Magenta! apresenta: #OJogo
Capítulo 4
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Entre mensagens impossíveis, portas trancadas e uma caixa que parece escolher seus jogadores, Paulinho percebe que o sonho ainda não acabou.
Paulinho não chegou à sala imediatamente.
O corredor parecia maior.
Não mais comprido — maior.
Havia uma diferença.
O tipo de diferença que não aparece nas medidas, mas no tempo que o corpo leva para atravessar um lugar conhecido. A parede continuava à esquerda. Os quadros continuavam no mesmo ponto. O tapete estreito ainda estava ali, ligeiramente torto, como sempre ficava depois que alguém passava apressado.
Mas Paulinho não passava.
Ele avançava.
E cada passo parecia precisar de autorização.
Da sala, a voz da avó veio outra vez:
— Paulinho, seu amigo chegou.
Não havia impaciência.
Não havia surpresa.
Não havia sequer aquela curiosidade comum de adulto quando uma visita aparece cedo demais, sem aviso suficiente, com cara de quem não deveria estar ali.
Era uma frase pronta.
Uma frase correta.
Uma frase que cabia bem demais no acontecimento.
Paulinho parou no meio do corredor.
A mão apertava o celular.
Na tela, a última mensagem de Caio continuava acesa.
Tô na esquina.
A campainha tocou de novo.
Desta vez, só uma vez.
Mas Paulinho ainda sentia o segundo toque anterior dentro do ouvido, como se o som tivesse deixado uma cópia pendurada no ar.
Ele chegou à sala.
A avó estava de costas, perto da mesa, arrumando xícaras.
Ou fingindo arrumar.
O café já estava servido.
Pão cortado.
Manteiga aberta.
Uma faca limpa demais.
Tudo composto com aquela exatidão doméstica que, em outro dia, pareceria carinho.
Naquele instante, parecia cenário.
Paulinho olhou para a porta.
Caio estava do outro lado.
Ele sabia antes de abrir.
Não por ouvir.
Não por ver.
Por resposta.
Girou a chave.
A porta se abriu.
Caio estava ali.
Sem mochila.
Sem bicicleta.
Sem o fôlego alterado de quem veio correndo.
A camiseta estava levemente amassada, como se ele tivesse acabado de levantar. O cabelo, desarrumado. Os olhos, porém, não tinham sono.
Tinham susto.
Os dois ficaram se olhando.
Nenhum disse nada.
Por alguns segundos, a amizade inteira entre eles pareceu insuficiente. Havia intimidade para piadas, segredos bobos, conversas interrompidas por risadas. Mas não havia repertório para aquilo.
Caio foi o primeiro a falar.
— Eu não vim.
Paulinho sentiu a frase entrar nele antes de compreender.
— Como assim?
Caio olhou para trás.
A rua estava normal demais.
Uma manhã comum, casas comuns, luz comum, um cachorro latindo em algum lugar. Mas ele olhava para tudo aquilo como se cada coisa tivesse acabado de ser colocada ali para convencê-lo.
— Eu não vim — repetiu. — Eu estava no meu quarto.
Paulinho não se mexeu.
— Você mandou que estava na esquina.
Caio franziu a testa.
— Eu não mandei isso.
Paulinho ergueu o celular.
A mensagem estava lá.
Tô na esquina.
Caio olhou.
A expressão dele não mudou para negação.
Mudou para reconhecimento.
Não da mensagem.
Do medo.
— Eu respondi “sim” — disse Caio, devagar. — Depois respondi “não”. Aí eu levantei porque achei estranho você perguntar aquilo. Só que…
Ele parou.
Paulinho esperou.
Caio engoliu seco.
— Só que eu abri a porta do meu quarto e estava aqui.
A sala pareceu diminuir.
Ou talvez Paulinho tenha percebido, pela primeira vez, que ela não tinha profundidade suficiente para tudo o que estava acontecendo.
Atrás dele, a avó perguntou:
— Seu amigo vai tomar café?
A frase não tinha nada de estranho.
Por isso era horrível.
Caio olhou para ela.
Depois para Paulinho.
— Sua avó sabe que eu estou aqui?
Paulinho respondeu baixo:
— Ela anunciou você antes de eu abrir.
