A palavra que cobra uma cadeira

Magenta! apresenta: #OJogo

Segunda parte — A mesa responde

Capítulo 8

Por: Paulo Ricardo Zargolin

No encerramento da segunda parte, MAGENTA! deixa de ser apenas uma palavra e se torna risco real. Davi declara a primeira acusação, Caio é arrastado para o confronto privado, e Paulinho e Lia descobrem que o jogo não revela a prova; apenas cobra o resultado.

O traço magenta tocava Paulinho.

Não como luz.

Como responsabilidade.

Ele sentiu antes de entender. A vez era dele, mas havia algo diferente naquela volta. A linha não apenas indicava a direção da pergunta. Ela aguardava outra coisa.

No centro da mesa, a palavra permanecia aberta:

MAGENTA!

Não parecia escrita.

Parecia disponível.

Caio olhava para ela como se a palavra pudesse morder.

Lia olhava como se tentasse descobrir onde ficavam os dentes.

Davi olhava como quem já estava imaginando o gosto da mordida.

— Não — Lia disse.

Davi virou o rosto para ela, fingindo surpresa.

— Eu não disse nada.

— De novo isso?

— Estou sendo acusado preventivamente.

Caio respondeu baixo:

— É o único tipo de acusação contra você que faz sentido.

Davi sorriu, mas o sorriso não chegou inteiro.

A palavra no centro da mesa escureceu um pouco.

Paulinho sentiu que não tinha muito tempo.

Não havia relógio.

Não havia ponteiro.

Mas havia início.

E início, no jogo, parecia durar pouco.

A frase do capítulo anterior continuava vibrando na memória:

No início do próximo turno, alguém poderá arriscar.

Agora era o início.

E alguém era ele.

Paulinho olhou para Lia.

Depois para Davi.

Depois para Caio.

A palavra MAGENTA! parecia oferecer um caminho curto demais.

Se ele declarasse, talvez pudesse tirar alguém dali.

Ou tirar a si mesmo.

Não sabia exatamente como.

Mas sabia que aquela palavra não era pergunta.

Era corte.

Davi inclinou-se um pouco sobre a mesa.

— Vai arriscar?

Caio virou para ele.

— Cala a boca.

— É só uma pergunta.

Lia não olhou para Davi.

— Não. É provocação.

— Vocês tiram toda a poesia das coisas.

— Você colocou poesia numa possível eliminação?

Davi ergueu as mãos.

— Eu disse possível.

A cadeira dele rangeu.

Davi abaixou as mãos imediatamente.

— Está bem. Sensibilidade da mobília registrada.

Paulinho tentou respirar.

Olhou para sua folha.

Poucas marcas.

Poucas demais.

Em Lia, havia um “não” para superior esquerdo magenta, um “sim” para inferior esquerdo ciano, um “sim” para superior direito preto.

Ou talvez não houvesse nada disso.

Talvez houvesse o contrário de tudo.

Se Lia fosse honesta, a folha começava a desenhar uma carta possível.

Se fosse blefadora, desenhava outra.

O problema era que as duas versões tinham a mesma letra.

Não.

Sim.

Sim.

O jogo não escondia respostas.

Fazia pior.

Entregava respostas sem legenda.

Paulinho apertou o lápis.

Não.

Ainda não.

Ele sentiu a palavra MAGENTA! se afastar um pouco, como se tivesse sido recusada sem rancor.

Então fez a pergunta.

— Seu quadrante inferior direito é amarelo?

Lia respondeu:

— Não.

A marca surgiu na folha de Paulinho.

No mesmo instante, a palavra MAGENTA! perdeu intensidade.

Não desapareceu.

Mas recuou.

Como uma porta que continua existindo depois que alguém decide não atravessá-la.

Caio soltou o ar.

— Obrigado por não enlouquecer primeiro.

Davi comentou:

— Uma oportunidade perdida também é uma informação.

Caio apontou para ele.

— Você é exatamente o tipo de pessoa que transforma acidente de ônibus em gráfico.

— Depende do ônibus.

— Davi.

— Tá. Sensível. Entendi.

A mesa não riu.

Mas também não impediu que Caio risse um pouco.

O riso dele foi curto, nervoso, quase sem som.

Ainda assim, foi riso.

E, por uma fração mínima, Paulinho lembrou que eles eram adolescentes.

Ou algo perto disso.

Amigos, colegas, rivais, gente que devia estar reclamando de prova, tarefa, sono, fome, mensagem visualizada sem resposta.

Não presos numa mesa que aceitava perguntas e cobrava cadeiras.

O traço ciano surgiu.

Foi de Lia até Caio.

Lia segurou o lápis.

Dessa vez, não perguntou de imediato.

Olhou para suas anotações.

Depois olhou para Caio.

Caio percebeu.

