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Por: Paulo Ricardo Zargolin
Para Platão (2009), o mundo concreto percebido pelos nossos sentidos é uma reprodução do mundo das ideias. É possível apontar no platonismo e na sua teoria das ideias as raízes do idealismo e da filosofia metafísica; no pensamento aristotélico, o germe do materialismo e da filosofia positivista, da qual se originou a ciência moderna.
De acordo com o trecho lido em Marcondes (2009), Platão nos inicia no dilema da condição humana com o mito da caverna: o homem que consegue abandonar as sombras (domínio das coisas sensíveis) e ter com a luz que vem de fora da caverna (domínio das ideias) teria realizado a passagem do senso comum como visão de mundo para a explicação da realidade a partir do conhecimento filosófico, superando sua condição de ignorância.
A “Caverna das Aparências” do filósofo funciona como um cativeiro, e os prisioneiros que habitam seu interior, acreditam que as sombras que vêem projetadas dentro dela são a realidade, isto significa dizer que os prisioneiros vivem sendo enganados por um processo de ilusão que os fazem tomarem o falso como verdadeiro. Com relação ao Show de Truman (WEIR, 1998) vemos a ilha de Seaheaven como é um grande cenário – um mundo falso – que também funciona como um cativeiro para o protagonista do filme, Truman Burbank, que vive sua vida dentro dela sem saber que é o astro de reality show exibido em uma rede de televisão.
Já os prisioneiros do mito da caverna, estão algemados – estas algemas representam os pré-conceitos e pré-juízos das pessoas comuns. O pensamento irrefletido no cotidiano . (PLATÃO, 2009). O que prende Truman (WEIR, 1998) na ilha é a rotina – seu dia-a-dia – e todas as estratégias subjetivas pensadas e aplicadas pelos mentores do reality show para torná-lo uma pessoa passiva, alienada e conformista.
Em Platão (2009), um dos prisioneiros da caverna se torna um sujeito questionador e a partir daí percorre um doloroso caminho para fora da caverna. Truman (WEIR, 1998) também começa a questionar o mundo a sua volta e, a partir daí, percorre um árduo e doloroso caminho para sair da ilha e conhecer o mundo real.
Nos dois casos, sair do cenário ilusório – seja a caverna ou a ilha, é um risco, por representar perigo, o desconhecido. Ambos personagens arriscam a vida nas narrativas: Truman (WEIR, 1998) para conseguir sair da ilha e o prisioneiro da caverna ao retornar para libertar seus amigos de cativeiro (PLATÃO, 2009). Ambos os personagens buscam o caminho do novo, motivados por um desejo de saber para além do que conhecem.
Em suma, podemos entender o filme “Show de Truman” (WEIR, 1998) como uma versão moderna do “Mito da Caverna” de Platão (2009). Tudo no filme acontece dentro de um show de TV: quando assistimos com atenção, é difícil não relacionar o mundo de Truman, onde vigora o poder de ilusão dos meios de comunicação, com o nosso mundo real.
É inevitável não recordar a atmosfera opressora do romance que George Orwell publicou em 1948: 1984. Embora tenha sido escrito há mais de meio século, o enredo de Orwell é extremamente atual e relaciona-se calorosamente com as discussões travadas até então.
Orwell (1948) fala de um mundo dominado, inspirado pelo socialismo stalinista, onde o Estado domina e nada é de ninguém, mas tudo é de todos. Tudo o que resta de privado é o pequeno espaço do cérebro. É uma batalha que se desenvolve entre o indivíduo e o Estado, pela tentativa de controlar um bem maior que os bens de consumo: a mente e a vontade dos cidadãos. A opressão está por todo o lado, a mentira é a verdade imposta, e qualquer opinião contrária à do Partido significa a morte certa. O Estado é onipotente e controlado pelo “grande irmão” – o Big Brother. São instaladas telecâmeras em todas as residências, as pessoas têm as suas vidas monitoradas pela polícia política e são punidas “exemplarmente” se forem desviadas do comportamento considerado “normal” pelo sistema.
Esse enredo parece ser um prenúncio dos dias atuais, um prenúncio do “Show de Truman” (WEIR, 1998), em que as vidas humanas estão se convertendo. Atualmente, os nossos dados pessoais, profissionais e financeiros já constam em bancos de dados dos órgãos do governo e de entidades financeiras que, embora sejam protegidas por um sistema de segurança online, não escapam das invasões dos hackers . Os nossos hábitos de consumo são diariamente rastreados através dos sites de busca da Internet, cartões de crédito, celulares e todo sistema online a que tivermos acesso.
E, sem dúvida, a Filosofia busca a saída dessas ilhas, desse mundo ilusório e controlador no qual nos reconhecemos, por meio da reflexão, do diálogo, do desenvolvimento da criticidade e outras acuidades tangíveis ao papel questionador do sujeito livre da alienação.
Referências
PLATÃO. A República. In: MARCONDES, Danilo. Textos básicos de Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. p. 39-43. Disponível em Acesso em 09 mai 2011.
ORWELL, George. 1984. 18.ed. São Paulo: Nacional, 1948.
WEIR, Peter. O Show de Truman: o show da vida. [DVD]. USA: Paramount Pictures, 1998.

