A normalização das algemas sentimentais que permeiam a cultura romântica
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Havia um quarto que se queria universo. E um amor que, de tão inteiro, dispensava estrada, horizonte ou saída de emergência. A canção sussurrava aquilo que os contos de fadas sempre disfarçaram com véus cor-de-rosa: o desejo de possuir o outro até a última gota de sede.
Nas novelas dos últimos trinta anos — pensemos em Chocolate com Pimenta (2003), de Walcyr Carrasco, entre tantas outras do mesmo viés — quantas vezes não vimos o amor travestido de guloseima? Era doçura que grudava na boca, mas também uma trama de ciúmes, encontros e desencontros, onde a felicidade só parecia real quando o outro estava ali, jurando, repetindo, garantindo. Como se a vida inteira se sustentasse em mais uma colher de chocolate quente, servido com promessas de eternidade.
As princesas da Disney também beberam desse cálice: bastava o beijo, o castelo, a melodia final. E ali ficavam, presos na moldura do “felizes para sempre”, como quem tranca o coração num relicário dourado. Que diferença há entre um beijo encantado e um quarto que vira universo? Ambos pedem exclusividade. Ambos, em seu fundo secreto, sufocam com delicadeza.
Mas o curioso é que aceitamos esse sufoco. Não o vemos como cárcere, mas como jardim murado, onde as flores só florescem porque ninguém ousa pisar nelas. Chamamos isso de romance. Chamamos isso de final feliz.
E talvez seja mesmo. Porque, no fundo, gostamos dessa possessividade leve, dessa prisão com janelas abertas, dessa certeza de que alguém nos quer quase com dor, mas cantando com suavidade. Gostamos de acreditar que amar é também prender — e que a prisão, quando perfumada de afeto, pode ser confundida com paraíso, para lembrar Camões, “Amar é estar preso por vontade”.
Mas os novos tempos exigem novas algemas: mais tênues, mais conscientes, menos adornadas de veneno. Que o amor aprenda a extrair os perfumes sem os riscos da toxicidade. Que possamos desejar com ardor, mas amar com criticidade. Pois só assim, talvez, os contos de fadas deixem de ser grades douradas e se tornem, enfim, caminhos verdadeiros para dois (ou mais, por que não?) que caminham lado a lado — livres, ainda que encantados.

