Como trabalhamos com grupos: quando juntar pessoas não basta

Por Paulo Ricardo Zargolin

Há uma diferença enorme entre colocar pessoas juntas e constituir um grupo.

Parece preciosismo teórico até pensarmos em situações absolutamente cotidianas: uma sala cheia de professores durante uma formação pode ser apenas uma sala cheia de professores. Uma equipe que trabalha no mesmo prédio pode não funcionar efetivamente como equipe. Uma classe inteira pode dividir horários, carteiras e tarefas sem que isso produza, automaticamente, uma experiência grupal significativa.

É justamente nesse território — aparentemente simples e surpreendentemente complexo — que entra Como trabalhamos com grupos, de David E. Zimerman, Luiz Carlos Osorio e colaboradores.

A obra percorre diferentes formas de organização grupal e mostra que trabalhar com grupos exige muito mais do que reunir pessoas e propor alguma coisa para elas fazerem. Exige compreender vínculos, objetivos, papéis, comunicação, ansiedades, resistências, lideranças, enquadres e movimentos que pertencem ao próprio grupo.

💜 A primeira ideia para guardar

Um grupo não é uma soma de indivíduos.
Quando as pessoas começam a interagir em torno de objetivos, vínculos e regras compartilhadas, constitui-se uma realidade nova. O grupo passa a produzir movimentos que não podem ser explicados observando isoladamente cada participante.

De um monte de gente para um grupo

Uma das distinções mais didáticas apresentadas na obra é aquela entre agrupamento e grupo.

Pense numa fila.

Há várias pessoas no mesmo lugar. Talvez todas queiram exatamente a mesma coisa. Apesar disso, elas podem permanecer praticamente indiferentes umas às outras.

Agora pense numa equipe reunida semanalmente para resolver um problema comum. Seus integrantes conversam, discordam, criam expectativas, distribuem funções, lembram acontecimentos anteriores, antecipam reações dos colegas e começam a desenvolver determinada maneira de funcionar.

Alguma coisa mudou.

Zimerman apresenta essa passagem de maneira particularmente interessante: saímos dos “interesses comuns” para os “interesses em comum”.

Para caracterizar propriamente um grupo, aparecem elementos como objetivo e tarefa compartilhados, interação, comunicação, enquadre, identidade grupal e preservação simultânea das identidades individuais. Também convivem no grupo forças que favorecem sua coesão e outras que trabalham no sentido da desagregação.

Isso desmonta uma fantasia bastante frequente nas instituições:

reunir pessoas não produz, por decreto, trabalho coletivo.

O grupo começa a ter vida própria

Uma das ideias mais importantes da obra é a existência de um campo grupal.

O livro utiliza uma comparação particularmente feliz: uma melodia não é simplesmente a soma das notas que a constituem. Ela nasce da combinação e do arranjo entre elas.

Com o grupo acontece algo semelhante.

Cada participante chega com sua história, seus desejos, seus medos, suas defesas e suas expectativas. Mas, quando essas pessoas passam a interagir, começam a surgir fenômenos produzidos justamente pelas relações estabelecidas entre elas.

🎵 O grupo é uma melodia

Podemos conhecer cada “nota” separadamente e, mesmo assim, não conhecer a música.

Compreender um grupo exige observar o que acontece entre as pessoas, e não apenas aquilo que cada pessoa é individualmente.

Por isso, o campo grupal envolve comunicação verbal e não verbal, identificações, vínculos, ansiedades, mecanismos de defesa, resistências e distribuição de papéis.

E aqui aparece uma ideia muito útil para quem trabalha com educação, formação ou gestão: o comportamento de alguém dentro de um grupo nunca pertence somente a esse alguém.

Às vezes, uma pessoa expressa uma tensão que está circulando pelo grupo inteiro.

É um modo de olhar particularmente fértil para quem transita pela Pedagogia e outras ciências: compreender relações humanas exige abandonar explicações que colocam todo o problema dentro de um único indivíduo.

