Por: Paulo Ricardo Zargolin
Entre as décadas, há um fio invisível que conecta as angústias do fracasso escolar, descritas por Manuel Viegas Abreu em 1983, às inquietações de Danielle Fabiana Cucolo Nagliate em 2023. Este fio entrelaça as dinâmicas da motivação, as práticas pedagógicas e a constante necessidade de repensar o papel da escola na vida de jovens que, cada vez mais, se encontram em um abismo de expectativas entre o que a sociedade promete e o que a realidade entrega. Ao longo desse caminho, surge o termo “flop”, uma gíria contemporânea que, embora nascida no palco das redes sociais, reflete o mesmo peso do insucesso escolar de outrora, só que revestido com a superficialidade das métricas digitais.
Do insucesso escolar ao “flop” nas redes
O estudo de Abreu (1983) enfatizou o fracasso escolar como um problema relacional, uma teia de interações entre aluno, professor e família. Seu trabalho alertava para a necessidade de integração e acolhimento, um chamado que ressoa, ainda hoje, nas análises de Nagliate (2023), que destacam a importância da motivação intrínseca e do vínculo entre professor e aluno. Contudo, na era digital, onde as redes sociais ditam narrativas de sucesso instantâneo, o insucesso escolar ganhou novas dimensões: o jovem “flopa” não apenas ao falhar em provas, mas também ao não alcançar curtidas suficientes ou ao não “viralizar”. A sala de aula deixou de ser o único palco; agora, há uma audiência global, e o julgamento social é imediato.
Nagliate observa que as universidades enfrentam altas taxas de evasão, com jovens desmotivados, pressionados por expectativas acadêmicas e sociais. É um cenário que dialoga com a afirmação de que, em muitos casos, o insucesso é percebido como um fracasso individual, como sugerem Silva e colegas no artigo “Renomeando o fracasso escolar”. No entanto, é urgente renomear o “flop” como um sintoma da desconexão entre o que a educação oferece e o que os jovens buscam.
A escola como antídoto ao “flop”
Enquanto a sociedade projeta a imagem de que é possível alcançar riqueza e sucesso sem o peso dos estudos – como influenciadores digitais que se tornam milionários em plataformas de vídeo curto –, a escola permanece um espaço de resistência. É nela que a criança aprende a lidar com o tempo, o esforço e os fracassos necessários para a construção do conhecimento. Paradoxalmente, este mesmo espaço tem falhado em se reinventar, em transformar a prática pedagógica para dialogar com as narrativas externas.
Os dados trazidos por Nagliate sobre a prevalência de depressão e ansiedade entre universitários refletem o que a escola muitas vezes ignora: não basta ensinar conteúdos, é necessário acolher o indivíduo. Ainda assim, como educadores, enfrentamos um dilema quase insolúvel. As teorias evoluem – de Maslow a Ryan e Deci –, mas a prática tropeça nas mesmas pedras: falta de infraestrutura, políticas públicas insuficientes e uma cultura que insiste em medir o valor do jovem por seus números, seja no boletim, seja no engajamento online.
Entre o insucesso e o sucesso superficial
A ascensão do discurso de que “a escola não é necessária para o sucesso” encontra eco no crescente número de jovens que abandonam o ensino para buscar carreiras “promissoras” na internet. Contudo, o brilho do “sucesso digital” esconde uma verdade inquietante: a maioria não triunfa. Para cada influenciador que “viraliza”, milhares “flopam”. Mas o que a escola pode aprender com isso? Talvez o apelo esteja na possibilidade de ensinar os jovens a construir narrativas consistentes, a lidar com a frustração e a reconhecer que o aprendizado, mesmo em seus momentos de fracasso, é uma jornada que transcende métricas superficiais.
A sociedade precisa urgentemente ressignificar o que é sucesso. Nas palavras de Abreu, o desenvolvimento interpessoal é tão ou mais valioso que o desempenho acadêmico. E aqui está a ponte entre o ontem e o hoje: reconhecer que as ferramentas teóricas estão à disposição, mas é na prática, no chão da sala de aula e nas interações humanas, que podemos reverter o “flop” do sistema educacional.
Um convite à reflexão
Se a escola quiser evitar seu próprio “flop”, precisa se reconectar com os jovens, escutando suas vozes e integrando suas narrativas à construção do conhecimento. O desafio não é simples, mas como educadores, não podemos nos dar ao luxo de desistir. Que a escola seja o espaço onde o “flop” deixa de ser um fim e se torna o início de um novo capítulo, um lugar onde o fracasso não define, mas impulsiona. Afinal, na trama da educação, cada fio tensionado pode tecer não apenas resistência, mas também renovação.
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P.S.:
“Flopar” é uma gíria popular na internet, originada do termo inglês flop, que significa “fracasso” ou “fiasco”. Na prática, “flopar” é usado para descrever algo que não teve o sucesso esperado, seja um projeto, uma postagem em redes sociais, um evento ou qualquer situação em que as expectativas foram frustradas.
Exemplos de uso:
Redes sociais: “Postei aquela foto incrível, mas flopou porque quase ninguém curtiu.”
Eventos: “O show flopou, quase ninguém apareceu.”
Projetos: “Eles lançaram um filme com grande orçamento, mas flopou nas bilheterias.”Contexto:
Na internet, especialmente no Twitter, Instagram e TikTok, a palavra é frequentemente usada de maneira descontraída e até humorística para lidar com situações de baixa interação ou visibilidade.

