Autor: Luis Marcelo Santos
A escola atual vive uma tensão cada vez mais evidente entre dois polos. De um lado, a flexibilização das avaliações. De outro, a crescente cobrança por resultados concretos na aprendizagem. Essa é uma das grandes contradições que se manifestam no discurso educacional contemporâneo.
Onde, ao mesmo tempo em que defende, sempre, considerar todas as possíveis dificuldades de aprendizagem dos nossos alunos, também diz que todos eles devem aprender os mesmos os conteúdos.
Diante dessa questão surge, por exemplo, a flexibilização das avaliações. A fim de promover uma educação mais inclusiva e equitativa. Onde, reconhecer que os estudantes aprendem de formas e em ritmos distintos, não é apenas justo. Mas também, acima de tudo, algo totalmente coerente com uma educação que, de fato, consiga ensinar o máximo possível a todos.
No entanto, não é difícil constatar que muitos alunos estão concluindo a educação básica, com níveis de aprendizagem cada vez mais baixos.
Apesar das avaliações externas, índices de desempenho, metas institucionais e rankings educacionais dizerem buscar o contrário. Produzindo, em parte, o efeito contrário. Quando pressionam escolas e professores para demonstrar resultados que são expostos em estatísticas para todos que os queiram ver.
Que, ao ser feito, justificando práticas pedagógicas em nome do respeito às limitações individuais, arrisca-se a mascarar a realidade. Em que, pais, escolas, autoridades e até especialistas, podem achar que o sistema educacional segue na direção correta. Apesar das evidências em contrário. Pois, senão vejamos:
Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), divulgado em 2024, cerca de 29% dos brasileiros são analfabetos funcionais. Ou seja, indivíduos capazes de reconhecer palavras, números e informações simples, mas que não conseguem compreender textos mais elaborados nem realizar operações matemáticas que exijam raciocínio mais complexo.
Dados que incluem pessoas de até 64 anos, mas também jovens a partir dos 15 anos. Estudantes que já passaram ou ainda estão na educação básica.
Indivíduos que concluem seus estudos com registros escolares que dizem que eles dominam leitura, escrita e cálculo. Mas que, na prática, é o contrário. Além disso, há aqueles classificados nos níveis elementar e intermediário de aprendizagem. Ou seja, que seu real aprendizado não condiz com o que o registro escolar mostra.
Fragilidade da nossa educação que se torna, ainda mais evidente, em situações, como, quando o Brasil participou da avaliação internacional TIMSS 2023, cujos resultados foram divulgados em 2024.
Para quem não saiba, este TIMSS é um medidor do desempenho de estudantes do 4º e 8º ano em Matemática e Ciências. No qual, o nosso país teve um dos índices mais baixos do ranking, conforme reportagem de Katia Smole e Bruna Alves.
O que nos leva a perguntar por que temos uma educação que pouco ensina?
Em parte por uma flexibilização na forma como ela é conduzida. E, que costuma ser justificada por dois argumentos:
- necessidade de se aumentarem os índices de aprovação. Quando gestores públicos costumam exibir números para mostrar eficiência. Inclusive, estatísticas com baixos níveis de reprovação e alta média de acertos nas avaliações. O que deveria ser ótimo. Mas, não raro, se torna mais uma peça de propaganda do que um real avanço.
- necessidade de incluir alunos de diferentes realidades, que pode fazer a flexibilização sutilmente se confundir com facilitação. Isso quando não há um trabalho lento de identificação e correção de cada fator que dificulta a real aprendizagem de nossos alunos.
Logo, uma educação, verdadeiramente inclusiva, exige se considerar vários fatores. Como ausência de apoio familiar, a falta de limites na formação doméstica, dificuldades específicas de aprendizagem, imaturidade, etc. Assim, como ser dado maior tempo para se trabalhar determinadas habilidades que o estudante tenha maior dificuldade.
Nesse sentido, é necessário ver onde as exigências curriculares não estão de acordo com o desenvolvimento dos alunos. Por exemplo, como compreender textos filosóficos ou sociológicos que exigem elevada capacidade de interpretação, se o estudante ainda não foi alfabetizado?
O que pode parecer uma situação extrema, mas ela revela uma incoerência no sistema: independentemente das especificidades de cada um, todos recebem históricos escolares que os certificam como aptos em todos os conteúdos.
Um problema que pode ser facilmente percebido por quem acompanha, atentamente, a realidade educacional. De quem acompanha e quer refletir o que está vendo. O que não é muita gente. Não diante da urgência deste cenário ser revisto. De forma que há pouca mobilização social contra o avançar de série sem se aprender.
A fim de rever estratégias, como a aprovação automática ou determinados modelos de progressão continuada. Que, não raro, levadas muito mais por uma imposição de metas governamentais. Deslocadas da realidade de cada escola. Onde o aprendizado real fica em segundo plano.
Sendo que um exemplo desta afirmação pode ser visto no relato sobre as determinações dos governos do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Para ser mais exato, segundo reportagem de ALFANO (2026), visando estes governos promover aumentos consideráveis nas notas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), determinaram que o estudante pode ser aprovado com até seis disciplinas abaixo da média.
Dessa forma, constrói-se gradualmente um sistema que corre o risco de comprometer o que mais deveria ser importante: a aprendizagem. E, quanto mais esse modelo se consolida, mais difícil se torna reverter seus efeitos.
Diante disso, cabe uma reflexão inevitável: até que ponto é possível sustentar a ideia de que o sistema educacional está funcionando adequadamente? Como diante de evidências que indicam o contrário?
É importante frisar que essa reflexão não constitui uma crítica à adequação da escola às necessidades específicas dos alunos. Pelo contrário: busca chamar a atenção para uma discussão necessária, a fim de que a escola atenda efetivamente a essas necessidades e promova uma educação inclusiva tanto na prática quanto no discurso.
Referências:
ALFANO, Bruno. Aprovação explode em estados que criaram regras para aluno passar de ano mesmo reprovado em até seis disciplinas. O Globo. Disponível em https://oglobo.globo.com/brasil/educacao/noticia/2026/06/26/aprovacao-explode-em-estados-que-criaram-regras-para-aluno-passar-de-ano-mesmo-reprovado-em-ate-seis-disciplinas.ghtml Acesso em 07 -jul-2026.
BRASIL. INAF. 11ª edição. Disponível em https://alfabetismofuncional.org.br/ Acesso em 07 -jul-2026.
SMOLE, Katia; ALVES, Bruna. Como tirar o Brasil dos últimos lugares do ranking global de Matemática? Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/educacao/como-tirar-o-brasil-dos-ultimos-lugares-do-ranking-global-de-matematica,d0841d15d0dae8af3179c9311f0760bcttfmkcwn.html?utm_source=clipboard Acesso em 14 -jul – 2026.
Sobre o autor:
LUIS MARCELO SANTOS é professor de História da Rede Pública Estadual do estado do Paraná, Escritor e Historiador. Especialista em ensino de História e Geografia, e em ensino religioso. Já publicou artigos para jornais como o Diário da Manhã e o Diário dos Campos (de Ponta Grossa) e Gazeta do Povo (de Curitiba). Em parceria com Isolde Maria Waldmann, produziu a obra local “A Saga do Veterano: um pouco dos 100 anos (1905-2005) em que o Clube Democrata marcou Ponta Grossa e os Campos Gerais”.
Colabora desde 2015 com o blog “Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata”. Desde 2017 também colabora com o canal no YouTube “O Outro lado da História”, além da página no Facebook de mesmo nome.


