A esquina depois das onze

Às vezes, o que parece inexistente apenas permanece aberto em horários que a nossa rotina nunca alcança.

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Suponha que alguém, durante um recesso, se permita sair da rotina.

No almoço de domingo, bebe mais do que deveria. Às cinco da tarde, adormece profundamente. Acorda às onze da noite com vontade de tomar Coca-Cola e, pela primeira vez em muito tempo, decide sair de casa naquele horário.

Normalmente, tudo estaria resolvido antes das nove: a refeição pedida por aplicativo, a noite organizada, o dia seguinte protegido. Mas o recesso suspende certas obrigações. Sem compromisso pela manhã, ele pode caminhar sem pressa pelas ruas próximas.

Vai direto a uma pizzaria que imagina estar aberta.

Está fechada.

Segue adiante e, ao dobrar a esquina, encontra um trailer de hot dog iluminado, com clientes, cheiro de lanche e refrigerantes gelados. O lugar não surgiu naquela noite. Sempre esteve ali. Ele é que nunca passava por aquela rua depois das onze.

Talvez seja assim que conhecemos a própria vizinhança: não como ela é, mas como a nossa rotina permite que ela apareça. Certas portas parecem inexistentes apenas porque permanecem abertas em horários que não frequentamos.

Talvez aconteça o mesmo com os textos.

Alguém escreve, publica e espera algum sinal de que suas palavras chegaram a outro lugar. Quando a resposta não vem, começa a suspeitar que aquilo que considera bom talvez só tenha valor para si. O silêncio, então, parece uma sentença.

Mas um texto pouco lido não é necessariamente um texto recusado. Pode ser apenas um texto ainda fora do caminho de quem o compreenderia.

Quem escreve também constrói territórios. E todo território corre o risco de se tornar uma ilha, sobretudo quando possui muitos caminhos internos e poucos lugares de chegada. Por isso, não basta escrever bem. É preciso criar portos, acender luzes e facilitar o desembarque.

Ainda assim, a ausência de visitantes não prova que nada exista ali.

Talvez os leitores estejam próximos, vivendo em outros horários, percorrendo outras ruas, obedecendo a rotinas que ainda não os levaram até aquela página.

Antes de concluir que o lugar está vazio, talvez seja preciso caminhar um pouco mais.

Às vezes, o que se procura sempre esteve aberto.

Bastava dobrar a esquina depois das onze.


Mais crônicas, aqui.
0Capa da categoria Acervo com a palavra “Acervo” em letras metálicas prateadas, sendo a letra O substituída por uma maçã prateada. Ao fundo, uma biblioteca digital futurista com estantes, documentos, telas e interfaces tecnológicas em tons de prata.
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