Porque eu conheço a peça.

— Talvez ele responda não só para contrariar você.

— Ele responderia sim para parecer confiável e não para ser confiável. É diferente.

A cadeira vazia rangeu de novo.

Dessa vez, pareceu concordar com Caio.

A resposta apareceu:

Sim.

Caio bateu a testa na mesa.

— Eu odeio estar certo.

A luz ao redor da cadeira vazia se dobrou.

Não aumentou.

Dobrou.

Como se alguma coisa invisível tivesse puxado a claridade pelas bordas e amarrado no encosto.

A folha em branco diante do lugar recebeu o nome inteiro:

DAVI.

O Compartimento MAGENTA! surgiu logo abaixo, fechado, firme, com uma carta já presa dentro.

O lápis apareceu por último.

Caiu sobre a mesa com um som pequeno, quase debochado.

Depois Davi apareceu.

Não como Caio.

Não como Lia.

Caio surgira assustado, arrancado de algum lugar.

Lia surgira concentrada, como quem tenta entender o sequestro antes de reclamar dele.

Davi apareceu sentado.

De pernas cruzadas.

Com uma das mãos ainda levantada, como se segurasse um celular que já não estava ali.

E sorrindo.

— Tá — disse ele, olhando ao redor. — Isso é novo.

Caio ergueu a cabeça devagar.

— Novo?

Davi olhou para ele.

— É, Caio. Novo. Palavra usada para designar coisa que ainda não estava na rotina.

— Você foi sugado por uma pergunta!

Davi olhou para a cadeira.

Depois para a mesa.

Depois para a própria mão.

— Tecnicamente, eu fui convidado por uma pergunta.

Lia inclinou a cabeça.

— Você acha que isso foi convite?

Davi olhou para ela e o sorriso diminuiu um pouco.

— Não. Mas “sugado” me deixa menos elegante.

Caio apontou para ele, indignado.

— Está vendo? É por isso que eu falei para não chamar.

— Ninguém chamou — Paulinho disse.

Davi virou para Paulinho.

— Essa frase não tranquiliza tanto quanto você imagina.

Paulinho não respondeu.

A mesa respondeu por ele.

No centro, a caixa fez o som de ajuste que todos já conheciam.

A inscrição anterior desapareceu.

Outra surgiu na tampa:

Quatro iniciam a ordem.

As palavras permaneceram ali por alguns segundos.

Depois se desfizeram em quatro linhas finas.

Magenta.

Ciano.

Amarelo.

Preto.

Cada linha saiu da caixa e tocou um jogador.

Magenta tocou Paulinho.

Ciano tocou Lia.

Amarelo tocou Caio.

Preto tocou Davi.

Davi olhou para o traço escuro diante de si.

— Preto? Sério?

Caio não perdeu a chance.

— Achei coerente.

— Você fala isso porque tem inveja da minha profundidade.

— Eu tenho medo da sua profundidade. É diferente.

Lia observava as linhas.

— Não são cores de jogador.

Paulinho olhou para ela.

— Como você sabe?

— Porque não dizem nada ainda. Só organizam.

Davi abriu um sorriso.

— Gostei dela. Ela pensa antes de sofrer.

— Você ainda não viu nada — Caio disse.

— Pela sua cara, já vi bastante.

A linha magenta voltou a surgir sobre a mesa.

Partiu de Paulinho e foi até Lia.

Paulinho sentiu o lápis se aproximar de sua mão.

— De novo eu?

A mesa não respondeu.

Mas também não precisava.

Davi se inclinou.

— Ah. Então tem seta.

Caio virou para ele.

— Não chama de seta.

— Como você quer que eu chame? Manifestação cromática direcional?

Lia, sem olhar para ele, respondeu:

— Melhor.

Davi sorriu.

— Eu sabia que tinha gostado de você por algum motivo.

A mesa rangeu.

O sorriso dele desapareceu pela primeira vez.

Não por medo.

Por respeito involuntário.

Paulinho segurou o lápis.

A pergunta precisava ser fechada.

