Por: Paulo Ricardo Zargolin
Bastidores de “Em uma crudelíssima semana”, a série logosgráfica que nasceu como sonho acordado, quase ficou esquecida como postagem avulsa e encontrou sua forma quando uma leitora pediu continuação.
Em meados de outubro de 2025, eu sonhei acordado com uma segunda-feira. Não era ainda uma série. Não era ainda uma semana. Não era sequer, talvez, uma história plenamente consciente de si. Era uma atmosfera: uma mulher quebrada por dentro, um espelho partido, uma Alexa iniciando a rotina como se a vida pudesse ser acionada por comando de voz, uma casa tentando continuar doméstica enquanto alguma coisa já havia se tornado perigosa demais para caber na ordem dos objetos. Havia cacos, silêncio, raiva, escritório, elevador, margarina emocionalmente lambuzada na felicidade alheia. Havia, sobretudo, uma imagem mental que se recusava a ir embora antes de virar linguagem.
Foi assim que nasceu “Em uma feíssima segunda-feira”, o primeiro fragmento daquilo que, muito depois, passaria a se chamar “Em uma crudelíssima semana”. Na época, porém, o texto não se apresentava como início. Ele parecia apenas um miniconto sombrio, publicado quase avulsamente em uma fase em que eu ainda visitava o Logosgrafia com certa displicência. O blog estava ali, como uma casa antiga cuja chave eu ainda carregava no bolso, mas à qual eu nem sempre entrava com a devida reverência. Eu passava, abria a porta, deixava uma palavra sobre a mesa e ia embora. Ainda não havia a ideia de estantes organizadas, séries logosgráficas, acervo, assinaturas, retornos programados, calendário editorial ou reconstrução de presença. Havia apenas o velho gesto de escrever e publicar, como quem tenta não perder completamente o fio.
Esse gesto vem de longe. Quando comecei o Logosgrafia, em 2011, eu não pensava em marca, projeto literário, estratégia de busca ou arquitetura de conteúdo. Eu publicava meus textos de estudo porque precisava me organizar melhor. Publicava também por medo de perder os arquivos. Havia nisso uma espécie de ingenuidade fundadora: eu jogava meus pensamentos na internet como quem fazia cópias de segurança da própria cabeça. O blog era gaveta, arquivo, caderno, nuvem improvisada, armário simbólico. Eu ainda não sabia que, anos depois, aquele espaço deixaria de ser apenas lugar de guarda para se tornar território de criação, retomada e identidade.
Por isso, olhar hoje para o gráfico de atividade deste espaço é quase observar um retrato clínico da minha relação com a escrita pública. Os quadradinhos não mostram apenas posts.

Mostram presença, ausência, retorno, hesitação, abandono parcial e reocupação do próprio espaço. Há meses em que o azul aparece tímido, isolado, quase pedindo desculpas por existir no meio do cinza. Há períodos em que o blog parece sobreviver por lampejos, visitado mais por memória do que por projeto. Depois, de repente, abril e maio acendem uma sequência mais densa, como se alguém tivesse voltado a morar na casa. Não se trata apenas de atividade de publicação. É comportamento autoral desenhado em pixels.
É por isso que este texto também se acomoda em Estudos de Caso para Mentes Inquietas. Não porque a criação literária precise ser dissecada até perder o encanto, mas porque há processos que revelam mais do que a obra pronta permite ver. Aqui, o caso não é apenas uma série de minicontos. É o percurso de uma ideia que nasceu como sonho acordado, virou postagem avulsa, permaneceu em suspensão, foi reativada pelo olhar de uma leitora e encontrou forma dentro de uma retomada autoral mais ampla. Observar esse movimento é estudar, com alguma delicadeza, como uma obra pode surgir não de um plano fechado, mas do encontro entre memória, acaso, insistência, leitura externa e coragem de continuar.
Ao mesmo tempo, este texto também pertence às Crônicas Zargolinianas porque fala menos de uma técnica e mais de uma travessia. Há uma dimensão íntima nesse retorno: o autor diante do próprio arquivo, o blog diante de sua história, a palavra diante da possibilidade de deixar de ser apenas vestígio para se tornar acontecimento outra vez. Toda crônica, no fundo, nasce quando uma experiência pequena começa a dizer algo maior do que ela mesma. E talvez seja isso que tenha acontecido aqui: uma postagem perdida no tempo começou a explicar, sem pedir licença, a fase atual do Logosgrafia.
Foi nesse intervalo entre o abandono e a retomada que “Em uma feíssima segunda-feira” permaneceu sozinha. Sozinha, mas não encerrada. O texto ficou ali, fingindo completude, como certos começos que só parecem finais porque o autor ainda não teve coragem de escutar o que eles pedem.
Então Dayana Sanchez leu o miniconto e pediu o final.
