Lia no país da Logosgrafia
Capítulo 3
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Lia não pretendia desobedecer.
Pelo menos não de propósito.
Depois da confusão luminosa do palco, quando as palavras pareciam ter saído das bocas das pessoas para dançar no ar como fitas encantadas, ela jurou a si mesma que ficaria quietinha, comportada e absolutamente incapaz de se meter em qualquer acontecimento estranho.
Mas já era quase noitinha.
E a quase-noitinha tem esse defeito antigo: faz as coisas parecerem mais secretas do que realmente são.
Foi então que uma minhoquinha verde atravessou o corredor dos fundos.
Não era uma minhoca comum. Minhocas comuns não usam chapeuzinho papal. Minhocas comuns não olham para os lados antes de entrar atrás de um palco. E, principalmente, minhocas comuns não cochicham sozinhas:
— Depressa, antes que o portal perca a paciência.
Lia piscou.
Depois piscou de novo.
Havia frases que uma criança escutava e fingia não ter ouvido. Mas havia outras que abriam uma portinha dentro da cabeça. E, quando essa portinha abria, pronto: o pensamento já tinha colocado os sapatos.
A minhoquinha desapareceu atrás da cortina.
Lia olhou para o palco. Olhou para o corredor. Olhou para a própria coragem, que naquele fim de tarde parecia estar usando uma capa colorida e fazendo sinal para que ela viesse.
— Eu só vou ver — disse, como dizem todos os curiosos segundos antes de atravessarem alguma coisa sem volta.
E foi.
Atrás do palco, onde deveria haver madeira, poeira e fios esquecidos, havia uma maçã verde desenhada no ar.
Não pendurada.
Não pintada.
Desenhada no ar.
A maçã girava devagar, como se estivesse sendo lida por dentro.
A minhoquinha verde ajeitou o chapeuzinho papal, tocou a borda luminosa do desenho e sumiu.
Lia encostou um dedo.
O mundo respondeu.
Primeiro, veio uma cor.
Depois, outra.
Depois, tantas cores vieram ao mesmo tempo que Lia teve a impressão de estar atravessando o pensamento de alguém que nunca havia aprendido a ficar em silêncio.
O portal não era um buraco, nem uma porta, nem uma passagem comum. Era um corredor de cores. As paredes mudavam a cada passo: verde-maçã, azul-suspiro, amarelo-pergunta, rosa-espanto, lilás-quase-resposta. Algumas cores tinham cheiro. Outras faziam cócegas nos olhos. Uma delas, muito atrevida, tentou se enrolar no cabelo de Lia como se fosse fita de presente.
Ela caminhou sem saber se estava andando para frente, para dentro ou para além.
Até que, de repente, todas as cores cessaram.
Foi como se alguém tivesse apagado a alegria do mundo com uma borracha enorme.
Lia caiu sentada em uma terra fria, seca, coberta por uma poeira cinzenta. À sua frente, havia um reino silencioso, desbotado, quase sem contorno. As árvores pareciam feitas de carvão velho. As casas tinham janelas tristes. O céu não era azul, nem preto, nem branco. Era apenas um céu cansado.
Ao longe, erguia-se um castelo em ruínas.
Não era um castelo abandonado. Isso teria sido menos assustador.
Era um castelo ainda usado, mesmo quebrado. Suas torres tortas sustentavam bandeiras rasgadas. As pedras estavam rachadas. As portas eram grandes demais para parecerem acolhedoras. E, no ponto mais alto da construção, tremulava um estandarte sem cor, marcado por uma única letra:
Z.
Lia levantou-se devagar.
Foi então que percebeu o problema.
Suas vestes ainda brilhavam.
Depois de atravessar o corredor de cores, seu vestido parecia ter guardado pedaços do caminho. Havia verde nas mangas, azul na barra, dourado nos bolsos, vermelho nos laços, violeta nos sapatos. Ela era, naquele reino apagado, uma pequena afronta ambulante.
Dois guardas surgiram quase imediatamente.
Usavam armaduras cinzentas, capacetes cinzentos, capas cinzentas e expressões ainda mais cinzentas que as capas. Um deles apontou uma lança para Lia, mas fez isso com certo tédio, como se até ameaçar alguém fosse uma tarefa burocrática demais.
