Maracangalha #06: Com açúcar demais enjoa

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Com açúcar demais enjoa

O sino do portão tilintou com um capricho que não combinava com a gravidade do fim de tarde. Cristina, da janela, enxugou as mãos no avental e avisou com a voz seca:

— É o filho do Dr. Valdo.

Laura ajeitou a gola da blusa e engoliu um suspiro. Não havia combinado visita alguma.

Plínio entrou como se fosse da casa. O sapato lustroso pisava o tapete com convicção, mas o olhar buscava — quase sem querer — um espelho, um reflexo, alguma garantia de que continuava irresistível.

— Boa tarde, minha flor. — Ele sorriu, oferecendo um buquê improvisado, desses que parecem comprados no caminho só para não chegar de mãos vazias. — Espero não estar interrompendo nenhum ritual secreto.

Cristina forçou um sorriso protocolar e foi buscar um café, como se o gesto fosse obrigação e penitência ao mesmo tempo.

— Que surpresa… — murmurou Laura, sem conseguir disfarçar a dúvida sobre se era, de fato, uma surpresa ou um teste.

— Eu gosto de te ver sem aviso. A espontaneidade revela a essência. — Ele sentou-se sem ser convidado, cruzando as pernas com ensaio de galã.

Fez-se silêncio. Plínio olhou em volta como quem avalia a mobília de um restaurante novo. Sentia-se deslocado, mas não podia demonstrar. O script de homem seguro não permitia tropeços.

— E então, ouvi dizer que sua prima é jornalista? Vinda da capital? — perguntou, com um tom entre curioso e ameaçado.

Laura assentiu. Ele não insistiu — por enquanto.

Logo soltou, fingindo graça:

— São Paulo tem dessas… manda moças de salto alto achando que sabem mais do que a gente.

Cristina retornou com a bandeja e entregou a cada um a xícara, mas não deixou passar.

— Ísis é filha de Marta. Sabe quem é, Plínio? Aquela amiga da minha juventude. É como se fosse sobrinha de sangue — completou, mexendo o açúcar com força demais e mostrando uma foto da menina no celular.

Plínio fingiu lembrar, mas estava mais interessado em observar os gestos de Laura, que mantinha o olhar fixo na xícara como quem procura um oráculo no fundo de borra. O café estava doce demais, ele não suportava café assim, mas havia aprendido que, às vezes, engolir açúcar era mais fácil do que contrariar.

 Ajeitou-se no sofá e, sem pensar, comentou:

— Bonita, a moça. Imponente, até. Mas tem um olhar… desses que parece saber onde dói nos outros. Gente assim me dá medo.

— Medo? — Laura ergueu os olhos, pela primeira vez, desafiando o tom.

— É… medo de errar o tom. Medo de não ser suficiente — disse, e imediatamente mordeu o lábio. Não era pra ter dito isso. Riu para disfarçar. — Mas isso é coisa de poeta frustrado. Ignore.

Cristina cruzou os braços e sorriu sem os dentes. Laura não riu. Apenas olhou para a janela.

Nesse momento, ouviram o portão. Um bater de sandálias contra o cimento. Era ela.

Ísis entrou com os cabelos presos num coque alto e os ombros tostados de sol. Carregava uma pasta de documentos e um ar de missão cumprida.

— Começo amanhã — anunciou, limpando o suor com as costas da mão. — A prefeitura é um labirinto, mas já descobri onde fica minha mesa. Pena que ainda não descobri quem são os minotauros.

Plínio ficou em pé num salto, como se a presença dela impusesse um protocolo novo.

— Seja bem-vinda, prima — disse, oferecendo a mão.

— Prima de quem? — respondeu Ísis, sem maldade, mas com aquela ironia serena que faz o outro repensar a própria frase.

— Prima da casa — corrigiu Cristina, rápida, enquanto tomava das mãos da moça a pasta com os papéis, como quem resgata a ordem.

Laura ficou em silêncio. A presença de Plínio lhe parecia agora ainda mais artificial. Sentia no ar o peso do açúcar que sobrava — e que, enfim, enjoava.


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