Logosgráfico

Lia no país da Logosgrafia

Capítulo 4

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Na manhã seguinte, Lia descobriu que ser prisioneira na suíte de hóspedes era uma situação muito confusa.

A cama era macia. A porta estava trancada. Havia água perfumada numa bacia de porcelana. Havia guardas no corredor. O travesseiro tinha cheiro de lavanda antiga. A janela era estreita demais para fuga e larga o bastante para saudade. Tudo ali parecia dizer, ao mesmo tempo: fique à vontade e não ouse se mexer.

Lia acordou com o sol cinzento entrando pela fresta da cortina.

Não era um sol triste. Era pior: era um sol disciplinado.

No Reino de Zagos, até a luz parecia pedir licença antes de iluminar.

Ela se sentou na cama e, por alguns segundos, pensou na mãe, em Sofia, nas irmãs, no palco improvisado, no rio fingindo ser mar, no cartaz torto, em Hugo Monteiro, na frase que não terminava. Tudo aquilo parecia ter acontecido em outro mundo.

E tinha.

Antes que pudesse organizar o medo, a fechadura girou.

Dois guardas entraram, tão cinzentos quanto na véspera. Um deles trazia uma bandeja com pão, chá e uma fatia fria da Torta do Pensamento Verde. O outro trazia uma expressão de quem acordara cedo apenas para cumprir uma ordem absurda.

— Acorde, criatura cromática — disse o primeiro.

— Eu já acordei — respondeu Lia.

— Então acorde melhor — disse o segundo. — A Rainha exige oponente desperta.

Lia piscou.

— Oponente?

Os guardas se entreolharam, graves.

— Hoje haverá ZAGO.

A palavra caiu no quarto como uma pedra jogada dentro de um poço.

Lia não sabia ainda o que era ZAGO, mas havia aprendido, desde que chegara àquele reino, que algumas palavras vinham acompanhadas de destino. Portal era uma delas. Rainha era outra. ZAGO, pelo visto, era a terceira.

Ela comeu um pedaço pequeno da torta. Não por fome, mas por coragem. A maçã verde ainda tinha alguma coisa de pensamento guardado. Depois ajeitou o vestido colorido, respirou fundo e acompanhou os guardas pelo corredor.

O castelo parecia mais acordado que na noite anterior. Pelas frestas das portas, olhos observavam. Pelas janelas, sombras se inclinavam. Pelos cantos, cochichos se escondiam depressa demais para parecerem inocentes.

— É ela.

— A menina da torta.

— A coloridinha.

— A que a Rainha não mandou para a masmorra.

— Pior. Mandou para a suíte.

Lia fingiu não ouvir. Mas ouviu tudo.

O grande salão estava preparado como se fosse receber uma guerra, uma cerimônia e uma brincadeira de quintal ao mesmo tempo. No centro, havia uma mesa comprida. Sobre ela, um monte de cartas viradas para baixo. Ao redor, a corte permanecia em pé, formando um círculo de curiosidade e pavor. O conselheiro do reino segurava uma pena e um livro grosso, pronto para registrar qualquer coisa que parecesse importante o bastante para ser exagerada depois.

No trono, a Rainha de Zagos aguardava.

Usava um manto escuro, luvas compridas e uma coroa feita de pequenos quadrados com letras. Parecia não ter dormido. Ou talvez rainhas daquele tipo não dormissem: apenas permanecessem contrariadas em silêncio até o amanhecer.

Quando Lia entrou, a Rainha sorriu.

Ainda não era um sorriso bom.

Mas já não era exatamente o mesmo de antes.

— Lia de si mesma — anunciou a soberana. — Aproxime-se.

Lia obedeceu.

— Hoje você jogará ZAGO comigo.

— Eu não sei jogar.

A corte arfou, como se a ignorância de Lia fosse uma ofensa diplomática.

A Rainha, porém, pareceu se divertir.

— Excelente. Jogadores que acham que sabem jogar são insuportáveis. Jogadores que não sabem ainda podem ser destruídos com elegância.

Lia não soube se aquilo era uma explicação ou uma ameaça.

A Rainha apontou para o monte de cartas.

