Maracangalha
Capítulo 09
Por: Paulo Ricardo Zargolin
A porta da prefeitura se abriu como uma pálpebra cansada. O trinco demorou a ceder, como se o prédio hesitasse em permitir que algo fresco adentrasse. O piso de cerâmica tinha manchas que se confundiam com mapas: marcas de café, passos, tempo. O cheiro era uma mistura de formalidade abafada e pó de arquivo — perfume seco de cidade que engaveta seus próprios erros com esmero.
Ísis caminhou devagar, sentindo o deslocamento que só os corpos alertas experimentam: ela não parecia visitante, mas tampouco pertencia. O vestido claro destoava da penumbra burocrática. A recepcionista sorriu sem os olhos e indicou com a cabeça o caminho do fundo, sem interjeições.
No trajeto, o corredor exalava umidade. Havia quadros tortos de prefeitos antigos e placas de inauguração que pareciam zombar da ideia de progresso. Um deles, meio apagado, dizia: “Nova sala de reuniões – 1998”. A fechadura estava enferrujada. A porta, entreaberta.
A sala de documentos ficava depois de um degrau disfarçado, como armadilha ou esquecimento arquitetônico. Era apertada, quase cúbica. Estantes nas laterais tocavam o teto, sustentando pastas com lombadas tortas e etiquetas desbotadas, muitas escritas à mão com caneta azul que já se arrependia do que havia dito. Havia mais papéis do que ar. E o silêncio ali dentro era grosso como envelope mal lacrado.
Ísis inspirou com cuidado. Passou os olhos pelo espaço, como quem decifra uma cena de crime antes do corpo ser encontrado. Sentou-se devagar, e a cadeira fez um rangido que soou queixa de uma velhinha que já viu coisa demais.
Começou a vasculhar as pastas. Uma a uma, como quem busca pistas dentro de confissões inacabadas. Nomes repetidos, carimbos inconsistentes, datas desalinhadas, rasuras discretas como mentiras mal feitas. O volume dos papéis formava montanhas de esquecimento ativo — como se, ao esconder tanto, alguém tivesse tentado apagar vestígios com excesso de registro.
Foi então que encontrou. Um envelope pardo, sem etiqueta, quase invisível entre dois contratos de licitação para compra de toldos e kits escolares. O conteúdo era modesto: quatro folhas grampeadas, com valores altos, datas recentes e rubricas conhecidas. Mas o que paralisou seu olhar foi o nome anotado a lápis, no cabeçalho da nota fiscal: Casa dos Encantos.
Ela repetiu o nome em silêncio. Casa dos Encantos. Nome de romance barato, nome de seita secreta, nome de ponto de axé — mas, ali, naquele papel com código fiscal e valor exorbitante, era nome de fornecedor.
Pegou o celular. Digitou o nome em um buscador. Nada. Nem site, nem registro de imagem, nem rede social. Apenas um CNPJ ativo, cadastrado sob endereço residencial, num bairro da periferia que ela não conhecia — sem telefone fixo, sem site, sem razão social compatível.
Fez uma anotação discreta na palma da mão com a caneta que sempre levava no bolso: “Encantos – investigar origem”.
Ao fundo, a impressora começou a roncar como se tivesse ouvido o nome e quisesse respondê-lo. Cuspiu duas folhas com lentidão calculada. Documentos internos. Atualizações administrativas com vocabulário rebuscado e alma nula.
Ela se levantou, percorreu a estante com os olhos uma última vez e guardou o envelope no fundo da gaveta à esquerda. Ninguém ainda saberia. Nem mesmo ela entendia o que aquilo significava — mas sabia que o nome mexia. Mexia com a lógica da cidade. Com a poeira das palavras. Com algo que dormia sob a superfície da fala oficial.
Na parede, um crucifixo antigo pendia ligeiramente torto, como se observasse aquilo com uma tristeza cúmplice. O Cristo entalhado parecia cansado. Como se dissesse: “não é a primeira vez que mentem sob minha sombra.”
Ísis havia entrado ali com a compostura de quem esperava encontrar sua mesa de trabalho. A sala, no entanto, não correspondia à sua ideia de começo. Tudo ali era excesso e ausência ao mesmo tempo. Poeira e negligência se confundiam com história. O único som era o da própria respiração e do ventilador encostado no chão, com uma das hélices faltando — um animal doméstico aposentado.
Ela parou no centro, os olhos varrendo o ambiente, procurando por sentido entre ruínas. O nome Casa dos Encantos ainda queimava discreto na palma da mão, onde rabiscara pouco antes de sair. Mas não faria perguntas ainda. A observação precede o confronto.
Ouviu passos. Depois, uma voz arranhada pela polidez:
— Bom dia. Chegou cedo demais… pra uma servidora pública — disse o homem que entrou, segurando uma pasta com o brasão da prefeitura como quem carrega um escudo.
Era Belisário. Usava óculos de aro grosso, uma camisa de listras que parecia pedir outra profissão e o olhar de quem já havia aprendido a sobreviver sem questionar demais.
Ísis ergueu o queixo, sem pressa:
— Achei que essa fosse minha sala. A da Comunicação.
Ele sorriu com um canto só da boca. Foi até a porta e apontou para a parede ao lado.
— Aqui é o arquivo morto. A sua é ali. Mas… sinceramente? Não espere muita diferença.
Ela seguiu. A nova sala tinha mais luz, algumas cadeiras modernas e computadores novos, ainda com o plástico nos cabos. A poeira sobre os teclados revelava: ninguém tocava naquilo. Na parede, um cartaz de campanha de dois mandatos atrás. No canto, uma samambaia plástica com aspiração a metáfora.
Um homem de óculos escuros digitava sem vontade. Ao perceber a presença de Ísis, limpou a garganta, como se isso ajudasse na introdução:
— Sou o Raul. Departamento de Comunicação. E agora, parece, chefe.
— Só estamos nós dois?
— Sim. Por enquanto… e talvez pra sempre, nunca se sabe… — respondeu, quase rindo.
Ela assentiu. Olhou em volta. Uma tela ainda apagada parecia encará-la de volta. Voltou-se para a porta. Belisário ainda ali, prestes a sair.
— E o senhor… qual é o seu cargo aqui? — perguntou, com a elegância desarmada de quem nunca teve medo de hierarquia.
Belisário pigarreou.
— Sou assessor do prefeito.
— Imagino que assessore muitas salas como aquela. A morta, digo.
Ele sorriu sem sorriso. Ajustou os óculos e respondeu com silêncio. Depois saiu. Sem despedida. Sem explicação. Só saiu — seu comportamento revelou que ele tinha a certeza de que algumas perguntas não merecem respostas, mas reverberam.
Ísis sentou-se diante de um dos computadores. Passou o dedo sobre o pó. A tela não ligava. Sorriu de leve. O peso dos papéis, ao menos, ela já conhecia.




