Por: Paulo Ricardo Zargolin
Quando a academia transforma autores em santos e teorias em catecismo, o pensamento perde oxigênio: a educação precisa menos de devotos de altar e mais de leitores inquietos diante da realidade.
Há um momento estranho na formação intelectual de muita gente: aquele em que a pessoa deixa de estudar autores e passa a venerá-los.
No começo, tudo parece pesquisa. Há livros, artigos, seminários, bancas, linhas teóricas, grupos de estudo, palavras difíceis, citações em abundância e uma aparente reverência ao pensamento. Mas, em algum ponto do caminho, algo se desloca. O autor deixa de ser uma inteligência em diálogo com o mundo e se transforma em figura sagrada. A teoria deixa de ser ferramenta e vira doutrina. A bibliografia deixa de ser repertório e vira catecismo.
É aí que a academia começa a querer ser altar.
Não porque toda universidade faça isso. Não porque todo pesquisador se ajoelhe diante de uma capela teórica. Seria injusto, e até burro, reduzir a vida acadêmica às suas vaidades. A universidade ainda é uma das grandes invenções humanas. Foi nela que muitas perguntas ganharam forma, que muitas vozes encontraram método, que muitos mundos se abriram diante de quem talvez jamais tivesse sido autorizado a pensar publicamente.
Mas há, sim, uma deformação curiosa em certos ambientes acadêmicos: a transformação do pensamento em rito de pertencimento.
A pessoa não precisa apenas ler. Precisa demonstrar de que linhagem veio. Não precisa apenas argumentar. Precisa provar que conhece as senhas. Não precisa apenas enfrentar o problema. Precisa declarar, antes, diante de quais autores dobra o joelho e contra quais autores aprendeu a franzir a testa.
A fissura está justamente aí: um espaço que deveria ensinar a pensar, muitas vezes ensina primeiro a pertencer.
Na educação, isso fica ainda mais visível. Quase todos os grandes pensadores educacionais têm algo a oferecer. Paulo Freire, Saviani, Piaget, Vygotsky, Wallon, Emília Ferreiro, Magda Soares, Morais, Capovilla, Bajard e tantos outros não precisam ser transformados em torcida organizada. Cada um iluminou uma parte do problema. Cada um viu uma camada da criança, da linguagem, da escola, da cultura, da sociedade, do ensino, da aprendizagem. Cada um também errou, exagerou, foi mal lido, foi sequestrado por seguidores apressados ou reduzido a uma caricatura conveniente.
O problema começa quando o leitor deixa de perguntar “o que esse autor me ajuda a compreender?” e passa a perguntar “a que grupo eu pertenço se eu citar esse autor?”.
A partir daí, o pensamento perde oxigênio.
Porque pensar exige trânsito. Exige atravessar pontes, desconfiar dos próprios santos, escutar os hereges, recolher ferramentas onde elas estiverem e devolver cada conceito ao chão da realidade. Em educação, esse chão tem nome: criança aprendendo. Nenhuma teoria deveria valer mais do que isso. Nenhuma filiação deveria ser mais importante do que uma criança lendo, escrevendo, brincando, pensando, convivendo, ampliando sua linguagem e compreendendo o mundo com mais profundidade.
Mas a academia, quando quer ser altar, prefere perguntar outra coisa:
“Você é dos nossos?”
Essa pergunta é pequena demais para o tamanho da educação.
Ela empobrece Freire quando o transforma em santinho intocável, incapaz de ser criticado sem que alguém seja imediatamente acusado de reacionário. Empobrece Saviani quando o transforma em arma para bater em tudo que cheire a infância, linguagem e subjetividade. Empobrece Piaget quando o reduz à ideia pobre de que a criança aprende sozinha. Empobrece Vygotsky quando o usa para justificar qualquer trabalho em grupo mal planejado. Empobrece Emília Ferreiro quando sua pesquisa sobre hipóteses de escrita vira desculpa para não ensinar o sistema alfabético. Empobrece Capovilla quando a defesa do método fônico é capturada por cruzadas culturais que parecem querer alfabetizar a criança enquanto incendeiam simbolicamente a escola pública.
Todos perdem quando uma teoria vira bandeira.
E a criança perde primeiro.