— As regras são simples, embora a simplicidade costume humilhar os tolos. Cada carta guarda uma palavra secreta. Quem segura a carta lê cinco pistas, da mais difícil à mais fácil. A primeira vale cinco pontos. A última, apenas um. Depois de cada pista, o desafiante pode dar um palpite. Se acertar, conquista a carta. Se errar todas, a carta pertence ao portador.

— E quem ganha?

— Quem vencer melhor, convencer melhor ou sobreviver melhor — disse a Rainha.

O conselheiro pigarreou.

— Tecnicamente, Majestade, havíamos combinado melhor de sete rodadas.

A Rainha virou-se devagar.

— Eu pedi sua tecnicalidade?

— Não, Majestade.

— Então guarde-a para quando alguém fundar uma república.

O conselheiro abaixou a pena.

Lia quase riu.

Quase.

A Rainha pegou a primeira carta do monte e a ergueu diante do rosto. Lia não podia ver a palavra secreta. Via apenas o verso azul-escuro, a mão amarela desenhada, o nome ZAGO atravessando a carta como se estivesse prestes a pular para fora dela.

— Eu serei a portadora da carta — disse a Rainha. — Você será a desafiante. Tente não envergonhar sua torta.

Lia endireitou o corpo.

A Rainha leu a primeira pista:

— Cinco pontos: “Está em músicas, cartas e despedidas.”

Lia pensou.

Músicas, cartas e despedidas.

Havia tantas coisas ali. Saudade. Choro. Lembrança. Fim. Começo.

— Saudade? — arriscou.

A Rainha bateu os dedos na mesa.

— Errado. Quatro pontos: “Já fez gente rir e também chorar.”

Lia franziu a testa.

Rir e chorar. Estar em músicas, cartas e despedidas.

— Amor?

A corte inteira ficou imóvel.

A Rainha apertou a carta.

Por um instante, pareceu contrariada com a existência do acerto.

— Três pontos perdidos por precipitação minha — murmurou. — Quatro pontos para a coloridinha.

O salão explodiu em murmúrios.

— Acertou na segunda pista.

— Contra a Rainha.

— Com palavra sentimental.

— Gravíssimo.

A Rainha ergueu a mão.

O silêncio voltou correndo.

— Não se animem. Foi sorte.

Mas havia alguma coisa em seus olhos que não parecia raiva. Parecia fome. Não fome de comida, nem de poder, pois poder ela já tinha demais e comida, ao que tudo indicava, também. Era fome de jogo. Fome de resposta. Fome de alguém que não tremesse antes da segunda pista.

Na rodada seguinte, Lia tornou-se a portadora da carta.

A Rainha se acomodou no trono menor que haviam colocado junto à mesa, como se descer alguns degraus para jogar com uma criança fosse uma concessão histórica.

Lia pegou uma carta do monte.

A palavra secreta no rodapé era SILÊNCIO.

Ela olhou as pistas e sentiu um arrepio pequeno. Não sabia ainda por quê.

— Cinco pontos — leu. — “É presença que se esconde no intervalo entre os sons.”

A Rainha estreitou os olhos.

— Pausa.

— Não.

A corte se agitou. Errar uma pista parecia ser um evento raro para ela.

Lia continuou:

— Quatro pontos: “Acontece nas pausas, nos olhares, nas entrelinhas.”

— Silêncio — disse a Rainha.

Lia virou a carta.

A soberana sorriu com os dentes.

— Quatro pontos para mim. Empate.

— Não é uma guerra — disse Lia.

A Rainha inclinou a cabeça.

— Toda brincadeira é uma guerra que aprendeu boas maneiras.

A primeira manhã terminou empatada.

Isso, no Reino de Zagos, foi quase uma crise institucional.

Na segunda manhã, o salão estava mais cheio. Habitantes que antes espiavam pelas frestas agora se acumulavam atrás das colunas. Criados fingiam limpar o mesmo castiçal havia vinte minutos. Guardas se ofereciam para vigiar a mesa, embora a mesa não demonstrasse intenção de fuga.

A Rainha fingia não notar.

Lia notava tudo.

Dessa vez, apareceu a primeira carta ZAGÃO.

Ela surgiu do monte como um bicho raro. Trazia na frente uma marca diferente, mais grave, mais desafiadora. O conselheiro abriu a boca antes mesmo que alguém perguntasse:

— Carta ZAGÃO, Majestade. Dificuldade elevada. Vale por duas cartas e dobra a pontuação se conquistada.

