Reflorestar mentes: uma escuta necessária em tempos de esgotamento

Por: Paulo Ricardo Zargolin

No dia 19 de abril, entre datas que carregam memória, disputa e profundidade, talvez caiba um gesto menos ruidoso e mais essencial: parar para escutar.

Escutar de verdade.

Não como quem consome mais um conteúdo, mas como quem reconhece que há algo adoecido no nosso tempo que não se resolve com pressa, desempenho ou frases prontas.

Há um cansaço que já ultrapassou a rotina.

Há um desgaste que não é apenas individual.

Há subjetividades inteiras tentando sobreviver em solo exausto.

É nesse ponto que a conversa incorporada nesta publicação se torna especialmente necessária.

A mente não é máquina

Durante muito tempo, insistiu-se em tratar a mente como uma engrenagem: algo que precisa render, responder, reagir, manter-se funcional apesar de tudo.

Mas a mente não é máquina.

Ela se parece muito mais com um território.

Há nela áreas férteis e regiões devastadas. Há zonas de silêncio, erosões antigas, marcas de incêndios que ninguém viu começar. Há lugares onde já não cresce quase nada — e, ainda assim, permanece a possibilidade de cultivo.

A imagem do reflorestamento, proposta na live, é poderosa justamente por isso: ela desloca o cuidado do campo da correção para o campo da reconstrução.

Nem toda mente precisa de reparo imediato.

Algumas precisam de tempo, solo, vínculo e recomeço.

Assista à conversa

O que essa conversa devolve ao debate

A fala de Luana Guarani recusa simplificações. E esse é um de seus maiores méritos.

Não há ali promessa de cura instantânea.

Não há pedagogia de autoajuda.

Não há a transformação apressada da dor em discurso domesticado.

O que se encontra é outra coisa: uma reapresentação do cuidado em sua densidade humana, social e simbólica.

A conversa nos obriga a lembrar do que tantas vezes se tenta apagar: sofrimento psíquico não nasce isolado do mundo. Ele também se relaciona com exclusão, violência, desenraizamento, precariedade, silenciamento e perda de pertencimento.

Por isso, falar em saúde mental sem falar em comunidade, escuta, cultura e condições de existência é tratar apenas a superfície do problema.

Reflorestar não é restaurar o passado

Existe uma fantasia recorrente de que cuidar de si seria voltar a ser quem se era antes da dor.

Mas a imagem da floresta ensina outra coisa.

Uma floresta devastada não retorna ao que foi de maneira intacta. Ela se recompõe de outro modo. Cresce em novas camadas. Carrega vestígios. Reorganiza a vida sem negar as marcas do que aconteceu.

Com a mente, talvez não seja muito diferente.

Reflorestar não é apagar o incêndio.

É decidir que a devastação não terá a última palavra.

A força simbólica do dia 19 de abril

Publicar esta escuta em 19 de abril não deve ser apenas uma escolha de agenda. Pode ser também uma escolha de sentido.

É uma oportunidade de lembrar que território não é apenas geografia. É também memória, identidade, linguagem, vínculo e modo de existir no mundo.

Talvez uma das maiores violências do nosso tempo seja exigir equilíbrio psíquico de pessoas submetidas, continuamente, a formas diversas de desenraizamento.

Reflorestar mentes, nesse contexto, não é um gesto ornamental. É uma forma de resistência.

Para permanecer depois da leitura

Talvez a frase mais honesta a guardar, depois desta conversa, seja esta:

Há dores que não pedem solução rápida. Pedem solo.

E solo não se improvisa.

Solo se prepara.

Solo se protege.

Solo se partilha.

Algumas reconstruções começam assim: não com respostas definitivas, mas com a recusa de continuar tratando a devastação como normal.

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