Caio tentou rir.
Não conseguiu.
O riso ficou preso em algum lugar entre o deboche e o pânico.
— Tá. Então a gente vai fingir que isso é normal?
Paulinho fechou a porta.
O clique da fechadura pareceu definitivo demais.
— Não.
A palavra saiu firme.
E, ao sair, alguma coisa na sala pareceu escutar.
Não a avó.
Não Caio.
A casa.
Paulinho sentiu.
Era absurdo, mas era nítido.
O mundo aceitava algumas frases com mais facilidade do que outras.
Caio deu um passo para dentro.
No instante em que cruzou a soleira, o celular de Paulinho vibrou.
Ele olhou.
A conversa tinha mudado.
A mensagem “Tô na esquina” ainda estava lá, mas agora havia outra logo abaixo.
Jogador confirmado.
Paulinho sentiu o ar sair do corpo.
Caio viu a tela.
— Que brincadeira é essa?
— Não é brincadeira.
— Então é o quê?
Paulinho olhou para o corredor.
Para o quarto.
Para o lugar onde a caixa estava aberta sobre a cama, tranquila demais, como se não precisasse se defender de nenhuma acusação.
— É o jogo.
Caio estreitou os olhos.
— Que jogo?
A avó colocou uma xícara sobre a mesa.
O som da louça tocando a madeira atravessou a sala.
Depois tocou de novo.
Caio virou rápido.
— Você ouviu isso?
Paulinho assentiu.
— Vem.
Ele puxou Caio pelo braço antes que a avó perguntasse mais alguma coisa.
Os dois atravessaram o corredor.
Desta vez, o caminho foi curto.
Curto demais.
Paulinho percebeu a diferença, mas não comentou.
Quando entraram no quarto, a caixa continuava aberta sobre a cama.
Mas não estava igual.
Havia outro compartimento.
Paulinho parou.
Caio quase bateu nele.
— O que foi?
Paulinho apontou.
— Isso não estava aí.
Caio olhou para a cama.
A caixa pequena parecia incapaz de conter tanto. Ainda assim, agora havia dois suportes rígidos lado a lado, duas cartas CMYK posicionadas com precisão, duas folhas de dedução, dois lápis.
Nada sobrando.
Nada improvisado.
Nada colocado às pressas.
Como se Caio sempre tivesse sido esperado.
Caio se aproximou devagar.
— Você comprou isso?
Paulinho soltou uma risada curta, sem humor.
— Eu trouxe de um sonho.
Caio virou o rosto para ele.
— Você ouviu o que acabou de falar?
— Ouvi.
— E achou uma boa frase?
— Não.
Paulinho se sentou na beirada da cama.
O corpo parecia cansado de sustentar a própria lógica.
— Mas é a única que ainda funciona.
Caio ficou em pé diante da caixa.
A luz da manhã entrava pela cortina e tocava as cores das cartas. Magenta, ciano, amarelo e preto. Não brilhavam. Não piscavam. Não faziam nada que objetos mágicos costumam fazer nas histórias.
Era pior.
Permaneciam.
Com uma seriedade ofensiva.
Caio pegou uma das folhas.
Vazios.
Quadrantes.
Linhas discretas.
— Isso é tipo detetive?
— Não sei.
— Você não sabe jogar?
Paulinho olhou para a lateral da caixa.
A frase estava lá.
Nem toda resposta revela.
— Sei um pouco.
— Como?
Paulinho não respondeu imediatamente.
Porque, naquele instante, uma lembrança começou a voltar.
Não uma lembrança do quarto.
Não da manhã.
Da outra mesa.
A mesa do sonho.
Os amigos.
As risadas.
As cartas presas nos suportes.
Alguém dizendo “não gira”.
Alguém acusando cedo demais.
Alguém rindo porque achou que blefar era fazer cara de mentiroso.
E alguém corrigindo:
Não. Aqui o blefe não é atuação. É natureza.
Paulinho levou a mão à testa.
Caio percebeu.
— Ei. Você tá bem?
Paulinho não sabia.
A memória vinha em pedaços, mas os pedaços não pareciam inventados. Tinham peso. Tinham sequência. Tinham aquele tipo de detalhe inútil que sonho comum não costuma guardar.