— Eu sei o que é uma carta ZAGÃO — disse a Rainha. — Eu governei este reino antes de você aprender a ser inconveniente.

O conselheiro fechou a boca.

A Rainha era a desafiante. Lia, a portadora.

A palavra secreta era CAOS.

Lia leu:

— Cinco pontos: “Onde os mapas tremem e as bússolas se rendem.”

A Rainha arregalou os olhos.

Aquilo era sério.

— Destino.

— Não.

Um murmúrio correu pelo salão.

Lia prosseguiu:

— Quatro pontos: “Habita entre os gritos e os silêncios mal compreendidos.”

— Confusão.

— Não.

A Rainha se levantou.

— Essa carta é insolente.

— Três pontos — continuou Lia, agora tentando não rir. — “Inspira artistas, assombra cientistas e seduz os revolucionários.”

A Rainha respirou fundo.

— Caos.

Lia virou a carta.

A corte aplaudiu sem saber se podia.

Como era ZAGÃO, os três pontos viraram seis. E a carta valia por duas.

A Rainha abriu os braços, triunfante, como se tivesse acabado de anexar um território inimigo.

— Aprenda, menina. Até o caos reconhece sua soberana.

Na terceira manhã, uma carta ZAGUETE surgiu antes que alguém estivesse preparado para ela.

O guarda que havia provado a torta na véspera leu a instrução, pois a carta caiu em suas mãos por acidente administrativo:

— “Invente uma poesia sobre a última palavra revelada no jogo. Declame, conquistando esta carta. Ganha cinco pontos.”

O salão virou um desastre.

A última palavra havia sido “abacaxi”.

Ninguém soube explicar por que havia uma carta com a palavra secreta abacaxi no baralho real. A Rainha acusou o conselheiro de sabotagem tropical. O conselheiro acusou a tradição oral. Um criado disse que abacaxi era uma metáfora da governabilidade. A Rainha mandou que ele nunca mais dissesse algo tão verdadeiro sem autorização.

No fim, coube ao guarda declamar:

— Abacaxi, fruto valente,
de coroa e casca hostil,
por fora fere toda gente,
por dentro adoça o Brasil.

Houve silêncio.

Depois, Lia começou a rir.

Riu de um jeito tão limpo, tão inesperado, que alguns habitantes coloriram um pouco sem perceber. Um menino, escondido atrás de uma coluna, ganhou um pedaço de azul na manga. Uma senhora ficou com as bochechas levemente rosadas. O próprio guarda pareceu menos cinza por alguns segundos.

A Rainha viu.

E, pela primeira vez, não mandou apagar.

Na quarta manhã, Lia venceu uma rodada na dica cinco.

A palavra secreta era MEMÓRIA.

A pista dizia:

— “Mora no que passou, mas muda toda vez que alguém visita.”

Lia fechou os olhos.

Pensou em Sofia. Em Emília perguntando. Em Alice fingindo não ligar. Pensou na cidade pequena reunida na prainha, no palco de madeira, no rio disfarçado, na frase que não terminava.

— Memória — disse.

A Rainha ficou imóvel.

O conselheiro derrubou a pena.

A corte inteira pareceu esquecer como se respirava.

— Na primeira pista — murmurou alguém.

— Cinco pontos — murmurou outro.

— Isso é permitido?

A Rainha olhou para Lia longamente.

— Quem ensinou você a jogar assim?

Lia pensou.

Não havia resposta simples.

— Ninguém.

— Mentira. Ninguém aprende a ler o invisível sozinha.

Lia abaixou os olhos.

— Talvez eu não tenha aprendido. Talvez eu só tenha prestado atenção.

A Rainha recostou-se.

Por um momento, parecia menos soberana e mais antiga. Como se, por trás da coroa de letras e do manto escuro, existisse alguém que também prestara atenção um dia, antes de transformar atenção em controle.

— Prestar atenção é perigoso — disse ela. — Foi assim que começaram quase todas as desobediências importantes.

Na quinta manhã, o Reino de Zagos já não fingia normalidade.

Havia gente do lado de fora do salão. Havia gente nas janelas. Havia gente nos corredores. Até os espelhos cobertos por panos pareciam querer assistir. A flor cinza da suíte de Lia amanhecera com uma pontinha lilás. Ela quase contou aos guardas, mas achou melhor não envolver uma flor em problemas políticos.