Sobre um quadrante.

Sobre uma cor.

Ele já havia aprendido isso não porque alguém explicara, mas porque a mesa aceitava algumas frases e humilhava outras.

Olhou para Lia.

— Seu quadrante inferior esquerdo é ciano?

Lia respondeu sem demora:

— Sim.

A folha de Paulinho recebeu uma marca.

Davi levantou a mão.

— Pergunta.

Nada aconteceu.

Ele olhou ao redor.

— Eu posso levantar a mão ou a mesa também tem opinião pedagógica?

Caio resmungou:

— Infelizmente, ela tem.

Davi insistiu:

— O “sim” dela quer dizer que é ciano?

Lia respondeu:

— Talvez.

Davi olhou para Paulinho.

— Vocês estão brincando comigo.

Paulinho balançou a cabeça.

— Não.

Caio completou:

— Pela primeira vez, ninguém está brincando com você. Aproveita, é raro.

Davi encostou as costas na cadeira.

— Então o “sim” pode querer dizer sim ou pode querer dizer não.

Lia assentiu.

— Depende dela.

Davi olhou para Lia com atenção renovada.

— Da carta dela?

— Da natureza dela — Paulinho disse.

Davi abriu a boca para fazer piada.

Não fez.

A palavra pareceu interessá-lo.

Natureza.

A mesa também pareceu gostar.

Na tampa da caixa, surgiu uma frase curta:

A resposta obedece antes de convencer.

Davi leu.

— Isso foi bonito.

Caio virou para ele.

— Você está elogiando a caixa?

— Estou mantendo boa relação com a entidade central. Vai que tem avaliação de comportamento.

Lia anotou algo em sua folha.

Davi tentou espiar.

A cadeira dele rangeu.

Ele recuou imediatamente.

— Tá. Privacidade acadêmica. Entendi.

O traço seguinte apareceu.

Ciano.

Saiu de Lia e tocou Caio.

Lia segurou o lápis.

Caio respirou fundo.

— Seja gentil.

— A pergunta não é sobre sua autoestima.

— Isso já responde muita coisa.

Lia olhou para o Compartimento diante dele.

— Seu quadrante superior direito é preto?

Caio fechou os olhos por um instante.

Todos esperaram.

Davi percebeu o peso do silêncio.

— Ele pode não responder?

A mesa escureceu um pouco.

Só um pouco.

O suficiente.

— Pode sim — Caio disse rápido. — Quer dizer, não. Quer dizer…

Ele respirou.

— Não.

A palavra caiu.

A folha de Lia recebeu nova marca.

Davi olhou fascinado.

— Então vocês estão montando um mapa do que talvez seja mentira.

Caio apontou para ele.

— Não fala como se isso fosse divertido.

Davi olhou para a própria folha vazia.

— Mas é um pouco.

Caio arregalou os olhos.

— Você ouviu o que acabou de dizer?

— Ouvi. E me preocupei comigo também.

Paulinho, apesar do medo, quase riu.

A mesa não impediu.

Talvez riso não violasse regra.

Talvez a mesa soubesse que pessoas assustadas precisam respirar por algum lugar.

O traço amarelo surgiu.

Saiu de Caio e foi até Davi.

Caio parou de sorrir.

Davi abriu os braços, como quem se apresenta no palco.

— Finalmente. O povo veio ao artista.

— Eu posso perguntar qualquer coisa? — Caio perguntou.

A mesa não reagiu.

Davi respondeu:

— Pergunta se eu sou lindo.

Nada.

Caio olhou para Paulinho e Lia.

— Ela nem recusou. Só ignorou com desprezo.

Lia disse:

— Pergunta sobre a carta.

Davi levou a mão ao peito.

— Minha beleza também é uma carta.

— Uma carta fora do baralho — Caio retrucou.

Paulinho percebeu que, apesar da tensão, alguma coisa mudara.

Com quatro pessoas, a mesa tinha ritmo.

Antes, tudo parecia entrada, captura, reconhecimento.

Agora havia circulação.