Sempre aparecem papéis

Todo grupo distribui posições.

Há quem fale muito. Quem quase nunca fale. Quem conteste. Quem concilie. Quem transforme tudo em piada. Quem assuma a responsabilidade. Quem espere que alguém decida. Quem seja escolhido informalmente para carregar a culpa quando as coisas dão errado.

Alguns desses papéis podem se tornar tão repetitivos que praticamente aprisionam seus ocupantes.

A obra chama atenção, por exemplo, para a figura do bode expiatório: aquele sobre quem podem ser depositados aspectos que os demais integrantes têm dificuldade de reconhecer em si próprios.

Nos grupos terapêuticos discutidos no livro, aparecem ainda participantes que assumem repetidamente o lugar do “bonzinho”, do porta-voz da agressividade ou daquele que atua aquilo que os outros não conseguem expressar.

O interessante é perceber que esses papéis não precisam ser permanentes.

Aliás, sua transformação pode ser justamente um sinal de que alguma coisa está se movimentando.

🔎 Uma pergunta para quem coordena

Quando alguém ocupa sempre o mesmo lugar dentro de um grupo, vale perguntar:

esse papel pertence apenas à pessoa ou o grupo também precisa que alguém o desempenhe?

É uma mudança pequena na pergunta — e gigantesca na maneira de observar.

A tarefa oficial e aquilo que acontece por baixo dela

A contribuição de Wilfred Bion aparece como uma das referências importantes da obra.

Em termos bastante simplificados, podemos pensar que um grupo funciona simultaneamente em dois planos.

Existe o grupo de trabalho, conscientemente voltado para aquilo que precisa realizar.

Mas existem também movimentos inconscientes que atravessam esse trabalho.

É perfeitamente possível, portanto, que um grupo diga querer uma coisa e se comporte coletivamente de maneira que dificulte justamente aquilo que pretende alcançar.

Qualquer pessoa que já coordenou uma reunião provavelmente reconheceu a cena.

A pauta está pronta.

O objetivo foi explicado.

Todos concordam que aquilo precisa ser feito.

Quarenta minutos depois, misteriosamente, discutiu-se o cafezinho, a impressora, um acontecimento de 2019 e a injustiça histórica cometida quando alguém mudou uma cadeira de lugar.

A tarefa continua esperando.

O livro nos ajuda a abandonar a explicação simplista de que “esse grupo não quer nada” e perguntar algo mais produtivo:

o que está dificultando que este grupo realize sua tarefa?

É justamente esse tipo de deslocamento — sair da resposta fácil e investigar as camadas de uma situação — que também orienta os Estudos de Caso para Mentes Inquietas do Logosgrafia.

Pichon-Rivière entra na conversa

É nesse ponto que os grupos operativos ganham especial importância.

A obra reconhece Enrique Pichon-Rivière como uma referência central nessa tradição e associa os grupos operativos a uma tarefa objetiva, inclusive em situações de ensino-aprendizagem.

O foco não está simplesmente em “fazer uma dinâmica”.

Está em compreender e trabalhar aquilo que impede o grupo de avançar na tarefa.

Na discussão apresentada no livro, os grupos operativos procuram mobilizar estruturas estereotipadas e enfrentar dificuldades de aprendizagem e comunicação relacionadas às ansiedades despertadas pelas mudanças.

⚠️ Grupo operativo não é sinônimo de dinâmica de grupo

O centro é a tarefa.

Observam-se os obstáculos, as ansiedades, as resistências e as formas de comunicação que aparecem enquanto o grupo tenta realizá-la.

A atividade não existe para “animar” o encontro. Ela precisa fazer sentido dentro daquilo que o grupo está tentando construir.

Para quem atua na educação, essa talvez seja uma das portas mais interessantes do livro.