Uma unha batendo no lápis.
Uma carta sendo encaixada.
Uma voz dizendo:
Se você responde sempre o contrário, você não está mentindo. Está obedecendo.
Paulinho ergueu os olhos.
— Cada jogador tem uma natureza.
Caio franziu a testa.
— Natureza?
— Honesto ou blefador.
Caio ficou em silêncio.
Paulinho continuou, como se repetisse algo aprendido em outro lugar.
— O honesto responde conforme a realidade da carta. O blefador responde sempre o contrário. Mas não muda. Nunca muda. Não é escolher mentir quando convém. É ser assim durante a partida inteira.
Caio olhou para a caixa.
— E a carta?
— Tem quatro quadrantes. Quatro cores. A pergunta tem que ser fechada. Sim ou não. Sobre uma posição.
— E ganha como?
A pergunta atravessou Paulinho com violência.
Porque a resposta veio pronta.
— Eliminando.
Caio recuou meio passo.
— Eliminando como?
Paulinho abriu a boca.
Não queria saber.
Mas sabia.
— Acusando.
A palavra ficou entre eles.
A manhã, do lado de fora, continuou manhã.
O quarto, porém, já não era quarto o bastante.
Caio largou a folha sobre a cama.
— Tá. Isso passou de estranho pra idiota. Eu não vou jogar nada.
No mesmo instante, a porta do quarto bateu.
Não com força.
Com decisão.
Os dois viraram.
A porta, que estava aberta, agora estava fechada.
Caio foi até ela e tentou o trinco.
Não abriu.
Tentou de novo.
— Paulinho.
Paulinho se levantou.
— Calma.
— Não fala calma.
Caio girou o trinco com mais força.
A maçaneta se mexia.
A porta não.
— Sua avó trancou?
Paulinho não respondeu.
Da cozinha, a voz veio abafada, mas perfeitamente audível:
— O café esfria.
Caio soltou a maçaneta.
— Isso não é sua avó.
Paulinho olhou para ele.
A frase, dita por Caio, parecia liberar alguma coisa que Paulinho ainda não tinha coragem de formular.
Ele caminhou até a porta.
— Vó?
Silêncio.
— Que dia é hoje?
A resposta veio sem intervalo:
— O café esfria.
Caio empalideceu.
Paulinho sentiu uma calma terrível tomando conta dele.
Não era coragem.
Era encaixe.
Ele voltou os olhos para a caixa.
— A casa não sabe responder o que não faz parte.
Caio balançou a cabeça.
— Parte do quê?
Paulinho não respondeu.
Pegou a folha de dedução.
O lápis estava no mesmo lugar de antes.
Escreveu:
Caio apareceu sem vir.
Depois parou.
A frase parecia errada.
Riscou.
Escreveu outra:
Caio — transportado após responder.
A ponta do lápis quebrou.
Não com força.
Como se recusasse a palavra.
Transportado.
Paulinho olhou para o grafite partido.
Caio se aproximou.
— Você acha que eu vim por causa da resposta?
— Acho que você entrou quando respondeu.
— Entrei onde?
Paulinho ergueu os olhos.
Era essa a pergunta.
A pergunta inteira.
O quarto pareceu esperar por ela.
Ele olhou para a cortina.
Para o ventilador.
Para a cadeira gamer.
Para a mochila.
Tudo ainda era reconhecível.
Mas agora ele via as bordas.
Não bordas físicas.
Bordas de composição.
A cortina filtrava uma luz que não mudava.
O ventilador girava sem decidir se fazia som.
A cadeira estava na posição perfeita para sustentar a mochila.
A avó repetia funções.
O café existia como cenário de normalidade.
Caio existia como resposta.
E ele…
Ele existia como quem ainda acreditava ter acordado.
Paulinho sentiu o estômago afundar.
— Eu não acordei.
Caio ficou imóvel.
— O quê?
— Eu achei que tinha acordado do sonho.
A voz de Paulinho saiu baixa, quase limpa demais.
— Mas acordei dentro dele.
Caio olhou ao redor, rápido, como se as paredes pudessem confirmar ou negar.
— Isso é sonho?
Paulinho fechou os olhos por um segundo.
No escuro, viu a mesa outra vez.
Não a cama.