A pergunta passava de um para outro como se abrisse pequenos túneis entre eles.

Paulinho para Lia.

Lia para Caio.

Caio para Davi.

Depois, provavelmente, Davi para Paulinho.

O jogo começava a deixar de ser objeto.

Começava a ser movimento.

Caio encarou o Compartimento de Davi.

— Seu quadrante superior esquerdo é amarelo?

Davi respondeu no mesmo instante:

— Sim.

A folha de Caio recebeu uma marca.

Caio estreitou os olhos.

— Você respondeu rápido demais.

Davi sorriu.

— Eu sou eficiente.

— Você nem pensou.

— Não precisava.

— Isso significa que você é honesto?

Davi abriu a boca.

A mesa apagou a luz por meio segundo.

Não o bastante para assustar como antes.

O bastante para advertir.

Davi fechou a boca.

Lia olhou para Caio.

— Não pergunta sobre a natureza.

— Por quê?

A caixa respondeu antes dela:

A natureza não se declara.
Deduz-se.

Caio bufou.

— Claro. A mesa também é fiscal de conversa.

Davi ficou olhando para a frase.

Dessa vez, não fez piada.

Paulinho percebeu.

Davi estava se divertindo, sim.

Mas não só.

Ele estava aprendendo rápido.

Rápido demais.

O traço preto surgiu.

Saiu de Davi e tocou Paulinho.

Davi pegou o lápis com elegância exagerada.

— Muito bem. Agora é comigo.

Caio murmurou:

— Que Deus tenha misericórdia.

Davi olhou para Paulinho.

— Seu quadrante—

Parou.

Olhou para a mesa.

Olhou para as folhas dos outros.

Olhou para os Compartimentos.

Depois sorriu.

— Não. Melhor começar pelo óbvio.

Lia franziu a testa.

— O óbvio costuma ser armadilha.

— Sim. Por isso é divertido.

Davi se inclinou.

— Seu quadrante inferior direito é magenta?

Paulinho respondeu:

— Não.

A folha de Davi recebeu uma marca.

Ele anotou algo.

Depois anotou outra coisa.

Depois circulou a primeira anotação.

Caio tentou ver.

— O que você escreveu?

Davi cobriu a folha com o braço.

— Dedução minha.

Caio virou para Lia.

— Viu o que você começou?

Lia respondeu seca:

— Cultura de registro.

Davi riu.

— Gostei muito desse clube.

— Não é clube — Paulinho disse.

A frase saiu mais séria do que pretendia.

Davi olhou para ele.

Pela primeira vez, o sorriso dele sumiu por completo.

— Eu sei.

A mesa ficou em silêncio.

Paulinho percebeu que, de algum modo, Davi sabia mesmo.

Talvez não soubesse tudo. Talvez não soubesse quase nada.

Mas sabia que aquilo não era brincadeira.

E, pior, parecia capaz de continuar jogando mesmo assim.

A caixa no centro se moveu.

Não fisicamente.

Mas sua sombra mudou de lugar.

Na tampa, uma nova inscrição apareceu:

Primeira volta concluída.

Caio olhou ao redor.

— Volta?

Lia já estava escrevendo.

— Paulinho perguntou para mim. Eu perguntei para você. Você perguntou para Davi. Davi perguntou para Paulinho.

Davi completou:

— Um círculo.

Caio ficou olhando para a mesa.

— Então agora continua?

A resposta surgiu:

Enquanto houver mais de um.

Ninguém riu.

Nem Davi.

Por alguns segundos, todos pareceram lembrar ao mesmo tempo que jogo nenhum precisa ser justo para ter regra.

Paulinho observou sua folha.

Havia poucas marcas.

Muito poucas para qualquer certeza.

Mas já havia algo.

Lia respondera “não” e depois “sim”.

Caio respondera “sim” e depois “não”.

Davi respondera “sim”.

Paulinho respondera “não”.

Se alguém fosse honesto, cada resposta apontava para uma direção.

Se fosse blefador, apontava para a direção contrária.

O problema era que ninguém vinha com legenda.

