Essências

Por: Antonio Claudio Teixeira Cruz

É comum ouvirmos, às vezes de nossos próprios lábios, a expressão “não fui com a cara dele”. Como poderemos saber se a laranja é azeda, se não a provarmos? Como poderemos saber se a poltrona é macia se não a testarmos?

Ora, diria um “pré-conceituoso”, eu sei que a laranja está azeda e a poltrona é dura porque me falaram. O fulano afirmou que a laranja está azeda e o sicrano disse que a poltrona é dura.

O problema é que o fulano teve o seu paladar construído a partir da vida intrauterina e modificado ao longo de toda a sua vida até chegar ao momento de afirmar que aquela laranja estava azeda. Trata-se de uma opinião única e exclusiva dele, formada sob o molde de seu singular e característico paladar.

Com o sicrano acontece a mesma coisa, ou seja, construiu seu sentido de tato da mesma forma: começou acariciando a mãe, depois pedras ou bichos de pelúcia e depois, adulto, picaretas ou canetas e assim formou o seu sentido, também único e exclusivo, formando suas opiniões.

Assim sendo, os juízos de outrem devem ser respeitados sim, mas não como um axioma indiscutível pela sua verdade incontestável, mas como mais informação para o nosso arquivo de dados, que, utilizados com bom senso, otimizam o nosso discernimento no mundo.

Por outro lado, ao considerarmos que a laranja está azeda por uma pequena mancha na casca, estaremos, talvez, perdendo a oportunidade de experimentarmos a mais doce das frutas.

Quantas frutas doces deixamos de experimentar porque falaram que eram azedas? E quantas frutas doces deixamos de experimentar porque tinham manchas aparentes que nos fazem dizer “não fui com a cara dela”?

O autor é administrador aposentado. Cursa o 4o. ano de psicologia e tem como hobbie ler e escrever.

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5 respostas a “Essências”

  1. Avatar de Paulo Ricardo

    Além disso, Antonio, esses nossos julgamentos são efêmeros e passíveis de mudança a cada nova experiência…
    Bela reflexão.
    Espero que todos estejam preparados para experimentar a maçã verde do Logosgrafa.com.

    1. Avatar de bloghistory

      São dois os agradecimentos: Pela oportunidade de aqui estar e pelas correções, que ficaram ótimas.

      1. Avatar de Paulo Ricardo

        Nem precisa agradecer.
        A oportunidade foi conquistada, com o domínio que o senhor já possui e com as reflexões importantes que seu texto traz.
        Quanto às correções, fazem parte de meu trabalho. Ainda são tímidas, pois tenho medo de distorcer a essência do que os colunistas trazem.

        Em relação ao “pré-conceito”, tema central de seu texto, também podemos refletir sobre a soma de experiências que, segundo nossa cultura, permite predizer, ainda que com uma margem de erro, com quais coisas/pessoas nos identificaremos e quais rejeitaremos.
        De qualquer maneira, até mesmo o “pós-conceito” não é inteiramente confiável, pois, sabe-se, por exemplo, que os sentimentos alteram a percepção e, por isso, os nossos julgamentos não podem outorgar uma realidade compartilhada, e sim, vivências peculiares para cada indivíduo e sob as quais cada um há de compor seus conceitos e preconceitos, obedecendo, a grosso modo, um padrão cultural.
        A partir daí, vêm a Filosofia, a Religião, as Ciências, as certezas, as dúvidas, os dogmas e as reflexões, que, por permutas variáveis, formam cada cultura.

  2. Avatar de AnaGomes Ribeiro
    AnaGomes Ribeiro

    Parabens Antonio Claúdio, Belo tema e belo texto.

    1. Avatar de Antonio Claudio Teixeira Cruz

      Obrigado e perdão por não ter visto seu comentário antes.

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