— Não olha pra mim como se eu fosse problema de matemática.

— Você é pior. Problema de matemática pelo menos tem enunciado.

Davi encostou-se na cadeira.

— Essa foi boa.

Caio virou para ele.

— Não incentive.

Lia perguntou:

— Seu quadrante superior esquerdo é magenta?

Caio abriu a boca.

Fechou.

A mesa aguardou.

O silêncio começou a endurecer.

Caio percebeu o limite chegando e respondeu:

— Não.

A folha de Lia recebeu a marca.

Ela anotou algo pequeno, quase escondido.

Davi tentou acompanhar com os olhos.

A cadeira dele rangeu.

— Eu só estava apreciando a caligrafia.

— Minha caligrafia é horrível — Lia disse.

— Então eu estava apreciando a estratégia.

— Aprecie a sua.

— Minha estratégia é apreciar as dos outros.

A mesa fez um som seco.

Davi corrigiu-se:

— Quando permitido.

Caio olhou para Lia.

— Você acha que eu sou o quê?

A mesa apagou a luz por meio segundo.

Caio ergueu as mãos.

— Tá! Tá! Não pergunta natureza! Entendi! Pelo amor de Deus, que lugar fiscal.

Lia olhou para ele com uma calma falsa.

— Se eu soubesse o que você é, não precisava perguntar.

— Isso não ajuda.

— Eu sei.

O traço amarelo surgiu.

De Caio para Davi.

Caio segurou o lápis como quem segura uma arma sem treinamento.

Davi abriu um sorriso.

— Seja gentil.

— Essa frase era minha — Caio reclamou.

— Estou roubando porque combina comigo.

— Nada gentil combina com você.

— Combina quando é irônico.

Caio encarou o Compartimento de Davi.

O suporte estava fechado, firme, sério demais para estar diante de Davi.

— Seu quadrante inferior esquerdo é preto?

Davi não respondeu imediatamente.

Isso foi novo.

Até então, Davi respondia rápido, com aquela eficiência irritante de quem parecia querer provar que o medo era uma perda de tempo.

Agora, demorou.

Não muito.

O suficiente para todos perceberem.

Paulinho sentiu que algo nele calculava.

Ou resistia.

Ou os dois.

— Sim — Davi disse, por fim.

A marca apareceu na folha de Caio.

Caio olhou para a resposta.

Depois para Davi.

— Você demorou.

Davi sorriu.

— Estava dando dramaticidade.

Lia não acreditou.

Paulinho também não.

Talvez nem Caio.

A caixa, no entanto, não corrigiu.

E isso era pior.

O jogo não denunciava a intenção.

Só registrava o resultado.

Caio anotou alguma coisa.

Pela primeira vez, tentou cobrir a folha com o braço.

Davi abriu um sorriso de orgulho.

— Olha só. Ele aprendeu privacidade.

— Aprendi com gente insuportável.

— Bons professores deixam marcas.

— Alguns deixam trauma.

— Também é uma marca.

A mesa rangeu.

Os dois se calaram.

O traço preto surgiu.

De Davi para Paulinho.

Paulinho sentiu o estômago apertar.

Davi segurou o lápis com delicadeza exagerada.

Mas não perguntou.

Ficou olhando para o centro da mesa.

A palavra MAGENTA! continuava ali.

Menor.

Mais escura.

Como brasa.

Lia percebeu.

— É seu turno.

Davi assentiu.

— Eu sei.

Caio ficou tenso.

— Então pergunta.

Davi olhou para ele.

— Interessante você querer tanto que eu pergunte.

— Porque quando você não pergunta, geralmente vem coisa pior.

— Isso é um elogio à minha imprevisibilidade?

— É um pedido de socorro à sua previsibilidade.

Davi sorriu.

Depois olhou para a caixa.

— Eu posso arriscar agora.

Ninguém respondeu.

Mas a palavra MAGENTA! se iluminou.

Foi uma resposta suficiente.

Caio ficou imóvel.

Paulinho sentiu a própria cadeira ficar mais fria.

Lia falou devagar:

— Se arriscar, você perde a pergunta.

Davi olhou para ela.

— Como sabe?

Lia apontou para a tampa.

Abaixo da palavra MAGENTA!, uma frase havia surgido sem que ninguém percebesse:

Quem acusa não pergunta.

Caio leu e engoliu seco.

— Ótimo. Até a pergunta tem que ser sacrificada.

Davi parecia cada vez mais interessado.

— Então a acusação substitui o turno.

— Davi — Paulinho disse.

Ele não sabia o que pedir.

Não faça?

Espere?

Tenha certeza?

Nenhuma frase parecia forte o bastante.

Davi encarou Paulinho.

— Você não quis.

— Porque eu não sei o suficiente.

— Ninguém sabe o suficiente.