Davi bateu levemente o lápis na mesa.

— Então o objetivo é descobrir a carta?

A mesa não respondeu.

Lia olhou para ele.

— Talvez não só.

Davi sorriu de canto.

— A natureza.

Paulinho sentiu um desconforto.

Davi havia chegado havia poucos minutos e já alcançara o centro.

Caio percebeu também.

— Você podia demorar um pouco mais para entender as coisas, sabia?

— Posso fingir, se ajudar.

— Isso é exatamente o que me preocupa.

A caixa fez um som baixo.

Na tampa, surgiu:

Nem todo blefe é fingimento.

Davi ficou imóvel.

Caio leu devagar.

— Ah, pronto.

Lia observou a frase.

— Isso quer dizer que o blefador não escolhe blefar.

Paulinho completou, quase sem perceber:

— Ele responde ao contrário porque essa é a natureza dele.

Davi olhou para a própria carta presa.

— Então, se eu for blefador, eu não sou mentiroso.

Caio soltou uma risada curta.

— Olha ele tentando limpar a ficha.

Davi ignorou.

— Eu sou coerente ao contrário.

A mesa fez o som de ajuste.

Lia olhou para Davi.

— Ela aceitou.

Davi pareceu satisfeito demais.

— Coerente ao contrário. Gostei. Combina comigo em dias alternados.

Caio apontou para a caixa.

— Mas a natureza não alterna.

A frase saiu antes que ele percebesse.

A mesa fez novo ajuste.

Caio se assustou consigo mesmo.

— Eu falei uma coisa certa?

Lia anotou.

— Aparentemente.

— Não anota isso. Vai virar prova contra mim.

Paulinho respirou mais fundo.

Pela primeira vez desde que a mesa começara, uma parte do jogo fazia sentido.

Não tranquilizava.

Mas fazia sentido.

Cada pessoa tinha uma carta presa em uma posição.

Cada pergunta mirava um quadrante e uma cor.

Cada resposta vinha como sim ou não.

Mas o valor da resposta dependia de descobrir quem respondia conforme a carta e quem respondia contra ela.

Não era só adivinhar cor.

Era adivinhar leitura.

E leitura, Paulinho começava a suspeitar, era sempre mais perigosa que cor.

A segunda volta começou sem aviso.

O traço magenta voltou a sair de Paulinho até Lia.

Dessa vez, Paulinho não perguntou imediatamente.

Olhou para suas anotações.

Pensou.

Lia percebeu.

— Você pode repetir.

Paulinho ergueu os olhos.

— O quê?

— Pergunta. Pode repetir uma pergunta depois, se precisar.

Caio olhou para ela.

— Como você sabe?

Lia apontou para a folha.

No canto inferior, quase invisível, uma frase havia aparecido:

A repetição não é erro quando a dúvida permanece.

Davi assoviou baixo.

— Essa mesa dá spoiler em letra pequena.

Paulinho considerou repetir a primeira pergunta.

Seu quadrante superior esquerdo é magenta?

Se Lia respondesse igual, talvez ele soubesse algo.

Ou talvez só confirmasse que ela era coerente.

E coerência podia ser honestidade.

Ou blefe permanente.

O jogo era cruel justamente porque permitia raciocinar.

Paulinho escolheu outra pergunta.

— Seu quadrante superior direito é preto?

Lia respondeu:

— Sim.

Marca.

Anotação.

Sombra.

Agora Lia olhou para Caio.

Ciano.

— Seu quadrante inferior esquerdo é ciano?

Caio engoliu seco.

— Sim.

Marca.

Davi observava os dois como quem assistia a uma partida e, ao mesmo tempo, desmontava a mesa por dentro.

Amarelo.

Caio para Davi.

Caio segurou o lápis com força.

— Seu quadrante inferior direito é preto?

Davi respondeu:

— Não.

Caio fez a marca.

Depois olhou para a própria folha.

Depois para Davi.

Depois para a folha de novo.

— Você é muito irritante.

Davi abriu um sorriso.