Não a casa.
A mesa.
Viu amigos ao redor.
Não todos nítidos.
Mas Caio estava lá.
Caio ria.
Depois parava.
Depois alguém dizia MAGENTA! com uma seriedade ridícula.
Depois uma carta era revelada.
Depois o círculo magenta da caixa se abria como uma boca sem dentes.
Depois alguém dizia:
Não pergunta se é sonho.
Pergunta quem trouxe vocês.
Paulinho abriu os olhos.
O quarto já não parecia igual.
As linhas pontilhadas da caixa estavam mais visíveis. Não apenas na tampa. No ar.
Sutis.
Quase impossíveis.
Um traço magenta saía da caixa e tocava a sombra de Paulinho.
Um traço ciano ia até Caio.
O amarelo se perdia na porta.
O preto subia pelo canto da parede e desaparecia no teto.
Caio também viu.
Porque parou de respirar.
— Paulinho…
— Não fomos nós que achamos o jogo.
A frase veio inteira.
Horrível.
Perfeita.
— O jogo achou a gente.
A caixa fez um som.
Não um estalo.
Não uma abertura.
Um ajuste.
Como se uma peça interna tivesse se movido para confirmar que a dedução era aceitável.
A tampa, que estava apoiada para trás, inclinou-se sozinha alguns centímetros.
Dentro dela, onde antes não havia nada, surgiu uma inscrição.
Não escrita com tinta.
Não gravada.
Formada por ausência.
Como se as palavras tivessem sido retiradas da matéria.
Primeira parte: reconhecimento.
Caio leu.
— Primeira parte?
Paulinho não respondeu.
Abaixo, outra frase apareceu.
Dois jogadores não iniciam o jogo. Apenas confirmam a entrada.
Caio se afastou da cama.
— Não.
A palavra saiu dele como recusa comum.
Mas o quarto não aceitou.
A luz falhou.
Não apagou.
Falhou.
Por uma fração de segundo, tudo ficou sem textura.
A cama virou volume.
A porta virou plano.
Caio virou contorno.
Paulinho sentiu, com terror absoluto, que a realidade não era sólida. Era sustentada.
E talvez pudesse ser suspensa.
Quando a luz voltou, havia outra mensagem no celular.
Não veio de Caio.
Não tinha remetente.
Vocês foram chamados antes da primeira pergunta.
Paulinho segurou o aparelho com as duas mãos.
As letras pareciam comuns demais para o que diziam.
Caio leu por cima do ombro dele.
— Chamados por quem?
A caixa não respondeu.
Mas a carta de Paulinho deslizou sozinha para dentro de um dos compartimentos.
A de Caio, para o outro.
Os suportes fecharam.
As cartas ficaram fixas.
Sem possibilidade de rotação.
Paulinho ouviu a frase dentro da memória:
Uma vez escolhido o lugar, o lugar não deve mais ceder.
Caio avançou para retirar a própria carta.
— Não encosta.
— Eu vou tirar essa porcaria daqui.
— Caio, não encosta.
Ele encostou.
A reação não foi explosiva.
Foi pior.
O quarto inteiro recuou.
Por um instante, Paulinho viu outra coisa no lugar da cama: uma mesa grande, escura, cercada por cadeiras. Viu mãos de pessoas que ainda não estavam ali. Viu uma parede sem porta. Viu um círculo magenta no centro, não pintado, mas aberto.
Caio também viu.
A mão dele parou no ar.
Quando o quarto voltou, ele estava chorando.
Sem perceber.
— Eu vi.
Paulinho assentiu.
— Eu também.
Caio tirou a mão devagar.
— Aquilo era onde?
Paulinho olhou para a caixa.
— A partida.
A palavra fez sentido demais.
E, por isso, doeu.
Da cozinha, a voz da avó veio uma última vez:
— Paulinho, o café.
Mas agora havia algo errado nela.
Não no tom.
Na distância.
A voz parecia vir de dentro da caixa.
Caio deu um passo para perto de Paulinho.
A amizade, naquele momento, deixou de ser uma memória confortável e virou necessidade física. Havia alguma coisa infantil e trágica em ficarem lado a lado diante de um objeto que não tinha pressa.
— Como sai? — Caio perguntou.