Lia corrigiu:

— Ainda.

Davi apontou para ela com o lápis.

— Esse “ainda” é o lugar onde as pessoas corajosas fingem que a prudência mora.

— E esse seu tom é o lugar onde pessoas imprudentes fingem que são brilhantes.

Caio, apesar de tudo, murmurou:

— Gostei.

Davi riu.

Mas a risada terminou rápido.

O centro da mesa escureceu ao redor da palavra.

MAGENTA!

Agora ela não era mais brasa.

Era ferida aberta.

A caixa fez o som de ajuste.

Outra frase surgiu:

A acusação alcança apenas o lado.

Paulinho olhou para as posições.

Entendeu antes de querer entender.

Davi não podia acusar qualquer um.

A mesa tinha vizinhança.

A palavra não atravessava o círculo como desejo.

Atingia o anterior.

Ou o próximo.

Davi olhou para Paulinho.

Depois para Caio.

Paulinho à direita dele, próximo na ordem.

Caio à esquerda, o anterior.

Lia estava fora do alcance imediato.

Caio percebeu o cálculo no rosto de Davi.

— Nem pensa.

Davi sorriu.

— Tarde.

— Eu sabia.

— Isso conta como dedução?

— Conta como convivência.

Lia ficou séria.

— Você não tem certeza.

Davi não tirou os olhos de Caio.

— Não.

A sinceridade inesperada incomodou mais do que uma mentira.

Paulinho sentiu que a mesa também gostou.

A palavra MAGENTA! ficou mais nítida.

Davi continuou:

— Mas certeza, aqui, parece artigo de luxo.

— Não é coragem — Lia disse. — É aposta.

— Todo jogo tem aposta.

— Nem todo jogo sequestra as pessoas primeiro.

Davi inclinou a cabeça.

— Justo.

Caio bateu os dedos na mesa.

— Que bom que a banca reconheceu o detalhe.

Davi olhou para a própria folha.

Havia poucas marcas nela.

Paulinho sabia disso.

Davi havia perguntado duas vezes para ele. Tinha ouvido “não” e “sim”.

Pouco.

Mas Davi não olhava só para as próprias marcas.

Olhava para as reações.

Para os tempos de resposta.

Para o modo como Lia anotava.

Para o modo como Caio fazia piada antes de responder e ficava quieto depois.

Davi jogava com o que a mesa permitia.

E com o que as pessoas vazavam sem perceber.

— Caio — ele disse.

Caio fechou os olhos.

— Eu sabia.

— Você sempre sabe tudo depois que acontece.

— Eu sabia antes e odiei do mesmo jeito.

Davi olhou para a caixa.

— MAGENTA!

Dessa vez, a palavra saiu inteira.

Não lida.

Não testada.

Declarada.

A mesa aceitou.

O som não foi alto.

Foi profundo.

Como se algo muito antigo tivesse batido por dentro da madeira.

A luz ao redor dos quatro se inclinou para o centro.

A cadeira de Davi afastou-se um palmo da mesa.

A de Caio também.

Caio segurou a borda.

— Não. Não, não, não.

Lia tentou se levantar.

A cadeira dela não permitiu.

— Davi!

Ele não olhou para ela.

Olhou para a tampa.

Ali, outra inscrição aparecia:

Nomeie posição e cor.

Davi respirou.

Pela primeira vez, Paulinho viu medo nele.

Não muito.

Mas viu.

E isso tornou tudo mais real.

— Quadrante inferior esquerdo — Davi disse.

Caio parou de se mexer.

Davi completou:

— Ciano.

A mesa ficou imóvel.

Depois as cadeiras de Davi e Caio recuaram juntas.

Sem pressa.

Como se fossem puxadas por uma mão educada.

Caio tentou prender os pés no chão.

Não havia chão suficiente.

— Você nem sabe! — ele gritou.

Davi respondeu baixo:

— Eu sei o bastante para arriscar.

— Isso é uma frase péssima!

— Eu concordo.

Caio olhou para Paulinho.

O rosto dele tinha perdido toda a piada.

— Paulinho.

Paulinho tentou estender a mão.

A cadeira não deixou.

— Caio!

Lia segurou o lápis com tanta força que a ponta quebrou.

A mesa não reagiu.

Talvez porque aquilo fosse permitido.

Talvez porque impotência não violasse regra nenhuma.

No centro, a palavra MAGENTA! se abriu.

Não como boca.

Como passagem.

Entre Davi e Caio surgiu um corredor estreito.

Sem paredes.

Sem chão visível.

Apenas uma faixa escura, recortada no espaço, com uma luz quadrada ao fundo.

Uma luz do tamanho exato de um quadrante.

Davi olhou para ela.

O sorriso tinha desaparecido completamente.

Caio virou para ele.

