Por: Paulo Ricardo Zargolin
Capítulo 3
O ISOLAMENTO
O primeiro dia de isolamento começou com uma descoberta humilhante: a casa era grande demais para um homem sozinho.
Antes, ele gostava daquele espaço. Os móveis largos, os quadros bem posicionados, a iluminação estudada, tudo parecia confirmar uma espécie de vitória doméstica. Agora, porém, cada objeto parecia ocupar melhor o próprio lugar do que ele. A poltrona continuava poltrona. A mesa continuava mesa. O espelho, infelizmente, continuava espelho.
Os amigos não vieram.
Mandaram mensagens.
“Estamos com você.”
Era uma frase bonita, sobretudo porque não exigia presença física. A solidariedade digital tem essa vantagem sanitária: abraça sem encostar, chora sem molhar o ombro de ninguém e desaparece com a mesma delicadeza com que chegou.
Ele respondeu a algumas. Depois parou. O celular, antes extensão de sua importância, transformara-se num pequeno altar de abandono com notificações.
As manchas avançavam pelos pulsos.
Brancas, lisas, disciplinadas. Não pareciam feridas. Pareciam decisões.
Tentou comer. Não conseguiu. Tentou dormir. Também não. Tentou convencer a si mesmo de que aquilo era provisório, mas até a palavra “provisório” soou ridícula dentro daquela casa fechada, como um vendedor otimista anunciando guarda-chuva no meio de um naufrágio.
Foi ao banheiro.
Não precisava ir. Mas homens como ele, quando perdem o controle da cena, procuram o espelho. O espelho sempre fora um funcionário eficiente: devolvia-lhe o rosto certo, o ângulo certo, a versão mais aceitável da mentira.
Naquela tarde, o funcionário pediu demissão.
Ele parou diante da pia.
A luz branca do banheiro não ajudava. Era uma luz sem gentileza, dessas que parecem ter feito curso técnico em revelação de decadência. O rosto surgiu no vidro com pequenas alterações: a pele mais opaca, os contornos menos seguros, a expressão de quem ainda tentava posar para uma fotografia que ninguém queria tirar.
Ele se aproximou.
O reflexo também.
Então o reflexo sorriu.
Ele não.
— Ih — disse o reflexo. — Deu ruim no protagonista.
Ele recuou.
O reflexo ficou perto, sorrindo com aquela mesma boca antiga, a boca da festa, a boca do “Boom”, a boca de quem sempre soube transformar a gravidade alheia em entretenimento próprio.
— Isso não está acontecendo.
— Claro que não — respondeu o reflexo. — Você só está tendo uma reunião de alinhamento com o próprio ridículo.
Ele levou a mão à boca, mas parou antes de tocar.
Até o susto, agora, precisava respeitar protocolo.
— Você é febre.
— Também. Mas febre com repertório.
— Alucinação.
— Possivelmente. Mas, convenhamos, se fosse uma alucinação sua de verdade, eu estaria mais bem vestido.
Ele apertou a borda da pia.
O reflexo olhou para os dedos manchados.
— Cuidado com o mármore. Depois quem limpa? Ah, esqueci. Ninguém quer mais chegar perto do reizinho radioativo.
— Cala a boca.
— Nossa, começou forte. Terapia cognitivo-comportamental de boteco.
Ele respirou fundo.
O reflexo suspirou junto, mas com deboche.
— Vamos fazer assim — disse o outro. — Eu pergunto, você mente, eu finjo que acredito, e no final colocamos a culpa na infância, no signo ou na falta de vitamina D. Funciona muito na internet.
— Eu não vou conversar com um espelho.
— Tarde demais. Você conversou com plateias piores.
Aquilo o irritou.
Não pela frase em si, mas pela precisão. O espelho não parecia inventar. Parecia apenas editar.
— O que você quer?
— Eu? Nada. Quem quer coisa é você. Quer voltar para ontem. Quer que Ana Paula tenha exagerado. Quer que seus amigos sejam corajosos. Quer que sua mão pareça mão. Quer que o mundo peça desculpas porque seu personagem perdeu o figurino.
O nome dela mudou o ar do banheiro.
Ana Paula.
Branca. Distante. As luvas frias. O aviso. A calma.
“Sou uma bomba-relógio… desculpe.”
E ele, diante de todos:
“Boom.”
O reflexo bateu palmas devagar.
— Momento inesquecível. Humor de qualidade. Quase um stand-up epidemiológico.
— Eu não sabia.
— Sabia o suficiente para não tocar.
— Ela veio à minha festa.
