Perguntar é preciso ou deveria ser?

Por: Paulo Ricardo Zargolin

“Você estava na fase dos porquês e parecia que não ia ter fim”, disse tia Celina, com a ternura de quem reencontra, no rosto de um homem, o eco persistente do menino que lhe invadia os silêncios. O cenário era um velório — cerimônia dramática em que a vida e a morte ensaiam, lado a lado, uma dança social de despedida.

Fazia anos que eu não via tantos rostos conhecidos. Esses encontros, envoltos em flores artificiais e café ralo, são paradoxais: revelam, na mesma cena, o que foi perdido e o que ainda não ousamos reaver.

Sorri com os olhos, mas por dentro o menino respondia: “Não deixei essa fase para trás.” Só troquei o tom, a ousadia das palavras, a ingenuidade do espanto por uma desconfiança paciente — dessas que aprenderam a conviver com o absurdo.

Naquela sala tomada por murmúrios e suspiros ensaiados, algumas perguntas se impuseram: Por que transformamos a morte em coreografia? Por que somos treinados a lamentar em volume alto, mas a rir apenas em sussurros, escondidos entre abraços constrangidos?

Observei olhares graves. Alguns realmente choravam. Outros — mais discretos — se permitiam um riso cúmplice ao tropeçar numa lembrança cômica. Ali compreendi o ambiente como um teatro onde o público se disfarça de personagem e o roteiro muda sem aviso.

Desde criança, convivo com a dúvida como quem compartilha o teto com um animal selvagem. Quando pequeno, perguntava por quê antes mesmo de entender o que era o quê. Não para provocar — mas porque existir doía em forma de curiosidade. O mundo me oferecia peças soltas, e eu tentava, com minha voz aguda, montar um sentido provisório.

O tempo passou, mas não houve cura. Hoje, questiono com palavras mais densas, com pausas medidas. Contudo, o espanto continua vivo — agora vestido de silêncio entre vírgulas. Por que velamos corpos e deixamos as verdades apodrecerem dentro de nós?

A maioria parece ter vencido a infância — junto dela, a urgência de questionar. Eu não. Sigo desconfiando da superfície. Recuso-me a habitar explicações rápidas. A dúvida me veste melhor que qualquer certeza.

A interrogação, afinal, é uma ferida que se recusa a fechar só porque o mundo tem pressa. É a língua que sangra quando mordemos o medo de parecer inconvenientes. É o fogo que queima onde a ignorância se deita para dormir em paz. Duvidar, hoje, beira o crime: — inquieta, desestrutura, desestabiliza. Mas continuo. Lanço perguntas mesmo sabendo que há sementes que só germinam no desconforto.

Tia Celina talvez não soubesse, mas, ao me dizer aquilo, devolveu-me ao princípio. Como quem, sem querer, me lembrasse que esse impulso nunca foi fase — foi essência. Um vício antigo, desses que não se apagam com o tempo nem com a ausência.

Agora, deixo escapar um “por quê?” ao vento, sem destino certo. Ninguém responderá. E ainda bem. Algumas perguntas não existem para serem respondidas — existem para manter o mundo acordado.

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