À primeira vista, era um comentário simples. Mas há pedidos de leitor que funcionam como chave. Ao pedir o final, ela revelou que havia uma porta aberta onde eu talvez estivesse vendo apenas uma parede. A história não tinha acabado; eu é que a havia deixado em suspensão. Luísa não podia permanecer para sempre naquela segunda-feira, despedaçada entre cacos de espelho, programação emocional e desejo de violência. Amanda também não podia continuar existindo apenas como alvo do olhar alheio. Algo pedia consequência. E, quando uma história pede consequência, o autor pode até fingir que não ouviu, mas a linguagem começa a bater por dentro.
A partir daí, o texto começou a se reorganizar. A segunda-feira exigiu uma terça. A terça chamou uma quarta. A quarta abriu uma quinta. A quinta empurrou uma sexta. A sexta preparou um sábado. E o sábado, contrariando a lógica mais confortável do encerramento, precisou desembocar em um domingo silencioso. Foi nesse movimento que compreendi: aquilo era uma semana, mas não uma semana cronologicamente correta, dessas que, no calendário tradicional, começam no domingo e terminam no sábado. Esta precisava nascer na segunda-feira porque sua matéria era a rotina. O retorno ao trabalho. O café mal engolido. O elevador. O escritório. O sorriso socialmente aceitável. A vida adulta fingindo normalidade enquanto alguma coisa já apodrece por dentro.
A série, portanto, começa fora do calendário porque os personagens também estão fora de ordem. A semana correta seria de domingo a sábado. Mas “Em uma crudelíssima semana” não é uma semana correta. É uma semana ferida. Uma semana deslocada. Uma semana em que o início formal foi roubado e só aparece depois, no fim da primeira parte, como se chegasse atrasado para revelar que nada havia realmente começado onde deveria. O domingo, aqui, não inaugura a paz nem encerra o ciclo. Ele retorna como dobra narrativa. O dia que deveria abrir a semana surge no final para mostrar que o começo estava escondido debaixo da porta.
Por isso, “Em um silencioso domingo” não fecha a história: ele reinicia a ameaça. A mesa está posta, mas não há comunhão. A família está reunida, mas não há descanso. A calma é excessivamente arrumada, quase indecente, como se a casa soubesse antes dos moradores que certas portas não demorariam a se abrir. A polícia entra antes da oração. As fotos deslizam pela madeira. Léo percebe tarde demais que a explicação talvez não explique nada. Em outro ponto da cidade, uma porta também se abre. Amanda já não pergunta. Luísa observa. As pétalas caem devagar. O telefone toca. E aquilo que poderia parecer desfecho se revela apenas mudança de posição.
Essa foi a verdadeira descoberta da série: algumas histórias não terminam quando chegam ao domingo. Elas apenas reorganizam o perigo.
Hoje, ao olhar para esta série, vejo menos uma sequência de minicontos e mais uma engrenagem de dias adoecidos. Cada capítulo carrega uma tonalidade própria. A segunda é feíssima porque inaugura o despedaçamento. A terça é brutal porque joga o corpo no escuro. A quarta é insistente porque os sinais começam a se repetir. A quinta é ilógica porque a verdade já funciona antes de fazer sentido. A sexta é romântica porque há jantares que parecem reencontros, mas são operações de risco. O sábado é conturbado porque as versões começam a se cruzar. E o domingo é silencioso porque há silêncios que não pacificam: apenas organizam a próxima violência.
Talvez esse seja também um dos sentidos mais íntimos do Logosgrafia em sua fase atual. Ele já não é apenas o lugar onde guardo textos para não perdê-los. É o lugar onde alguns textos voltam para me encontrar. Onde uma publicação aparentemente avulsa pode revelar uma obra em andamento. Onde uma leitora pode perceber continuidade antes do próprio autor. Onde um gráfico de publicação deixa de ser estatística e passa a ser confissão. Onde a palavra, quando reencontra ritmo, deixa de ser arquivo e volta a ser acontecimento.
“Em uma crudelíssima semana” nasceu assim: de um sonho acordado em outubro de 2025, de uma postagem solitária, de um pedido de continuação, de uma correção de calendário, de uma retomada autoral e de uma velha obsessão minha por organizar o caos em linguagem. Começou na segunda porque precisava nascer do peso. Chegou ao domingo porque precisava desmentir o descanso. E terminou a primeira parte exatamente onde uma semana comum começaria — não para obedecer ao calendário, mas para mostrar que, naquela história, até o tempo estava comprometido.
A primeira semana terminou. Ou fingiu terminar. Porque, no Logosgrafia, certas portas não se fecham. Elas apenas esperam o próximo dia aprender a bater.
A semana que começou fora do calendário
Antes de acompanhar o desfecho, percorra os sete dias em que ausências, pétalas, telefonemas e segredos mudaram de lugar.
Entre 16 e 22 de agosto de 2026, o leitor acompanhará, capítulo a capítulo, o eletrizante final de Em uma crudelíssima semana.




