
Por: Paulo Ricardo Zargolin
O Brasil, terra de contradições e disfarces, ainda tropeça na liberdade que começou a conquistar há pouco mais de três décadas. Em tempos de educação libertadora, como defendida por Paulo Freire, e de produções artísticas que ousaram desafiar o conservadorismo da transição pós-ditadura, a censura à abertura original de Tieta é um retrato triste do retrocesso. Mais do que o corpo nu artisticamente exposto, o que incomoda é a mensagem que ele carrega: a denúncia de uma sociedade que, mesmo em pleno século XXI, persiste em esconder suas próprias hipocrisias sob o véu da moralidade seletiva.
As produções midiáticas dos anos 90 não subestimavam o espectador. Pelo contrário, instigavam-no a olhar para além das aparências, a enxergar a crítica oculta nos enredos. Em Tieta, a nudez feminina não é vulgaridade; é símbolo, é força, é libertação. A pergunta que nos resta é: a quem ela fere? Ao Estatuto da Criança e do Adolescente? Aos conservadores? Ou a uma sociedade que, com o passar dos anos, continua sem coragem de se olhar no espelho e enfrentar suas sombras?
Nas redes sociais, entretanto, reina o caos. Enquanto a televisão tenta esconder a nudez como se dela dependesse a moralidade dos jovens, o acesso irrestrito ao conteúdo realmente degradante – violento, sexualizado e perverso – circula livremente em aplicativos como Telegram e WhatsApp. Não há arte nem poesia nesse subterrâneo. Não há botão vermelho capaz de conter uma infância que vaga desprotegida por esses corredores digitais. O que se reprime em um espaço, multiplica-se em outro, sem filtro ou reflexão.
Os versos embalados por Caetano Veloso são, talvez, a síntese mais precisa do que vivemos: Toda a noite é a mesma noite, a vida é tão estreita, nada de novo ao luar. Nada muda porque insistimos em olhar para as formas e não para os sentidos. A sociedade, ainda presa à estreiteza de seu moralismo, insiste em saber “com quem você se deita”, mas nada faz para abrir caminhos ao progresso. Futebol e carnaval – e hoje, as redes sociais – disfarçam uma realidade imutável, uma dor que se repete como um ciclo vicioso. Entre a escuridão do passado e as sombras do presente, seguimos marcados pela superficialidade.
Paulo Freire nos ensinou que a educação libertadora é crítica e transformadora. Mais do que proibir, precisamos educar. Reprimir a arte, censurar uma nudez com fins estéticos, não protege ninguém. Pelo contrário, embrutece. Substitui o diálogo pela interdição e a reflexão pela alienação. Se Tieta escandaliza ainda hoje, não é por sua nudez, mas pela coragem de dizer o que muitos preferem calar: o problema não está no corpo exposto, mas no espírito que se recusa a se libertar.
A abertura de Tieta não é uma afronta. É um convite. A nos despirmos das hipocrisias, a enxergarmos o que realmente importa, a rompermos com uma moralidade de aparências que, ao fim, só perpetua o vazio.