— Se eu sair daqui, eu te mato.

Davi engoliu seco.

— Se eu estiver errado, talvez você nem precise.

Essa frase calou Caio.

Não porque fosse engraçada.

Porque era verdade.

As cadeiras continuaram recuando.

Paulinho sentiu a mesa ficar maior.

Não porque aumentasse.

Porque dois lugares se afastavam dela levando junto uma parte do ar.

Lia falou, quase sem voz:

— O que acontece agora?

A caixa respondeu:

O confronto não pertence à mesa.

Caio olhou para a frase.

— Que ótimo. Fui promovido para outra sala de pesadelo.

Davi respirou fundo.

— Pelo menos é uma sala exclusiva.

Caio virou para ele, furioso:

— Não tenta fazer amizade no caminho da minha possível eliminação!

Davi levantou as mãos.

— Hábito social.

— Péssimo hábito!

O corredor se aproximou deles.

Ou eles dele.

Paulinho não sabia mais a diferença.

Na folha de Paulinho, as marcas começaram a escurecer.

Na de Lia também.

As anotações deles não desapareciam.

Mas ficavam inúteis por um instante.

Porque, agora, a resposta não seria pública.

A prova não seria compartilhada.

Só o resultado voltaria.

Se voltasse.

Lia percebeu.

— A gente não vai ver.

A caixa fez o som de ajuste.

Na tampa:

A mesa recebe apenas quem sobra.

Paulinho sentiu raiva.

Pura.

Quente.

Humana.

— Isso não é justo.

Dessa vez, a mesa respondeu.

Não com frase.

Com silêncio.

Um silêncio tão inteiro que parecia dizer:

justiça nunca foi regra.

Davi e Caio estavam quase na entrada do corredor.

Caio olhou para Paulinho de novo.

— Se eu não voltar…

— Você vai voltar — Paulinho disse.

A mesa não corrigiu.

Mas também não aceitou.

Caio percebeu.

E, mesmo assim, tentou sorrir.

Foi o sorriso mais triste que Paulinho já vira nele.

— Se eu não voltar, fala para a Lia que ela continua insuportavelmente certa.

Lia respondeu imediatamente:

— Fala você mesmo quando voltar.

Caio respirou tremido.

— Boa. Autoritária. Gostei.

Davi olhou para Lia.

— E se eu não voltar?

Lia não hesitou.

— A gente economiza desconfiança.

Caio soltou um riso nervoso, quase indignado.

— Lia!

Davi sorriu.

Dessa vez, um sorriso pequeno.

Quase grato.

— Justo.

O corredor os alcançou.

As cadeiras pararam.

Por um instante, Davi e Caio ficaram suspensos entre a mesa e o outro lugar.

A luz quadrada ao fundo piscou.

Magenta.

Ciano.

Amarelo.

Preto.

Depois ficou branca.

Branca demais.

Davi levantou-se.

Ou a cadeira deixou que ele se levantasse.

Caio também.

Os dois se olharam.

Davi falou baixo, de modo que só Caio talvez ouvisse:

— Eu não fiz por mal.

Caio respondeu:

— Essa frase nunca melhora nada.

— Eu sei.

— Então por que disse?

Davi olhou para o corredor.

— Porque talvez seja minha última frase ruim.

Caio ficou calado.

Depois resmungou:

— Duvido.

Os dois entraram.

O corredor fechou atrás deles.

Não houve porta.

Não houve batida.

Apenas ausência.

As cadeiras de Caio e Davi ficaram vazias.

Mas não do mesmo jeito que antes.

Antes, cadeira vazia era promessa.

Agora era ameaça.

Paulinho olhou para Lia.

Lia olhou para Paulinho.

Nenhum dos dois falou.

A mesa parecia menor com os dois.

E maior sem eles.

No centro, a palavra MAGENTA! desapareceu lentamente.

No lugar dela, surgiu outra inscrição:

A terceira parte começa quando alguém retornar.

Paulinho apertou o lápis.

A mão dele tremia.

Lia passou a borracha sobre uma anotação.

Depois parou.

Não apagou nada.

— Paulinho.

— O quê?

Ela olhava para as duas cadeiras vazias.

— Se só um voltar…

A frase morreu.

Não precisava continuar.

Paulinho olhou para a cadeira de Caio.

Depois para a de Davi.

O corredor não existia mais.

Mas, de algum lugar atrás da mesa, veio um som.

Não um grito.

Não um passo.

Um clique.

Como o de um Compartimento MAGENTA! revelando apenas aquilo que podia ser visto.

Paulinho prendeu a respiração.

Lia também.

As duas cadeiras vazias se moveram ao mesmo tempo.

Uma para frente.

Uma para trás.

E tudo apagou antes que eles soubessem qual delas voltava.

(fim da segunda parte)

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