A Rainha chegou atrasada.

Isso também era grave.

Entrou no salão dizendo que não estava ansiosa, que rainhas não se apressam, que a demora fazia parte de uma estratégia superior e que qualquer pessoa que dissesse o contrário seria convidada a refletir numa torre sem escada.

Ninguém disse nada.

Mas Lia percebeu.

A Rainha estava gostando.

Não apenas de ganhar. Disso ela sempre gostara.

Ela estava gostando de quase perder.

Na sexta manhã, a soberana riu.

Foi um riso curto, meio enferrujado, como uma porta antiga se abrindo contra a própria vontade. Aconteceu quando Lia confundiu “esperança” com “teimosia” e justificou dizendo que as duas eram primas, embora uma se vestisse melhor para sair.

A Rainha tentou permanecer séria.

Falhou.

O salão inteiro ficou em choque.

Um guarda largou a lança.

O conselheiro escreveu no livro: “Às nove horas e treze minutos, Sua Majestade produziu som possivelmente associado à alegria. Investigar consequências constitucionais.”

A Rainha arrancou a página e engoliu a própria vergonha com dignidade.

— Continuemos — disse. — Antes que alguém confunda minha paciência com humanidade.

Mas Lia viu.

Aquela rainha, tão cheia de letras duras, tinha uma rachadura por onde começava a entrar cor.

Na sétima manhã, jogaram até que o sol disciplinado se cansasse de obedecer ao céu.

Lia acertou palavras. Errou outras. Riu. Explicou. Protestou. Inventou. Defendeu palpites improváveis com a seriedade de quem apresenta tese diante de banca hostil. Disse que “nuvem” podia ser “pensamento com preguiça de cair”. Disse que “porta” era “uma parede que reconsiderou sua opinião”. Disse que “medo” era “um guarda que ainda não conhecia o próprio rosto”.

A Rainha discutia tudo.

— Parede não opina!

— Opina sim. Só que em silêncio.

— Pensamento não tem preguiça!

— Tem quando acorda cedo.

— Medo não é guarda!

— Nesse castelo é.

A corte ria escondido.

Os guardas fingiam tossir.

O conselheiro fingia discordar enquanto anotava cada frase.

Ao fim da sétima manhã, a Rainha venceu por um ponto.

Um único ponto.

Mesmo assim, comemorou como se tivesse libertado o reino de uma invasão bárbara.

— Vitória! — gritou. — Ainda sou a maior jogadora de ZAGO deste castelo, deste reino e de todas as ruínas administrativamente vinculadas à minha coroa!

Lia bateu palmas.

— Parabéns, Majestade.

A Rainha olhou para ela.

Havia suor em sua testa. Havia brilho em seus olhos. Havia, nas paredes do salão, pequenas manchas de cor surgindo onde antes só existia cinza.

— Amanhã jogaremos de novo — decretou.

— De novo?

— Evidentemente. Você acha que eu desperdicei sete manhãs treinando uma adversária para devolvê-la ao acaso?

Lia sorriu.

Estava cansada. Muito cansada. A garganta arranhava. As palavras pareciam ter passado por dentro dela usando sapatos de pedra.

— Amanhã — repetiu.

Naquela noite, Lia dormiu antes de sentir saudade.

E sonhou com cartas.

Cartas enormes, flutuando num céu verde-maçã. Em cada uma delas havia uma palavra secreta. Algumas ela conhecia. Outras ainda não existiam. A Minhoca Pontífice atravessava as cartas como quem fiscalizava um arquivo sagrado. Hugo Monteiro aparecia ao longe, falando para um público invisível. Sofia chamava seu nome da outra margem de um rio que ainda fingia ser mar.

Quando Lia tentou responder, nenhuma voz saiu.

Ela acordou assustada.

A luz cinzenta entrava pela cortina.

Um guarda bateu à porta.

— Criatura cromática, Sua Majestade exige presença imediata para a oitava manhã de ZAGO.

Lia abriu a boca.

Nada.

Tentou de novo.

Nada.

Passou a mão na garganta.

Não doía exatamente. Era mais estranho do que dor. Era como se as palavras estivessem dentro dela, inteiras, vivas, empilhadas atrás de uma porta fechada.

