Por: Paulo Ricardo Zargolin
Capítulo 2
A DOENÇA
Ele voltou branco.
Não o branco decidido da roupa, que escolhe seu próprio contraste. Um branco irregular, indeciso, como se a pele tivesse sido apagada aos poucos por uma mão sem pressa, mas também sem piedade. Havia nele algo de inacabado. Um corpo que já não sabia se ainda estava sendo escrito ou se começara, enfim, a ser desfeito.
As coceiras tinham cessado.
E foi justamente isso que o alarmou.
A dor, quando insiste, sustenta no homem a fantasia de resistência. O incômodo contínuo é uma forma rudimentar de esperança. Já o silêncio do corpo — esse acordo súbito entre o que invade e o que cede — não deixa margem para heroísmo. Só para adaptação.
Ele parou diante de Ana Paula com um cuidado tardio, desses que chegam depois que o gesto já foi cometido e não há mais ninguém para impressionar.
— Eu preciso saber o que você me passou.
A frase veio menos firme do que ele gostaria. Havia nela um resíduo de autoridade que o corpo já não conseguia sustentar.
Ana Paula não respondeu de imediato.
Observou-lhe as mãos.
As manchas haviam avançado com disciplina. Não eram mais o acidente isolado de uma pele distraída. Havia nelas uma lógica. Uma distribuição quase elegante, se elegância fosse ainda uma palavra possível ali. As bordas eram nítidas, a superfície lisa demais, como se a pele tivesse desaprendido a ser porosa.
— O que aconteceu depois que eu fui embora?
Ele hesitou. Não por não lembrar, mas por não aceitar que aquela pergunta antecedesse a sua.
— Fui ao banheiro. Lavei. Esfreguei. Piorou. — pausou, como quem tenta resumir a própria decadência sem perder o tom — Mandei tirarem todo mundo da casa.
— Todos?
— Todos.
— Ninguém mais tocou você?
Ele pensou.
Houve mãos. Rápidas. Funcionárias. Cumpriram o protocolo doméstico de obedecer antes de entender. Depois, o silêncio.
— No começo, sim. Depois, não voltaram.
Ela assentiu.
Não havia surpresa naquele gesto. Havia conferência.
— E depois disso?
— Depois disso… — ele travou — depois disso eu fiquei.
Ficar. Ele nunca havia usado o verbo com tanto peso. Sempre fora homem de circular, de ocupar espaços como quem os domina. Agora, a permanência lhe caía como castigo.
Ana Paula manteve os olhos nas mãos dele.
— A coceira parou, não foi?
— Parou.
— E você achou que era bom.
Ele não respondeu. Não precisava. A resposta estava na forma como sustentava o próprio corpo, como quem ainda espera que alguém desminta o que já está evidente.
— Não é melhora — disse ela, com uma calma que não pedia autorização. — É mudança de fase.
Ele levantou o rosto.
Pela primeira vez, não havia nele traço de ironia. Apenas cálculo. Um cálculo imperfeito, porque o objeto ainda lhe escapava.
— Que doença é essa?
Ana Paula respirou.
Não fundo. Não dramático. Um gesto funcional, como quem organiza o próprio tempo antes de nomear o inevitável.
— Eu não sei se tem nome que caiba.
Ele riu.
Instinto.
Um reflexo de quem passou a vida inteira resolvendo o mundo com a redução certa.
— Tudo tem nome.
— Nem tudo precisa de um — ela respondeu, sem elevar a voz. — Às vezes o nome só atrasa o entendimento.
Ele se irritou. Não com a resposta, mas com o lugar que ela ocupava ao dá-la. Não havia nela a hesitação dos doentes. Nem a urgência dos que procuram saída. Havia uma estabilidade incômoda, como se aquela mulher já tivesse atravessado o ponto onde ele agora tropeçava.
— E você? — ele perguntou. — Como você está assim?
Ela inclinou levemente a cabeça, como quem examina a própria condição pela primeira vez.
— Assim como?
— Normal.
A palavra saiu pequena demais para o efeito que ele esperava.
Ana Paula quase sorriu.
