Tô fazendo falta — um episódio que quase voltou

Por: Paulo Ricardo Zargolin

PAULO FALANTE — Episódio 1 da pretensa segunda temporada

Tô fazendo falta

Este roteiro começava porque o Logosgrafia voltou a respirar.

Antes disso, eu — Paulo Ricardo Zargolin, autor, blogueiro, fazedor de mini projetos e acumulador profissional de ideias — estava espalhado demais. Fragmentado demais.

Quase como um ex-ficante que some, volta do nada e ainda tem a audácia de começar cantando Joanna:

“Tô fazendo falta.”

Sim. A ideia era esfregar isso na cara do público com a elegância de quem sabe que talvez ninguém tenha percebido.

Mas vamos fingir que perceberam.

Afinal, eu sou o famoso quem?

Boa pergunta.

Eu já percorri a internet com frases virais. Já fui citado em trabalhos universitários, artigos, teses e até matéria do G1. Houve até uma daquelas cenas que parecem mentira, mas não são: uma frase minha apareceu como pensamento falado no encerramento do Mais Você, na voz de Ana Maria Braga.

Não, não era IA.

Quem tiver Globoplay pode conferir no programa de 28/03/2016. Quem não tiver, pode fazer o gesto mais antigo da fé contemporânea: dá um Google.

Pensamento falado do dia:

Viralizei.

E falando sobre álbum de figurinhas em época de Copa do Mundo, quem saiba eu repita o feito.

O Logosgrafia chegou a ter cerca de 5 mil visitas por mês, sem tráfego pago, sem publi, sem dancinha, sem eu apontar para balõezinhos imaginários na tela.

E o mais absurdo: eu nem estava publicando direito desde 2014.

Não paguei domínio. Não alimentei rede social. Não acompanhei nada.

Perdi a tração.

Morri para os buscadores.

E, na internet, morrer para os buscadores é quase pior do que morrer de verdade, porque pelo menos no velório alguém ainda procura seu nome.

Em 2021, na reta final da famigerada pandemia de Covid-19, eu comecei o Paulo Falante.

Foi uma brincadeira.

Sozinho, sem equipe, sem patrocínio, sem microfone chique, sem coach de posicionamento digital me mandando “nichar”, coloquei no ar 8 episódios em várias plataformas.

Houve um tempo em que a própria Alexa atendia, se alguém pedisse para tocar o “famigerado” podcast.

Olha que chique.

Eu e a Alexa, íntimos.

Mas, se eu não fiz falta para você nesses últimos cinco anos, tudo bem.

A internet é muito grande.

O público é muito diverso.

E, às vezes, a gente acha que sumiu do mundo, mas só saiu da bolha de três pessoas que curtiam tudo por educação.

Chegar em muita gente de repente assusta.

Sempre tem quem ame.

Sempre tem quem odeie.

E sempre tem quem não entenda nada, mas comente com convicção — que é praticamente uma profissão não regulamentada da internet.

Aquela velha história do prego que se destaca levar martelada é real.

E eu, nesses últimos anos, fiquei meio prego escondido na gaveta.

Postava algo aqui e ali no Logosgrafia.

E só.

Nunca tive intenção de ser famoso.

Aliás, nem quero.

Famoso passa.

Eu quero fazer sentido.

Meu problema é que, às vezes, eu falo difícil.

Resultado de muita leitura na infância.

Enquanto algumas crianças estavam aprendendo a socializar, eu provavelmente estava tentando entender uma metáfora que ninguém me pediu para entender.

E, falando em leitura, publiquei 3 livros na Amazon.

Grande coisa.

Quem é que compra?

Eu não tinha autoridade, notoriedade, nem um exército de seguidores dispostos a pagar por algo que eu escrevo.

E, convenhamos: para que pagariam, se têm acesso grátis ao Logosgrafia?

O problema é que, no Logosgrafia, a pessoa entra achando que vai passar um tempinho leve na internet e, quando percebe, está diante de uma reflexão profunda demais para quem só queria consumir porcaria com dignidade.

Então eu tive uma ideia meio maluca.

Talvez ninguém me note porque eu estive fragmentado esse tempo todo.

Há quem conheça o Paulo, filho carinhoso e brincalhão de Jales.

Há quem tenha estudado comigo e saiba que sou fissurado em ter resposta para tudo.

Há quem tenha trabalhado comigo, em empresa privada ou órgão público, e me conheça como aquele que vai achar a solução, custe o que custar.

Há o povo da internet, que sabe que sou low profile, mas viral no Pensador.

E, ainda assim, quase ninguém me conhece direito.

Porque eu nunca me apresentei de verdade.

Eu não quis ser conhecido.

Nem reconhecido.

Fiz por diversão.

Pela alegria de editar, ouvir, brincar, cortar, montar, pensar e colocar no mundo um episódio artesanal, pensado por mim e, em certa medida, para mim.

Mas em 2026 pareceu chegar a hora de integrar tudo.

O Paulo Falante era brincante.

Era feito por alguém que ama palavras, sons, músicas, vídeos, cheiros, memórias e essas pequenas bobagens que parecem bobagens até a gente descobrir que eram nossa biografia emocional inteira.

O Logosgrafia é meu jeito de registrar os simbolismos que minha mente transborda.

Estudar e trabalhar intelectualmente é meu jeito de ganhar a vida.

E a internet?

A internet é um abismo.

Mas eu, como Simba, rio na cara do perigo.

Sim, eu chamaria o Rei Leão de 1994 para este episódio.

Porque, se é para falar de retorno, identidade, exílio e selva, que venha Simba.

E que venha com trilha sonora.

Aproveito para contar que lancei uma estante nova no Logosgrafia.

Sim, agora o blog está dividido por estantes.

Tem a parte chata, com referência, ABNT e aquela alegria acadêmica que faz a alma usar crachá.

Mas também tem crônica.

Tem romance.

Tem mistério.

Tem drama.

Tem cultura pop.

E tem a Nostalgrafia, onde falo da programação infantil dos anos 90 ao início dos anos 2000, refletindo sobre os ensinamentos bons, ruins e duvidosos daquela temporada da vida.

Porque a infância também educa.

Às vezes, educa bonito.

Às vezes, traumatiza com abertura de desenho animado e a gente só percebe trinta anos depois.

E, falando em temporada, este seria o começo da segunda.

Não foi.

Virou arquivo.

Virou ensaio.

Virou esta publicação.

O que talvez seja melhor.

Porque, quando um projeto não vira aquilo que prometeu ser, ele ainda pode virar documento de uma fase. E há fases que não pedem continuidade. Pedem registro.

Se este episódio tivesse ido ao ar, talvez eu terminasse perguntando:

Onde você se vê daqui a cinco anos?

Criando alguma coisa?

Estudando?

Sumindo?

Voltando?

Querendo ser uma conta grande em alguma plataforma ou feliz sendo espectador?

Se está só querendo viver de Tigrinho, cuidado com a selva, hein.

Se este episódio tivesse ido ao ar, talvez eu dissesse:

Até o próximo domingo.

Hoje, prefiro dizer:

Ficou registrado.

Fuuuuiiiii.


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