Este texto faz parte do arquivo histórico do Logosgrafia. Para conhecer a fase atual do projeto, visite também: O CONCEITO, ESTANTES, Crônicas Zargolinianas, Em bom português e Acervo.
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Agiremos à imitação do sol, se (…) todas as coisas forem ensinadas, a partir dos seus fundamentos, de modo breve e eficaz, de tal maneira que a inteligência se possa abrir como que com uma chave, e as coisas se lhe possam manifestar espontaneamente.
Comenius
Seja no campo das ideias pedagógicas, que embasam a educação e as leis dos sistemas de ensino e suas práticas; ou no campo da Didática, que circunda o caráter teórico-prático, teorias e modelos foram sendo propostos. Logo, diferentes educadores, em diferentes tempos e espaços, passaram a contribuir para a construção dos processos de ensinar e aprender na escola.
Fatores históricos, sociais e culturais estavam presentes no contexto embrionário da Didática, no século XVII. Tanto o iluminismo quanto a Reforma Protestante culminaram com o surgimento dessa área do conhecimento que objetivava orientação para educadores. Nessa conjuntura, Comenius (1592-1670) vem contribuir com a criação da Didática Magna, uma nova metodologia de ensino que se opunha às práticas da Igreja Católica Medieval.
A “revolução social” vivenciada por Comenius estava intimamente ligada à substituição do modo de produção feudal pelo modelo econômico capitalista, ao movimento dos protestantes e ao advento da imprensa, originando as ideias do pensador que visava “ensinar tudo a todos”.
Comenius propôs “um ensino unificado, pautado em uma educação realista e permanente; um método pedagógico rápido, econômico e sem fadiga e um ensino a partir de experiências cotidianas” (OLIVEIRA, 2009, p. 30). Definindo sua Pedagogia com a máxima: “ensinar tudo a todos”, o pensador defendia a importância do conhecimento de todas as ciências e de todas as artes para o ser humano, com o objetivo de aproximar os homens e Deus, tornando-os “sábios no pensamento, dotados de fé, capazes de praticar ações virtuosas, estendendo-se a todos: ricos, pobres, mulheres, portadores de deficiências” (Idem).
Mesclando-se o ato de ensinar com a arte de ensinar, Comenius refletia sobre a didática enquanto processo e tratado. Ainda de acordo com ele, “a educação deveria começar pelos sentidos, pois as experiências sensoriais obtidas por meio dos objetos seriam internalizadas e, mais tarde, interpretadas pela razão” (Ibidem).
Sabedoria, moral e perfeição traçavam o fim que fundamentava o método de Comenius, partindo do princípio de que todos eram dotados da mesma natureza humana, embora possuíssem “inteligências diversas”. Esta diversidade era tratada como excessos ou deficiências da harmonia natural e deveriam ser remediadas por meio do ensino às crianças.
Segundo Oliveira (2009, p. 31), “o pensador considerava que o ensino verdadeiro tem como referência a natureza, e almejava que todos os seres humanos alcançassem a libertação promovida pela educação”. Alguns de seus princípios abordados na Didática Magna constituíram as origens da escola moderna e até hoje são levados em conta:
· Os alunos são agrupados de acordo com faixas etárias e o ensino é desenvolvido de maneira simultânea;
· O educador possui seu lugar como portador de saberes a serem ensinados e para isso utiliza um método de ensino;
· Há uma continuidade entre a tarefa da família e a da escola, em que a criança se distancia da influência da órbita familiar e passa a conviver parte do seu tempo no ambiente escolar.(OLIVEIRA, 2009, p. 31).
Segundo Gadotti (2006, p. 81 apud. OLIVEIRA, 2009, p. 31), há nove princípios que regem as perspectivas pedagógicas de Comênio “para ensinar tudo a todos”:
1) A educação do sujeito deve ser iniciada na infância, obedecendo a adequação etária no desenvolvimento dos conteúdos;
2) Os materiais e livros escolares devem estar ao alcance dos alunos e, primeiro, deve-se conhecer as coisas, depois, suas combinações;
3) Os estudantes precisam ser previamente preparados para a aprendizagem de um novo conteúdo e as escolas devem retirar os obstáculos que podem dificultar os estudos dos alunos.
4) A estrutura da escola deve ser organizada de tal modo que o aluno estude uma área do conhecimento de cada vez;
5) A compreensão dos conceitos, ideias e objetos deve preceder a recordação dos mesmos;
6) É necessário que o conhecimento a ser ensinado parta de uma ideia geral para posteriormente serem trabalhadas as ideias específicas;
7) Os conteúdos a serem ensinados devem seguir uma sequência de tal forma que um conhecimento prepare o caminho para o próximo;
8) É dever do aluno permanecer na escola até tornar-se piedoso, bem informado e virtuoso;
9) Os livros escolares precisam ser adequados ao conteúdo da disciplina, devem ser de boa qualidade a ponto de serem considerados uma fonte de: piedade, sabedoria e virtude.
Segundo Libâneo (1991 apud. OLIVEIRA, 2009, p. 33), “a importância de Comênio deve-se a dois fatores: seu empenho em desenvolver métodos de instrução mais rápidos e eficazes e seu desejo de que todas as pessoas possam usufruir do conhecimento”.
REFERÊNCIA
OLIVEIRA, Rosa Maria Moraes Anunciato de. Ensino e aprendizagem escolar : algumas origens das ideias educacionais. EdUFSCar, São Carlos, 2009.

