-Paulo Ricardo Zargolin · -Reflexões

Que trazes pra mim?

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Sem título

Em todos os feriados e em todas as tradições, não consigo parar de pensar sobre a origem de cada rito e abstrair a semântica superficial que lhes são atribuídos. Não, isso não é uma habilidade de pseudointelectuais. Deveria ser uma prática comum para que entendêssemos a nossa própria evolução, mas muitos caem no esmo e preferem seguir velhos rituais sem questionar ou procurar por seu significado histórico.

É comum, até para os amantes da História, deixar de lado o passado e viver o presente, consentindo que os significados de cunho empírico-religioso ultrapassem as fronteiras dos conhecimentos filosóficos e científicos. Não, isso não é uma guerra-fria. A paz é, sim, promulgada pelo ódio aos ideais alheios e os donos de ideias opostas angariam seguidores para enfrentarem-se em combates que perpassam séculos.

Claro que, se nós pudéssemos beber da fonte da qual jorram nossas origens, poderíamos construir um futuro bem diferente, com uma filosofia mais abrangente, uma espiritualidade mais leve, sem mistérios entre os céus e a terra.

Quando questionados sobre a Páscoa, por exemplo, o campo associativo que se apresenta ao nosso redor envolve: ressurreição de Jesus, para os cristãos; coelhos e ovos de chocolate, para as crianças; e um belo feriado para os pagãos e ateus. Contudo, apesar dos pesares, é importante entender que a festa simbolizada pelo gentil coelhinho tem origens que vão além das que se deseja enxergar e as tradições atuais deturpam a História e corroem nossa capacidade reflexiva.

A páscoa judaica, ou Pessach (passagem), celebra a fuga dos hebreus da escravidão no Egito, no ano aproximado de 1280 a.C., quando da passagem de um anjo enviado por Deus para cumprir a décima praga imposta ao povo egípcio: a morte desde os primogênitos dos animais até os primogênitos da casa do Faraó. No Cristianismo, por sua vez, a Páscoa representa a libertação de todos os que estavam separados de Deus pelo pecado, restaurados pela morte e ressurreição de Cristo.

Os demais símbolos e costumes não são citados na Bíblia e fazem alusão a antigos rituais pagãos. A primavera, lebres e ovos pintados com runas eram os símbolos da fertilidade e renovação associados à deusa nórdica Gefjun cujas sacerdotisas eram ditas capazes de prever o futuro, observando as entranhas de uma lebre sacrificada. Seus cultos pagãos foram absorvidos e misturados pelas comemorações judaico-cristãs, dando início à Páscoa comemorada na maior parte do mundo contemporâneo.

Lógico que a versão “coelhinho da páscoa, que trazes pra mim?” é comercialmente mais interessante do que “Lebre de Eostre, o que suas entranhas trazem de sorte para mim?”, que é a versão original desta rima.

De qualquer forma, a Páscoa é, sem dúvida, mais uma oportunidade para renovarmos nossas energias, reafirmarmos nossas crenças, aproveitando nossa capacidade reflexiva, porque, apesar de termos aprendido a pesquisar e instruir-nos por nós mesmos, preferimos acreditar nas falácias de “autoridades” que, em sua maioria, chegaram aonde chegaram pela astúcia – que nada tem a ver com sabedoria.

Desejo a todos uma Feliz Páscoa à base de muito chocolate e reflexão.

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