Nostalgrafia #04 – Quem está por trás da máscara?

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Uma comédia maluca dos anos 1990 escondia uma pergunta surpreendentemente adulta: a máscara serve para esconder quem somos ou para revelar quem estava preso por trás da timidez?

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Antes de ser um rosto verde, O Máskara era um desejo amarelo.

Um desejo berrante, engomado, barulhento, impossível de passar despercebido.

Stanley Ipkiss não queria dominar o mundo. Não sonhava com impérios, exércitos ou vinganças épicas. Queria, talvez, apenas atravessar uma sala sem desaparecer dentro dela. Queria ser notado. Queria conversar sem tropeçar nas palavras. Queria que a vida parasse de acontecer com os outros e começasse a acontecer com ele.

E talvez seja por isso que O Máskara tenha fascinado tanta gente.

Quando assistíamos ao filme nos anos 1990, era fácil acreditar que a graça estava nas caretas de Jim Carrey, nos olhos saltando para fora do rosto, nos martelos surgindo do nada, nas perseguições impossíveis e nas referências aos desenhos animados. Tudo aquilo era maravilhoso, claro. Mas havia algo mais escondido por trás do humor.

A máscara não dava apenas poderes.

Ela dava permissão.

Permissão para falar.

Permissão para aparecer.

Permissão para ocupar espaço.

Permissão para fazer aquilo que Stanley passava a vida inteira reprimindo.

Talvez a verdadeira fantasia do filme nunca tenha sido a capacidade de atravessar paredes ou transformar balões em armas. Talvez a fantasia fosse outra: a possibilidade de deixar de ser invisível.

Quando somos crianças, costumamos enxergar a máscara como um objeto mágico.

Quando crescemos, percebemos que ela funciona mais como uma metáfora.

Há pessoas que colocam uma máscara para subir num palco.

Outras para gravar vídeos.

Outras para dar aulas.

Outras para escrever.

Outras para cantar.

Outras para falar em público.

Nem sempre a máscara esconde.

Às vezes ela revela.

Quantos artistas tímidos só conseguem existir plenamente quando entram em cena? Quantas pessoas aparentemente confiantes desabam quando os holofotes se apagam? Quantos de nós descobrimos versões inesperadas de nós mesmos quando encontramos um espaço seguro para experimentá-las?

O curioso é que Stanley não se transforma em alguém totalmente diferente.

Ele se transforma numa versão sem freios.

A coragem já estava lá.

O humor já estava lá.

A raiva já estava lá.

O desejo de ser visto já estava lá.

A máscara apenas arrancava os cadeados.

Talvez seja por isso que o personagem continue interessante décadas depois. Porque ele toca numa pergunta que permanece atual.

Quem somos quando ninguém está olhando?

E quem somos quando finalmente temos coragem de ser vistos?

Hoje carregamos máscaras muito mais sofisticadas do que aquela encontrada por Stanley Ipkiss. Perfis, avatares, filtros, personagens digitais, versões cuidadosamente editadas de nós mesmos.

Mas a pergunta continua a mesma.

A máscara que usamos está escondendo alguma coisa?

Ou está revelando?

Talvez seja essa a razão de O Máskara permanecer vivo na memória de tanta gente. Não por causa do rosto verde. Nem pelo terno amarelo.

Mas porque, em algum momento da infância, todos nós olhamos para aquele sujeito tímido e pensamos: “E se eu também pudesse vestir alguma coisa que me ajudasse a mostrar quem sou?”

No fim das contas, a máscara mais poderosa nunca foi a de Loki. Foi a nossa.


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