— E daí? Convite não é autorização para invasão, meu anjo contaminado.
Ele fechou os olhos.
— Eu tentei ser gentil.
O reflexo gargalhou.
Não uma gargalhada monstruosa. Pior: uma gargalhada social. De salão. De quem segura um copo e destrói alguém com charme.
— Gentil? Você tomou as mãos dela na frente dos outros. Gentileza com plateia é quase sempre vaidade fantasiada de educação.
— Você está me julgando.
— Não. Estou legendando.
Ele abriu os olhos.
O reflexo estava mais próximo do vidro. As manchas, do lado de lá, pareciam menores. Ou talvez mais elegantes. Aquilo era intolerável.
— Você acha isso engraçado?
— Acho você engraçado. A doença, não. A doença é séria, pontual, eficiente. Você é que é uma crônica de mau comportamento tentando virar épico.
Ele deu um passo para trás.
— Você não existe.
— Existo mais que seus amigos hoje. E sem mandar emoji.
A raiva subiu.
Era bom sentir raiva. A raiva era antiga, conhecida, viril. Diferente daquele medo branco, silencioso, que não dava espetáculo e por isso mesmo era insuportável.
— Você é só uma parte de mim.
— A melhor parte.
— A pior.
— As duas coisas. Você sempre gostou de pacote completo.
O reflexo ajeitou a postura, como se assumisse a condução de um programa vespertino.
— Pergunta final da nossa sessão: por que você tocou nela?
— Já disse.
— Disse nada. Você apresentou defesa de advogado ruim.
Ele ficou calado.
— Tocou porque ela disse não — continuou o reflexo. — E o não, para você, sempre foi uma afronta estética. Estragava a composição da cena. Uma mulher doente, de luvas, parada longe, dizendo “não posso chegar perto”… que absurdo, né? Onde já se viu alguém não colaborar com a dramaturgia do aniversariante?
— Cala a boca.
— De novo? Criatividade em fase terminal.
— Cala a boca!
— Boom — disse o reflexo.
Foi baixo.
Quase doce.
E foi o bastante.
O soco veio antes do pensamento.
A mão atravessou o espelho com um som seco, feio, sem qualquer beleza cinematográfica. Não houve explosão elegante de vidro. Houve resistência. Houve rasgo. Houve a matéria doméstica mordendo de volta.
Ele gritou.
O corte abriu fundo.
O sangue desceu vermelho demais sobre as manchas brancas, como se o corpo, ofendido por tanta palidez, resolvesse provar que ainda sabia produzir cor.
Ele puxou a mão.
Os pedaços do espelho continuaram devolvendo o rosto em versões quebradas. Em uma delas, o reflexo parecia assustado. Em outra, ria. Num estilhaço menor, perto da saboneteira, tinha a expressão satisfeita de quem acabara de vencer uma discussão familiar.
— Parabéns — disseram os pedaços, fora de sincronia. — Primeiro contato sincero do dia.
Ele cambaleou.
Apoiou-se na parede e deixou uma marca vermelha, branca, irregular. A casa, enfim, tinha sido tocada pela verdade.
Pegou o celular com dificuldade. A tela recusou sua digital duas vezes, como se até a tecnologia tivesse aderido ao isolamento.
Na terceira, abriu.
Ligou para a emergência.
A atendente perguntou o que havia acontecido.
Ele olhou para o espelho quebrado.
— Corte profundo — respondeu.
— Há mais alguém na residência?
Ele olhou de novo.
Os estilhaços olharam de volta.
— Não.
Depois acrescentou, sem querer:
— Acho que não.
A ambulância chegou com sirene.
O bairro inteiro ouviu. Cortinas se abriram. Portões eletrônicos rangeram. Cachorros latiram com uma convicção moral que os vizinhos não tinham coragem de assumir. A festa acabara, mas o espetáculo, pelo visto, havia encontrado novo formato.
Do outro lado da cidade, Ana Paula estava diante da janela quando a ambulância passou.
Não se assustou.
Apenas acompanhou o veículo com os olhos.
Sabia o caminho.
Sabia a casa.
Sabia o homem.
E, por saber demais, não pediu exatamente cura. Cura era palavra grande para quem ainda mal começara a compreender a própria ferida.
Pediu apenas que ele sobrevivesse ao próximo estágio.
Porque algumas doenças atacam a pele.
Outras atacam a imagem.
E há aquelas, mais perigosas, que esperam o homem ficar sozinho para lhe devolver, no espelho, a piada que ele fez do mundo.




