Em bom português #06: método não é coleira

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Entre o tecnicismo que engessa e o relativismo que transforma qualquer atividade em experiência significativa, existe uma responsabilidade incontornável: saber o que se ensina, por que se ensina e como perceber se a criança aprendeu. Método não é coleira; é caminho declarado.

Há uma frase muito bonita, dessas que circulam com ares de pensamento profundo, segundo a qual a educação não deve perguntar apenas “o que funciona”, mas também “funciona para quê, para quem, em que contexto e com qual finalidade humana, ética e política”.

A frase é boa.

O problema começa quando ela sai do livro, entra na escola e descobre que muita gente já não sabe dizer, com segurança, o que significa “finalidade”.

Finalidade, em bom português, é o para quê.

Não é enfeite teórico. Não é palavra de seminário. Não é aquele vocábulo bonito que a pessoa usa para deixar a fala com cheiro de universidade. Finalidade é o destino da ação. É aquilo que diferencia uma prática pedagógica de uma sucessão de atividades.

A criança pintou. Para quê?

Recortou. Para quê?

Ouviu uma história. Para quê?

Fez roda de conversa. Para quê?

Brincou livremente. Para quê?

Copiou da lousa. Para quê?

Cantou, colou, pulou, desenhou, montou, classificou, escreveu, contou, dramatizou. Para quê?

Nada disso é ruim em si. O problema nunca esteve na atividade isolada. O problema está na atividade sem direção, sem critério, sem antes, sem depois, sem observação, sem intervenção e sem consequência pedagógica. A criança faz. O adulto registra. O mural fica bonito. A legenda diz que foi uma “experiência significativa”. E seguimos, todos muito sensíveis, rumo ao próximo cartaz.

Durante muito tempo, parte da pedagogia acadêmica teve razão ao desconfiar de certos discursos sobre método. Havia, e ainda há, um risco real de transformar educação em receita, aula em protocolo, professor em executor e criança em dado estatístico. Nenhuma pedagogia séria deveria aceitar isso passivamente.

Mas existe outro risco, igualmente grave: usar a crítica ao tecnicismo como licença para não ter técnica nenhuma.

É aí que o discurso bonito começa a apodrecer.

Porque, quando se diz que “não há método único”, algumas pessoas entendem: então qualquer coisa serve.

Quando se diz que “é preciso respeitar o contexto”, algumas pessoas entendem: então não preciso planejar com rigor.

Quando se diz que “a avaliação não deve ser classificatória”, algumas pessoas entendem: então não preciso verificar se a criança aprendeu.

Quando se diz que “a criança é protagonista”, algumas pessoas entendem: então o adulto pode se retirar da cena pedagógica.

Quando se diz que “ensinar diretamente pode ser autoritário”, algumas pessoas entendem: então o professor deve sugerir, circular, observar e torcer para que o conhecimento aconteça por osmose democrática.

E viva la revolución.

Só que a criança continua lá.

Com suas hipóteses, suas dificuldades, suas desigualdades, seus atrasos, suas potências e suas necessidades reais. Ela não vive dentro de um artigo acadêmico. Ela vive dentro de uma sala, diante de um adulto que precisa saber o que está fazendo.

Método não é coleira.

Método é caminho declarado.

Ter método não significa engessar a prática, ignorar o contexto ou tratar todos do mesmo jeito. Significa conseguir explicar por que aquela escolha foi feita, o que se esperava com ela, quais sinais foram observados, que intervenção foi necessária e o que será feito depois.

Uma pedagogia sem método não é necessariamente libertadora. Muitas vezes é apenas confusa.

E a confusão, quando ganha vocabulário sofisticado, fica perigosa. Porque passa a parecer profundidade. A ausência de ensino vira “escuta”. A falta de planejamento vira “abertura ao imprevisível”. A omissão adulta vira “autonomia infantil”. A atividade solta vira “vivência”. A fragilidade conceitual vira “resistência ao tecnicismo”.

Mas há uma diferença enorme entre resistir ao tecnicismo e rejeitar a responsabilidade de ensinar.

A crítica às “evidências científicas” também precisa ser colocada nesse lugar. É claro que evidência não pode virar dogma. É claro que a educação não cabe inteira em gráficos, testes e protocolos. É claro que a Pedagogia não pode ser reduzida a laboratório, porque educar envolve linguagem, cultura, vínculo, história, desejo, corpo, desigualdade e mundo.

Mas isso não autoriza ninguém a fingir que toda prática tem o mesmo valor.

Se algo não funciona, precisamos ter coragem de dizer que não funciona.

Se uma criança não avança, precisamos ter instrumentos para perceber.

Se um método produz melhores resultados em determinado objetivo, precisamos olhar para isso.

Se uma teoria bonita fracassa diante da realidade, precisamos rever a teoria, não culpar a realidade por não ter entendido a beleza do discurso.

A Pedagogia é ciência, oras.

E, justamente por ser ciência, não deveria ter medo de evidência. Deveria disputar o sentido da palavra. Deveria dizer: evidência científica não é só número, mas também não é opinião. Não é só ensaio controlado, mas também não é achismo. Não é só estatística, mas também não é frase de efeito. Não é só resultado imediato, mas também não é promessa eterna sem demonstração nenhuma.

A boa pedagogia precisa de dois anticorpos.

Um contra o tecnicismo, para não transformar educação em procedimento cego.

Outro contra o relativismo, para não transformar qualquer prática em experiência significativa apenas porque alguém escreveu uma justificativa bonita depois.

No fim das contas, a pergunta continua simples:

O que você está ensinando?

Por que está ensinando assim?

Como sabe que a criança aprendeu?

E, se ela não aprendeu, o que você vai fazer?

Se essas perguntas parecem agressivas, talvez o problema não esteja nas perguntas.

Talvez esteja no fato de que nos acostumamos demais a uma pedagogia que fala muito sobre formação humana, mas nem sempre consegue formar uma frase denotativa sobre o próprio trabalho.

Em bom português: método não é inimigo da liberdade.

Método é o que impede a liberdade pedagógica de virar abandono com crachá progressista.


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