— Identifique-se, criatura cromática — disse o primeiro guarda.
— Eu sou Lia.
O segundo guarda estreitou os olhos.
— Lia de quê?
Lia pensou. Não sabia se deveria dizer seu sobrenome, sua escola, sua cidade ou seu medo.
— Lia… de mim mesma.
Os guardas se entreolharam.
Aquilo parecia grave.
— Resposta altamente colorida — murmurou o primeiro.
— Possível ameaça logosgráfica — completou o segundo.
— Eu não sou ameaça nenhuma! — protestou Lia. — Eu só segui uma minhoca.
Os dois guardas recuaram um passo.
— A Minhoca Pontífice? — perguntou o primeiro, com a voz subitamente menor.
— Ela estava de chapeuzinho — explicou Lia.
— Então era ela.
— Sem dúvida.
— Isso deve ser comunicado.
Antes que Lia pudesse perguntar o que estava acontecendo, os guardas a cercaram e a conduziram pela estrada de pedra até o castelo em ruínas. Por onde passava, habitantes acinzentados espiavam pelas frestas das janelas. Alguns pareciam assustados. Outros, encantados. Um menino pequeno chegou a sorrir ao ver o verde reluzindo na manga de Lia, mas sua mãe puxou-o rapidamente para dentro de casa.
— Cuidado — sussurrou ela. — A Rainha não gosta de cor sem autorização.
Lia engoliu seco.
Dentro do castelo, tudo parecia ainda mais desbotado. Havia tapeçarias antigas sem desenho, candelabros sem chama, espelhos cobertos por panos e corredores que cheiravam a livro esquecido. No grande salão, sobre um trono alto demais para qualquer pessoa razoável, estava sentada a Rainha de Zagos.
Ela não era exatamente feia.
Era pior: era imponente.
Vestia um manto escuro, bordado com símbolos que pareciam cartas, enigmas e ordens antigas. Na cabeça, trazia uma coroa irregular, feita de pequenos quadrados marcados com letras. Seus olhos, porém, eram vivos. Muito vivos. Olhos de quem já perdeu uma guerra para a alegria e nunca perdoou a alegria por isso.
Os guardas empurraram Lia para o centro do salão.
— Majestade — anunciou um deles. — Encontramos esta menina nos limites do reino. Ela traz cores não declaradas, afirma chamar-se Lia de si mesma e confessa ter seguido a Minhoca Pontífice.
A Rainha de Zagos inclinou-se para a frente.
O salão inteiro pareceu prender a respiração.
— Lia de si mesma… — repetiu a Rainha, saboreando cada sílaba como quem experimenta uma palavra proibida. — Que nome perigoso.
Lia tentou parecer corajosa. Mas sua coragem, naquele instante, estava escondida em algum bolso colorido do vestido.
— Eu não queria invadir nada, Majestade. Só atravessei um portal.
A Rainha sorriu.
Não foi um sorriso bom.
— Minha querida criança, ninguém “só atravessa” um portal. Quem atravessa um portal sempre traz alguma coisa consigo.
Ela desceu um degrau do trono.
— E você, pelo visto, trouxe cor demais.
Lia olhou para as próprias roupas.
Pela primeira vez, teve medo de estar brilhando.
A Rainha de Zagos não desviou os olhos de Lia.
Havia naquele olhar uma curiosidade afiada, daquelas que não acariciam: examinam.
— Se veio de tão longe, coloridinha, imagino que não tenha atravessado um portal à toa — disse, recostando-se no trono como se as ruínas do castelo ainda devessem obediência à sua coluna. — Aqui no meu reino, ninguém permanece sem provar alguma serventia. E, para jogar ZAGO, não basta falar. É preciso ser criativa.
Lia engoliu seco.
Criativa ela até podia ser. O problema era descobrir isso sob ameaça real de uma rainha de olhos inquietos e guardas de armadura enferrujadamente obediente.
A soberana ergueu um dedo.
— Levem-na à cozinha. Só volte quando tiver feito a melhor torta de todas.
O salão murmurou.