Aliás, quem preferir continuar encontrando conceitos densos apresentados sem a obrigação de fingir que entendeu na primeira leitura pode visitar também a estante Em bom português.

E quem coordena tudo isso?

Aqui aparece outra mudança importante de perspectiva.

Coordenar um grupo não significa controlar tudo o que acontece nele.

Significa criar condições para que o grupo possa trabalhar.

Isso envolve planejamento, clareza de finalidade, organização do enquadre, capacidade de observação e atenção ao modo como as pessoas estão se relacionando.

Antes mesmo de iniciar um grupo, Zimerman propõe perguntas muito concretas:

  • Quem coordenará?
  • Para quê esse grupo existe?
  • Para quem ele se destina?
  • Como funcionará?
  • Onde acontecerá?
  • Com quais recursos será realizado?

A recomendação de fundo é simples: quem organiza um grupo precisa saber o que pretende e como pensa operacionalizar essa intenção. Sem isso, aumentam as possibilidades de confusão e mal-entendidos.

O coordenador, portanto, não é alguém que chega com uma sacola de atividades interessantes.

Ele precisa conseguir ler o grupo.

O enquadre: as regras que permitem que alguma coisa aconteça

Horário.

Local.

Periodicidade.

Número de participantes.

Objetivos.

Combinados.

Tudo isso pode parecer burocrático diante da riqueza das relações humanas.

Não é.

O livro denomina esse conjunto organizador de enquadre — ou setting.

É justamente a existência de determinadas referências relativamente estáveis que cria um espaço no qual o grupo pode funcionar.

🧩 O enquadre não é o grupo

As regras não produzem, sozinhas, uma experiência grupal.

Mas um grupo sem referências mínimas pode gastar enorme quantidade de energia tentando descobrir continuamente onde está, o que está fazendo e o que se espera dele.

A organização, portanto, não é inimiga da espontaneidade.

Em determinadas circunstâncias, é justamente aquilo que permite que ela apareça.

Quando alguém fala e o outro se reconhece

Outro conceito particularmente bonito é o de ressonância.

Uma pessoa traz determinada experiência. Aquilo toca outra pessoa, que responde com uma história aparentemente diferente, mas carregada de um significado afetivo semelhante. A fala desta segunda pessoa pode alcançar uma terceira.

O assunto circula.

Transforma-se.

Retorna.

A experiência individual encontra ecos coletivos.

A obra chega a comparar o campo grupal a uma espécie de galeria de espelhos, na qual cada integrante pode refletir e ser refletido pelos demais.

Talvez seja uma das explicações mais interessantes para aquilo que qualquer bom coordenador já percebeu empiricamente:

às vezes, alguém diz algo que aparentemente pertence apenas à sua história e, de repente, metade da sala muda de expressão.

Não era mais apenas daquela pessoa.

E a educação?

O livro não permanece restrito à psicoterapia.

Sua própria organização demonstra a amplitude pretendida: há capítulos sobre família, grupos comunitários, autoajuda, diferentes situações clínicas, ensino, aprendizagem e instituições.

Na parte especificamente dedicada à educação aparecem grupos de reflexão, educação médica, trabalho com grupos na escola e orientação profissional com adolescentes.

Os grupos de reflexão são particularmente interessantes. Eles são apresentados como uma modalidade derivada dos grupos operativos, aplicada especialmente ao ensino e à formação, na qual se procura investigar tensões surgidas durante o próprio processo de aprendizagem.

Isso muda radicalmente nossa compreensão de formação.

Formar um grupo não significa apenas transmitir conteúdo para várias pessoas simultaneamente.

O próprio grupo pode converter-se em instrumento de aprendizagem.

A experiência compartilhada, as dificuldades, as divergências, as perguntas e até determinadas tensões podem produzir material para reflexão.

🍎 Para quem forma educadores

Talvez uma boa formação não seja aquela em que o formador consegue dizer tudo o que havia planejado.