— Eu não estou normal.
Ele avançou um passo.
— Mas também não está como eu.
— Ainda não — ela corrigiu, com uma precisão que não era ameaça, mas também não era consolo.
O silêncio se alongou.
Havia ali uma assimetria que ele não sabia nomear. Não era superioridade. Não era piedade. Era outra coisa. Algo mais frio. Mais funcional.
— Eu também achei que fosse da pele — ela disse, enfim. — No começo.
Ele esperou.
— Coçava. Ardia. Sangrava um pouco, só o suficiente para desorganizar a gente. Eu fiz o que todo mundo faz quando não entende: tentei limpar. Como se fosse sujeira. Como se bastasse insistir.
Ele olhou para as próprias mãos.
A memória do sangue ainda estava ali. Não no vermelho, que já havia passado, mas na humilhação de ter acreditado que água resolveria.
— E depois?
— Depois passou.
Ele levantou os olhos.
— Passou?
— A coceira. O ardor. A urgência.
— E então?
Ana Paula demorou um segundo a mais do que o necessário.
— Então ficou.
Ele não entendeu.
Ou não quis entender.
— Ficou o quê?
Ela apontou, sem tocar, para as mãos dele.
— Isso.
Ele fechou os dedos por reflexo.
Como se ainda houvesse algo a esconder.
— Isso não é ficar — ele disse, com uma irritação crescente. — Isso é piorar.
— Não — ela respondeu. — Isso é estabilizar.
A palavra o atingiu com mais força do que qualquer descrição.
Estabilizar não combina com desespero. Não combina com solução. É o verbo dos estados que se acomodam, não dos que se resolvem.
— Tem cura? — ele insistiu, já sem o cuidado de disfarçar o medo.
Ana Paula o observou por alguns segundos.
Não havia crueldade naquele olhar. Mas também não havia concessão.
— Tem continuidade.
Ele deu um passo atrás.
— Eu não vou ficar assim.
A frase soou menos como afirmação e mais como súplica mal formulada.
— Você já está — disse ela.
O ar pareceu pesar.
Ele procurou algo — um argumento, um gesto, uma lembrança de autoridade — qualquer coisa que restituísse a ele o papel de quem conduz a cena.
Não encontrou.
— Como você pegou isso? — perguntou, mudando de eixo, como quem tenta reescrever a origem para escapar do destino.
Ana Paula desviou o olhar por um instante.
— Toquei.
Simples.
Sem história heroica. Sem acidente grandioso. Sem justificativa moral.
— Em quem?
— Em alguém que também achava que era pouca coisa.
Ele absorveu a resposta com dificuldade.
— E essa pessoa?
— Sumiu.
— Morreu?
— Não sei.
Ela voltou a fitá-lo.
— Nem tudo precisa terminar para deixar de estar disponível.
O silêncio voltou.
Mais espesso.
Mais definitivo.
Ele olhou ao redor, como se esperasse encontrar ali — naquela sala, naquela casa, naquela cidade — alguém que ainda pudesse tocá-lo sem cálculo.
Não havia.
Nem os empregados.
Nem os amigos.
Nem os cúmplices de riso.
A notícia correra mais rápido que qualquer sintoma. E, ao contrário da doença, não precisava de contato para se espalhar.
— Ninguém vai chegar perto de mim — ele disse, enfim.
Não era pergunta.
Era constatação.
Ana Paula não discordou.
— E se ninguém chegar perto de você — ela respondeu, com a mesma calma cansada da noite em que fora ignorada — a doença continua.
Ele a encarou.
— Em mim.
— Com você.
A correção era sutil, mas definitiva.
Ele tentou rir.
Não conseguiu.
Pela primeira vez, desde a festa, compreendeu algo que não podia mais ser convertido em estilo, nem dissolvido em ironia, nem rebaixado a exagero alheio:
há contatos que iniciam processos.
E há processos que não pedem mais consentimento.
Ana Paula desviou o olhar. Não por indiferença. Mas porque certas compreensões, quando finalmente acontecem, já não precisam de plateia.