O guarda abriu a porta.

— Vamos, vamos. A Rainha não gosta de atrasos, exceto os dela.

Lia apontou para a própria garganta.

— O que foi?

Ela tentou falar.

Saiu apenas um sopro.

Pequeno.

Sem letra.

Sem cor.

O guarda empalideceu dentro do cinza.

— Ah, não.

O outro guarda apareceu no corredor.

— O que houve?

— A coloridinha… perdeu a voz.

A notícia correu pelo castelo mais rápido do que qualquer decreto.

Quando chegou ao salão, a Rainha de Zagos primeiro não acreditou.

— Impossível.

Depois se irritou.

— Ninguém perde a voz no dia em que deve jogar comigo.

Depois levantou-se.

— Tragam-na.

Quando Lia entrou, ainda tentando explicar com gestos, a Rainha desceu do trono de uma vez. Não havia teatro em seus passos. Não havia ameaça. Não havia nem mesmo aquela raiva decorada que ela usava como roupa de trabalho.

Havia susto.

— Fale — ordenou.

Lia abriu a boca.

Nada.

A Rainha ficou pálida.

— Eu disse fale.

Lia tentou de novo.

Um fio de ar.

A corte inteira se calou.

A Rainha olhou ao redor, furiosa, mas sua fúria não encontrava culpado. Isso a deixava ainda mais furiosa.

— Quem fez isso?

Ninguém respondeu.

— Foi alguma carta? Algum ZAGUETE? Alguma sabotagem de abacaxi? Conselheiro!

O conselheiro surgiu, trêmulo.

— Majestade?

— É possível perder a voz por excesso de ZAGO?

Ele ajeitou os óculos, embora não usasse óculos no momento.

— Em termos teóricos, a prática intensa de adivinhação simbólica, associada a debates interpretativos, risos, justificativas poéticas e enfrentamento monárquico prolongado, pode produzir uma sobrecarga vocal e logossemântica.

A Rainha o encarou.

— Traduza antes que eu mande prender seu dicionário.

— Ela falou demais, Majestade.

A Rainha olhou para Lia.

E, naquele instante, alguma coisa mudou.

Não no reino.

Nela.

A soberana se aproximou devagar, como se Lia fosse uma carta rara que pudesse rasgar ao toque. Tirou uma das luvas e encostou os dedos na testa da menina.

— Está quente?

Lia balançou a cabeça.

— Está com dor?

Lia fez mais ou menos com a mão.

— Está com medo?

Lia hesitou.

Depois assentiu.

A Rainha respirou fundo.

— Chamem o Dr. Coruja.

O salão se agitou.

— O médico?

— O médico.

— O de verdade ou o experimental?

A Rainha virou-se para os guardas.

— Neste reino, infelizmente, é o mesmo.

O Dr. Coruja chegou pouco depois, embora ninguém soubesse de onde.

Era uma coruja alta, de olhos enormes, óculos redondos, jaleco comprido e uma maleta cheia de objetos que tilintavam como se cada instrumento tivesse opinião própria. Caminhava com solenidade científica e certa desconfiança em relação ao chão.

— Chamaram-me?

— Não, doutor — disse a Rainha. — O senhor apareceu porque o castelo quis conversar.

— Entendo. Caso típico.

A Rainha apontou para Lia.

— Ela perdeu a voz.

O Dr. Coruja aproximou-se. Pediu que Lia abrisse a boca. Olhou sua garganta com uma lanterninha. Pediu que ela respirasse. Pediu que dissesse “a”. Lia tentou. Nada. Pediu que dissesse “maçã”. Lia tentou. Nada. Pediu que dissesse “inconstitucionalissimamente”, e a Rainha ameaçou interná-lo no próprio consultório.

— Hum — disse o doutor.

— Hum o quê?

— Hum diagnóstico.

— E qual é?

— Ainda não sei. Mas todo diagnóstico respeitável começa com hum.

A Rainha apertou os olhos.

— Cure-a.

— Antes, precisamos tentar alguns procedimentos.

E tentaram.

Primeiro, chá de vírgulas, para ver se a voz apenas precisava de pausa.

Nada.

Depois, gargarejo de reticências, para estimular continuações.

Nada.

Depois, compressa morna de ponto final, para encerrar qualquer bloqueio.

Nada.