Talvez seja aquela em que o grupo consegue pensar melhor sobre aquilo que faz.

E isso exige uma competência difícil: distinguir aquilo que precisa ser explicado daquilo que precisa ser elaborado coletivamente.

Essa aproximação entre teoria, experiência, formação e prática é também um dos caminhos da estante Pedagogia e outras ciências.

Grupos também pertencem a instituições

Há ainda outra camada importante.

Nenhum grupo institucional existe no vácuo.

Uma equipe escolar pertence a uma escola. A escola pertence a uma rede. Existem normas, hierarquias, histórias, conflitos anteriores, expectativas e formas institucionalizadas de exercício da autoridade.

Por isso, determinados movimentos que aparecem dentro de um grupo podem estar relacionados ao contexto institucional do qual ele participa.

A obra alerta justamente para a necessidade de compreender cada grupo em relação à instituição que ele representa ou à qual pertence. As manifestações grupais misturam-se às características institucionais e precisam ser interpretadas considerando esse contexto.

Traduzindo zargolinianamente: às vezes o problema daquela reunião não nasceu naquela reunião.

E trocar a dinâmica do PowerPoint provavelmente não resolverá.

Liderança ensina mesmo quando não está ensinando

Há uma observação especialmente poderosa no capítulo dedicado aos atributos do coordenador.

Zimerman amplia a ideia de coordenação para diferentes situações: na família, os pais exercem essa função; na sala de aula, o professor; numa empresa, as chefias.

E então aparece uma consequência importante: o modelo oferecido pela liderança influencia profundamente os valores e as características do grupo.

Um coordenador pode discursar durante quarenta minutos sobre participação e não permitir que ninguém termine uma frase.

Pode defender autonomia tomando sozinho todas as decisões.

Pode falar sobre respeito humilhando quem discorda.

O grupo aprende.

Só não aprende necessariamente aquilo que estava escrito no slide.

👥 Todo coordenador também é parte do campo

Coordenar não coloca alguém fora do grupo.

A maneira como a autoridade escuta, responde, organiza, tolera divergências e estabelece limites também produz efeitos sobre aquilo que o grupo se torna.

Afinal, como trabalhamos com grupos?

Talvez a resposta mais coerente com o livro seja:

prestando atenção ao que acontece quando trabalhamos com eles.

Há técnicas, fundamentos, enquadres e referenciais teóricos. A obra percorre muitos deles.

Mas sua riqueza está justamente em impedir que reduzamos grupos a receitas.

Um grupo tem tarefa.

Tem história.

Tem papéis.

Tem vínculos.

Tem resistências.

Tem comunicação.

Tem aquilo que consegue dizer e aquilo que ainda não consegue.

Tem pessoas que o transformam — e que também são transformadas pela experiência de pertencer a ele.

E talvez seja por isso que trabalhar verdadeiramente com grupos seja muito mais complexo do que simplesmente trabalhar com várias pessoas ao mesmo tempo.

🌱 Uma leitura para as Sementinhas

Esta síntese apresentou apenas algumas das muitas portas abertas por Como trabalhamos com grupos.

A obra percorre fundamentos teóricos e técnicos e diferentes aplicações do trabalho grupal, chegando aos campos da família, da saúde, do ensino, da aprendizagem e das instituições.

Por isso, ela agora passa a integrar o Acervo do Logosgrafia, espaço em que materiais, livros e outras produções permanecem disponíveis para consulta e aprofundamento.

Os assinantes Semente poderão acessar a obra completa no Acervo.

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Obra apresentada: ZIMERMAN, David E.; OSORIO, Luiz Carlos; colaboradores. Como trabalhamos com grupos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

Esta publicação apresenta uma síntese autoral e didática da obra, selecionando conceitos e articulações especialmente relevantes para a compreensão do funcionamento dos grupos. A síntese não substitui a leitura integral do livro.

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