Paulinho olhou para a folha.
Olhou para a carta presa.
Olhou para a porta trancada.
Olhou para o celular.
Não havia manual.
Não havia explicação.
Mas havia regra.
Sempre havia regra.
— Jogando.
Caio fechou os olhos.
— Não.
Desta vez, o quarto aceitou.
Porque não era recusa ao jogo.
Era resposta ao medo.
Paulinho percebeu a diferença.
E, de repente, compreendeu algo mais terrível do que estar preso.
O jogo não precisava obrigar o corpo.
Bastava organizar as perguntas.
Caio abriu os olhos.
— Você sabe quem é honesto e quem é blefador?
Paulinho sentiu o sangue gelar.
A pergunta não deveria ter sido feita assim.
Ampla demais.
Perigosa demais.
O ar ficou pesado.
A caixa permaneceu imóvel.
Paulinho respondeu com cuidado:
— Não.
Caio esperou.
— E você sabe o que você é?
Paulinho olhou para ele.
Essa era pior.
Porque não perguntava sobre a carta.
Perguntava sobre a natureza.
E o jogo, desde o começo, parecia menos interessado nas cores do que nas pessoas.
Paulinho tentou responder.
Não conseguiu.
Caio percebeu.
— Você não sabe.
Paulinho balançou a cabeça.
— Ainda não.
O celular vibrou outra vez.
Na tela, uma pergunta apareceu, sozinha, no campo de digitação.
Não enviada.
Apenas aguardando.
Seu quadrante superior esquerdo é magenta?
Paulinho olhou para Caio.
Caio olhou para Paulinho.
A primeira pergunta verdadeira estava pronta.
Não escrita por eles.
Mas exigindo que alguém a fizesse.
A folha de dedução de Paulinho se moveu levemente, empurrada por um vento que não existia.
O lápis rolou até sua mão.
Caio sussurrou:
— Não faz isso.
Paulinho queria obedecer.
Queria fechar a caixa.
Queria abrir a porta.
Queria que a avó fosse avó, que o café fosse café, que a manhã fosse manhã, que Caio tivesse vindo de bicicleta, rindo de alguma besteira, chamando tudo aquilo de viagem.
Mas a porta estava fechada.
A casa não sabia que dia era.
Caio não tinha vindo.
E Paulinho não tinha acordado.
Ele pegou o lápis.
Não para escrever.
Para se lembrar de que ainda havia mão.
Ainda havia gesto.
Ainda havia escolha, mesmo que pequena.
Olhou para Caio.
— Se eu perguntar, você responde conforme o que você é.
Caio respirou com dificuldade.
— E se eu não souber o que eu sou?
Paulinho olhou para a caixa.
As quatro cores pareciam aguardar.
Magenta.
Ciano.
Amarelo.
Preto.
Nenhuma era boa.
Nenhuma era má.
Todas eram posição.
— Acho que o jogo sabe.
A luz do quarto se inclinou.
Não mudou.
Inclinou.
Como se a realidade tivesse aproximado o ouvido.
Paulinho leu a pergunta na tela.
Depois levantou os olhos para Caio.
A voz dele saiu quase sem som:
— Seu quadrante superior esquerdo é magenta?
Caio abriu a boca.
Por um instante, não havia amigo.
Não havia quarto.
Não havia manhã.
Havia apenas uma pergunta fechada e um mundo inteiro esperando que uma resposta escolhesse o próximo chão.
Caio respondeu:
— Sim.
A palavra caiu.
E tudo apagou.
Não como sono.
Como página virada.
Quando Paulinho abriu os olhos, já não estava no quarto da avó.
Estava sentado à mesa.
A mesa do sonho.
Diante dele, a carta presa no Compartimento MAGENTA!.
À sua esquerda, Caio tremia em silêncio.
À sua direita, uma cadeira vazia esperava alguém que ainda não tinha respondido.
No centro da mesa, a caixa permanecia aberta.
E, sobre a tampa, uma nova frase se formava lentamente:
Nem todo sonho termina quando alguém acorda.
Paulinho tentou se levantar.
Não conseguiu.
Não porque estivesse preso.
Porque a partida havia começado.
E agora havia lugares demais reservados.
(fim da primeira parte)