Talvez o caso mais inquietante seja justamente este: a academia costuma criticar, com razão, os fundamentalismos religiosos, políticos e morais, mas nem sempre percebe seus próprios rituais de fé. Há autores obrigatórios, inimigos de estimação, expressões consagradas, palavras proibidas, modos corretos de demonstrar virtude intelectual. Há, em certos ambientes, mais medo de citar o autor errado do que de pensar mal. Mais preocupação com a linhagem teórica do que com a clareza da pergunta. Mais energia para proteger o grupo do que para enfrentar o problema.
E o problema continua ali, com uma simplicidade quase ofensiva: crianças que não leem, educadores cansados, documentos inflados, formações repetitivas, escolas sobrecarregadas, teorias usadas como perfume para práticas que nem sempre funcionam.
A academia que quer ser altar não gosta dessa simplicidade. Ela prefere a liturgia. Prefere o termo consagrado. Prefere a senha epistemológica. Prefere o gesto de pertencimento. E, quando alguém tenta atravessar as fronteiras, recolhendo de cada pensador aquilo que ajuda a compreender melhor a realidade, logo surge a suspeita:
“Mas qual é exatamente o seu referencial?”
A pergunta pode ser legítima. O problema é quando ela significa, no fundo:
“Diante de qual altar você se curva?”
Talvez seja preciso responder com serenidade: diante de nenhum.
Não porque os pensadores não importem. Importam muito. Importam tanto que não merecem virar santos de gesso. Um pensador vivo é aquele que ainda pode ser discutido, deslocado, tensionado, contrariado e colocado ao lado de outros. Um pensador morto, mesmo quando segue sendo citado com entusiasmo, é aquele que só pode ser repetido.
A educação não precisa de repetidores de altar. Precisa de leitores inquietos.
Leitores capazes de reconhecer que Paulo Freire pode iluminar a dimensão política da palavra sem, por isso, resolver todos os problemas metodológicos da alfabetização. Que Saviani pode recolocar o conhecimento sistematizado no centro da escola sem, por isso, dar conta sozinho da infância concreta. Que Vygotsky pode ajudar a pensar mediação sem transformar toda interação em aprendizagem. Que Piaget pode ensinar muito sobre desenvolvimento sem autorizar o abandono do ensino. Que Magda Soares pode articular letramento e alfabetização sem que uma coisa devore a outra. Que o método fônico pode ser necessário sem que a escola vire quartel da sílaba.
Pensar é suportar essas tensões.
A fé acadêmica, ao contrário, prefere resolver tudo por pertencimento. Escolhe uma família teórica, herda seus inimigos, repete suas frases, protege seus símbolos e chama isso de rigor. Mas rigor de verdade não é fidelidade tribal. Rigor é honestidade diante do objeto. É coragem de admitir que um autor de quem gostamos pode falhar. Que um autor de quem desconfiamos pode acertar. Que uma tradição teórica pode iluminar muito e obscurecer outro tanto. Que nenhuma biblioteca, sozinha, substitui a realidade.
Talvez por isso tanta gente pense pouco enquanto cita muito.
Citar é importante. Estudar é indispensável. Reconhecer a tradição é sinal de humildade intelectual. Mas há um tipo de citação que não abre pensamento; apenas exibe pertencimento. Há um modo de mencionar autores que funciona como medalha no peito, senha na porta, incenso no altar. E, quando isso acontece, a teoria deixa de ajudar a ver o mundo e passa a impedir que o mundo seja visto sem autorização.
A educação, porém, não cabe inteira em autor nenhum.
A criança não cabe inteira em teoria nenhuma.
A escola não cabe inteira em capela nenhuma.
É por isso que toda formação intelectual digna desse nome deveria ensinar uma delicada desobediência: ler todos com seriedade, escutar todos com atenção, agradecer o que cada um oferece e, ainda assim, não entregar a nenhum deles a chave absoluta da realidade.
A academia é grande quando suporta conflito. Quando não tem medo da travessia. Quando entende que pensar não é repetir a senha correta diante da porta certa. Quando aceita que o conhecimento não nasce da reverência automática, mas do encontro difícil entre repertório, experiência, dúvida e mundo.
A academia que quer ser altar forma devotos.
A academia que aceita ser travessia forma pensadores.
E talvez toda formação intelectual comece quando alguém, diante das imagens consagradas na parede, percebe que os grandes autores eram importantes, sim — mas o mundo, lá fora, continuava maior que todos eles.