Um guarda pareceu impressionado, como se aquilo fosse uma sentença entre gloriosa e fatal. Outro fez um gesto para que Lia o acompanhasse, e ela foi conduzida por um corredor estreito, ladeado por pedras frias e quadros antigos tão empoeirados que ninguém mais parecia lembrar o que retratavam.
No caminho, Lia pensou em fugir.
Depois pensou em chorar.
Depois pensou que talvez fosse melhor pensar em torta.
A cozinha do castelo era muito maior do que ela imaginava. Tinha panelas penduradas como luas de metal, colheres enormes, armários escuros e um silêncio estranho, como se aquele lugar estivesse acostumado a alimentar gente poderosa e, por isso mesmo, tivesse desaprendido a rir.
Sobre uma mesa comprida estavam alguns ingredientes: farinha, ovos, manteiga, açúcar, um pote de canela meio torto e uma cesta de frutas. Lia se aproximou.
Maçãs.
Verdes.
Ela tocou uma delas como quem encontra uma pista.
Talvez por virem do mesmo universo secreto da maçã desenhada no ar. Talvez por parecerem menos frutas e mais ideia. Talvez porque o verde lhe desse coragem. O fato é que Lia não hesitou por muito tempo. Separou os ingredientes, amarrou melhor os cabelos e começou.
Enquanto misturava a massa, sentiu o medo diminuindo só um pouco. Não porque a situação fosse menos absurda — estava numa cozinha de um castelo acinzentado, preparando sobremesa para uma rainha desconhecida a fim de provar sua criatividade —, mas porque havia coisas que acalmavam o pensamento: mexer, medir, cortar, sentir o cheiro da canela acordando no ar.
Descascou as maçãs verdes.
Fatiou.
Temperou.
Provou o recheio com a ponta do dedo e teve a impressão de que a torta estava ficando não apenas boa, mas curiosa. Como se tivesse alguma coisa para dizer.
Foi ao forno.
E, enquanto assava, o cheiro começou a percorrer a cozinha, depois o corredor, depois — ao que tudo indicava — boa parte do castelo. Um cheiro morno, doce, levemente ácido, com qualquer coisa de casa inventada.
Quando a torta ficou pronta, Lia a retirou com cuidado. A massa estava dourada, o recheio brilhava, e as fatias de maçã pareciam organizadas por alguém que desejava agradar, mas também surpreender.
Um dos guardas surgiu à porta.
Cheirou o ar.
Coçou o capacete.
— Está pronta?
— Eu espero que sim — respondeu Lia.
— Eu também — murmurou ele. — Nunca vi ninguém sair pior da cozinha do que entra. Mas também nunca vi ninguém voltar muito melhor.
Aquilo não ajudou.
Mesmo assim, a travessa foi levada ao grande salão.
Os olhos da corte inteira pousaram sobre a torta como se ali estivesse uma decisão de Estado.
Lia foi posta diante do trono. Um criado recebeu a travessa com solenidade exagerada e a depositou sobre a mesa à frente da Rainha.
A Rainha de Zagos não se serviu de imediato.
Antes, inclinou-se sobre a travessa com os olhos apertados, como se uma torta pudesse estar tramando contra o trono.
— Nome do prato? — perguntou.
Lia sentiu o coração tropeçar por dentro.
Não havia pensado nisso.
Tinha pensado na massa, no recheio, no forno, na pressa, no medo, nas maçãs.
Mas nome?
Nome nenhum.
Ainda assim, respondeu como se tivesse nascido sabendo:
— Torta do Pensamento Verde.
O salão silenciou.
A Rainha ergueu uma sobrancelha.
— Pensamento… verde?
— Sim, Majestade.
— Você usou maçãs verdes?! — perguntou, agora num tom que parecia acusação, susto e ameaça ao mesmo tempo.
Lia respirou fundo.
Poderia inventar alguma bobagem sobre frutos raros do pomar invisível, peras disfarçadas ou ameixas de outro continente.
Mas preferiu a verdade.
— Usei.
A Rainha encarou a torta como quem encara uma testemunha perigosa.
Depois, cortou um pedaço mínimo, levou à boca e mastigou devagar.