Tentaram xarope de rima antiga, vaporização de sinônimos, sopro em concha acústica, massagem de sílabas, descanso absoluto de interjeições e uma técnica muito moderna chamada “não falar de propósito”, que Lia já estava praticando contra a própria vontade.

Nada funcionou.

A Rainha ficou insuportável.

No primeiro dia, mandou trocar todos os travesseiros da suíte.

No segundo, proibiu o uso da palavra “rouquidão” no castelo.

No terceiro, decretou luto parcial pela voz de Lia, mas cancelou porque o luto deixava o reino cinza demais, e cinza demais já era praticamente expediente comum.

No quarto, tentou jogar ZAGO sozinha.

Foi um fracasso.

Ela lia a pista, respondia, discordava da própria resposta, acusava-se de trapaça e mandava prender uma almofada.

No quinto dia, visitou Lia na suíte e levou uma carta.

Sentou-se ao lado da cama com rigidez de quem não sabia cuidar sem transformar cuidado em cerimônia.

— Eu trouxe uma carta fácil — disse.

Lia olhou para ela.

A Rainha leu:

— Cinco pontos: “Mora onde alguém faz falta.”

Lia escreveu num papel: SAUDADE.

A Rainha virou a carta.

— Acertou.

Lia sorriu.

A Rainha fingiu não se emocionar.

— Foi uma carta ridiculamente previsível.

No sexto dia, a flor cinza da suíte abriu completamente lilás.

No sétimo, o Dr. Coruja voltou com a maleta silenciosa.

Isso era novo.

Maletas de médico costumavam tilintar. Maletas de médico experimental, mais ainda. Mas aquela não fazia ruído algum. Parecia guardar dentro de si algo pequeno demais para barulhar e forte demais para se anunciar.

A Rainha estava no quarto quando ele entrou.

— Se for outro chá, eu transformo o senhor em almofada acadêmica — avisou.

— Não é chá.

— Gargarejo?

— Não.

— Pomada?

— Também não.

O Dr. Coruja abriu a maleta.

Dentro dela havia um frasco pequeno, de vidro verde. No interior, sete pílulas brilhavam discretamente. Não eram exatamente remédios. Pareciam sementes. Ou letras enroladas. Ou pensamentos comprimidos até caberem na palma da mão.

Lia se inclinou.

Sentiu um cheiro leve de maçã verde, papel novo e chuva em biblioteca.

Pílulas logosgráficas — disse o Dr. Coruja.

A Rainha ficou séria.

Até ela sabia que aquele nome exigia respeito.

— Explique.

O doutor segurou o frasco contra a luz.

— A voz de Lia não desapareceu. Apenas se recolheu. Durante sete manhãs, ela atravessou palavras demais, sentidos demais, enigmas demais. Falou não só com a garganta, mas com a imaginação inteira. O corpo, prudente como às vezes é, fechou a porta para impedir que a menina se perdesse pela própria linguagem.

Lia ouviu com os olhos.

— Estas pílulas não devolvem simplesmente o som — continuou. — Elas reorganizam a passagem entre pensamento, palavra e voz. São feitas de fragmentos de frases que não terminaram, metáforas em repouso, pólen de maçã verde, silêncio bem peneirado e uma pequena quantidade de coragem verbal.

A Rainha cruzou os braços.

— Isso tem aprovação do Conselho de Saúde do Reino?

— Majestade, o Conselho de Saúde do Reino sou eu com outro chapéu.

— Péssimo sistema.

— Concordo. Mas eficiente em emergências.

O Dr. Coruja entregou uma pílula a Lia.

Ela a colocou na boca.

No início, não sentiu nada.

Depois, sentiu uma palavra.

Não ouviu.

Sentiu.

A palavra abriu-se devagar dentro dela, como uma flor feita de som. Primeiro veio o verde. Depois o gosto de maçã. Depois o chiado do microfone na prainha. Depois a voz de Hugo dizendo que certas coisas só começam a existir quando encontram palavras. Depois a risada de Emília. O silêncio de Alice. O chamado de Sofia.

Então, bem no fundo da garganta, alguma coisa ressoou.

Pequena.

Redonda.

Viva.

— Lia? — chamou a Rainha, quase sem perceber que chamava com ternura.

A menina abriu a boca.

Dessa vez, a voz saiu.