— A resposta foi só “não”.

— Exatamente.

Preto.

Davi para Paulinho.

Davi demorou.

Não por medo.

Por cálculo.

E isso fez Paulinho sentir falta do medo.

— Seu quadrante superior esquerdo é ciano?

Paulinho respondeu:

— Sim.

Davi anotou.

Depois parou.

Olhou para as próprias marcas.

Olhou para Paulinho.

Olhou para Lia.

Depois para Caio.

O sorriso voltou, mas menor.

Mais fino.

— Interessante.

Caio se arrepiou.

— Não fala “interessante” dentro de lugar amaldiçoado.

Davi não respondeu.

A caixa respondeu.

Na tampa, uma nova frase surgiu:

Quando a dúvida se estreita, a mesa permite risco.

A palavra risco ficou mais escura que as outras.

Paulinho sentiu o coração acelerar.

— Que risco?

A pergunta era ampla demais.

A mesa ignorou.

Davi, porém, não.

Ele olhou para a cadeira de Caio.

Depois para a de Paulinho.

Depois para a própria folha.

— Acho que existe uma forma de acusar.

Lia parou de escrever.

Caio ficou completamente imóvel.

Paulinho sentiu a lembrança do sonho voltar como uma porta batendo no fundo da cabeça.

Alguém dizendo:

Não acusa cedo demais.

Outra voz rindo:

Cedo demais também é uma estratégia, se o outro tiver mais medo que lógica.

E então uma palavra.

A palavra.

MAGENTA!

A caixa no centro abriu mais um pouco.

Nenhuma mão a tocou.

Na parte interna da tampa, uma inscrição começou a aparecer.

Devagar.

Como se não quisesse ser lida antes da hora.

Apenas uma palavra se formou inteira:

MAGENTA!

Davi leu em voz alta, com prazer indevido:

— Magenta.

A mesa inteira recuou um milímetro.

Não muito.

O bastante para todos perceberem que ele havia dito a palavra errada do jeito errado.

Davi levantou as mãos.

— Tá. Nome sagrado. Entendi.

Caio estava pálido de novo.

— Não fala isso.

— Eu só li.

Lia olhava para a palavra.

— Não é para ler. É para declarar.

Paulinho virou para ela.

— Como você sabe?

Lia não respondeu.

Porque, naquele instante, todos souberam.

A palavra não era título.

Não era cor.

Não era marca.

Era ação.

A caixa fez o som de ajuste.

Abaixo da palavra, outra frase surgiu:

Toda acusação cobra uma cadeira.

O humor desapareceu.

Até Davi perdeu o sorriso.

Caio olhou para as cadeiras vazias.

Depois para as ocupadas.

— Cobra como?

A mesa não respondeu.

Mas a cadeira de Davi rangeu.

A de Caio também.

Como se uma medisse a outra.

Paulinho sentiu a ordem da mesa se fechar ao redor deles.

Paulinho.
Lia.
Caio.
Davi.

Um círculo.

Uma pergunta para a esquerda.

Uma resposta com sombra.

Uma natureza escondida.

E agora uma palavra que podia tirar alguém dali.

Davi olhou para sua folha.

Depois para Caio.

Por um segundo, Paulinho viu no rosto dele a tentação.

Não certeza.

Tentação.

Isso foi pior.

Lia também viu.

— Não — ela disse.

Davi ergueu os olhos.

— Eu não falei nada.

— Mas pensou.

Caio sussurrou:

— Ele sempre pensa antes de aprontar.

Davi sorriu de novo.

Mas, dessa vez, o sorriso não pareceu engraçado.

Pareceu útil.

A tampa da caixa se inclinou mais um pouco.

A palavra MAGENTA! permaneceu acesa por ausência.

E, abaixo dela, a frase final apareceu:

No início do próximo turno, alguém poderá arriscar.

O traço magenta voltou a tocar Paulinho.

Era a vez dele.

Mas todos olharam para Davi.

Porque, de algum modo, sem declarar nada, ele já havia colocado o perigo na mesa.

(continua)

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