Muito devagar.
Tão devagar que até as tapeçarias pareceram prender a respiração.
Então ela estendeu o prato a um dos guardas.
— Prove. Eu estou te pagando, vá!
O guarda, assustado, pegou um pedaço, mastigou e abriu um sorriso sincero demais para um funcionário do palácio.
— Majestade, está excelente!
A Rainha virou o rosto para ele, ofendida.
— Eu pedi sua opinião?!
O guarda encolheu até quase virar rodapé.
Foi nesse momento que o conselheiro do reino — velho, fino e cheio de palavras guardadas nas mangas — deu um passo à frente. Observou a torta, observou Lia, observou as maçãs verdes ainda esquecidas sobre uma bandeja trazida da cozinha.
Seus olhos demoraram-se nelas com respeito quase acadêmico.
Então ele pigarreou e declarou:
— Majestade, com todo respeito à coroa e ao orçamento da cozinha… esta torta tem grande logosgraficidade.
Um murmúrio atravessou o salão.
Algumas pessoas repetiram a palavra em voz baixa, como quem tenta se lembrar se já a ouviu antes. Outras fingiram entender de imediato, o que é uma atitude muito comum em lugares cheios de poder.
A Rainha de Zagos voltou os olhos para Lia.
Dessa vez, não parecia apenas desconfiada.
Parecia interessada.
— Grande logosgraficidade… — repetiu, como quem prova uma palavra pela primeira vez. — E quem tem logosgraficidade só pode ser uma exímia jogadora de ZAGO.
Lia engoliu seco.
Ela ainda não sabia exatamente o que era ZAGO, mas pelo modo como a palavra ecoava no salão, não devia ser brincadeira de quintal.
A Rainha sorriu.
E sorrir, nela, continuava não sendo uma garantia de segurança.
— Prendam-na!
Dois guardas avançaram de imediato.
Lia deu um passo para trás.
O mesmo guarda que havia provado a torta ergueu a mão, hesitante:
— Na masmorra, Majestade?
A Rainha arregalou os olhos.
— Claro que não, energúmeno! Não vê que a coloridinha é minha convidada?
O guarda ficou imóvel, sem saber se recuava ou se agradecia por ainda estar vivo.
A Rainha apontou para Lia com solenidade teatral:
— Prendam-na na suíte de hóspedes. Amanhã jogaremos ZAGO!
Houve novo murmúrio no salão, agora de espanto ainda maior.
Ser convidado para a suíte de hóspedes, ao que parecia, era uma honra. Ser “preso” nela, porém, era uma dessas honras típicas de lugares governados por gente complicada.
Lia foi conduzida por outra sucessão de corredores, escadarias e portas altas. O castelo seguia em ruínas por fora e por dentro, mas a tal suíte tinha qualquer coisa de inesperadamente digna: uma cama grande, cortinas gastas porém elegantes, uma bacia com água perfumada, uma janela estreita com vista para torres quebradas e, sobre a mesa de cabeceira, um vaso com uma única flor cinza tentando se lembrar da própria cor.
Quando os guardas saíram, trancando a porta do lado de fora, Lia finalmente pôde respirar sozinha.
Aproximou-se da janela.
Lá fora, o reino parecia ainda mais silencioso à luz quase adormecida da noite. O castelo em ruínas parecia vigiar a si mesmo. E, em algum lugar daquele território desbotado, havia uma Rainha que jogava ZAGO, um conselheiro que reconhecia logosgraficidade em tortas e uma minhoquinha verde de chapeuzinho papal que continuava, até segunda ordem, sendo a criatura mais suspeita da história.
Lia sentou-se na cama.
Olhou para as mãos.
Ainda cheiravam a maçã verde e canela.
— Amanhã jogaremos ZAGO… — repetiu para si mesma.
Mini Dicionário Logosgráfico
logosgraficidade
substantivo feminino
Qualidade do que, por meio da linguagem, da imagem, do gesto ou da criação, concentra sentidos simbólicos capazes de ultrapassar a aparência imediata das coisas. É a força interpretativa que transforma um objeto comum em passagem, uma palavra em descoberta e uma simples torta em pensamento verde.