Fraca, mas inteira.

— Eu estou aqui.

A Rainha virou o rosto imediatamente, como se o teto tivesse se tornado interessantíssimo.

O Dr. Coruja sorriu.

— Excelente.

Lia levou a mão à garganta.

— Eu voltei?

— Não exatamente — disse o doutor. — Você se reorganizou.

A Rainha pigarreou.

— Então amanhã jogaremos ZAGO.

O Dr. Coruja levantou uma asa.

— Amanhã, não.

A Rainha olhou para ele como quem avaliava a pena de morte de uma frase.

— Como disse?

— Repouso vocal.

— Por quanto tempo?

— O necessário.

— Defina necessário antes que eu defina punição.

— Até que a voz dela pare de tremer quando encontra uma palavra.

Lia tocou o frasco de pílulas.

— E isso é… logosgráfico?

O Dr. Coruja ajeitou os óculos.

— Sim. Logosgráfico é aquilo que pertence à logosgrafia, mas também aquilo que faz a palavra revelar mais do que comunica. Uma carta pode ser logosgráfica. Uma torta pode ser logosgráfica. Um silêncio pode ser logosgráfico. Até uma voz perdida pode ser logosgráfica, quando ensina que falar não é apenas emitir som.

A Rainha ficou calada.

Talvez porque tivesse entendido.

Talvez porque não quisesse admitir.

Lia olhou para ela.

— A senhora ficou preocupada comigo.

A corte invisível do corredor prendeu a respiração.

A Rainha ergueu o queixo.

— Preocupada? Eu? Não seja melodramática. Eu apenas não admito perder minha melhor adversária por incompetência de uma garganta infantil.

Lia sorriu.

A Rainha acrescentou, mais baixo:

— E talvez o castelo estivesse ficando menos insuportável com você por perto.

O Dr. Coruja fechou a maleta.

A flor lilás na mesa pareceu ganhar mais cor.

Lia olhou pela janela. O Reino de Zagos ainda era cinzento. O castelo ainda estava em ruínas. As torres ainda eram tortas, os corredores ainda cheiravam a livro esquecido, os guardas ainda obedeciam com tédio profissional.

Mas havia manchas de cor nas paredes.

Pequenas.

Teimosas.

Como palavras antes de serem ditas.

Naquela noite, antes de dormir, Lia tomou a segunda pílula logosgráfica. Não porque a voz tivesse sumido de novo, mas porque o Dr. Coruja dissera que algumas curas precisavam de continuidade, e algumas palavras, de tempo.

A Rainha mandou deixar uma carta de ZAGO sobre a mesa de cabeceira.

Sem explicação.

Lia virou a carta.

A palavra secreta estava coberta por um pedaço de fita cinza. Ao lado, a Rainha havia escrito apenas a primeira pista:

“Cinco pontos: aquilo que começa quando alguém deixa de ser apenas visitante.”

Lia não respondeu em voz alta.

Ainda precisava repousar.

Mas escreveu no papel, com letra pequena:

AMIZADE.

Depois apagou.

Pensou melhor.

Escreveu outra palavra.

PERTENCIMENTO.

E, pela primeira vez desde que atravessara o portal, o quarto não pareceu uma prisão.

Pareceu uma página.


Mini Dicionário Logosgráfico

logosgráfico
adjetivo

Relativo à logosgrafia ou próprio de sua linguagem simbólica. Diz-se da palavra, imagem, criação, experiência ou acontecimento capaz de revelar sentidos ocultos, reorganizar percepções e transformar algo aparentemente comum em passagem interpretativa. É logosgráfico aquilo que não apenas comunica, mas ressoa.

Outras reflexões, aqui.
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Arte promocional de ZAGO: Palavras Secretas mostrando Lia segurando uma pílula logosgráfica diante da Rainha de Zagos e do Dr. Coruja em um castelo sombrio.
No Reino de Zagos, palavras podem mudar destinos — especialmente quando começam a recuperar cor.
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2 respostas a “Logosgráfico”

  1. […] Capítulo anterior […]

  2. […] Você não apronta como quem se perde. Você apronta como quem testa portas secretas na linguagem. Às vezes exagera? Sim. Mas geralmente exagera para encontrar a medida. É meio alquimia, meio travessura, meio plano editorial de dominação logosgráfica. […]

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