Em bom português #07: Episteme, o nome difícil dos óculos invisíveis

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Um conceito difícil para explicar por que pessoas diante do mesmo fato parecem viver em mundos diferentes.

Duas pessoas observam o mesmo acontecimento.

Uma vê um milagre.

Outra vê coincidência.

Uma terceira identifica desigualdade social.

Outra culpa o algoritmo.

Alguém ainda procura um trauma, uma conspiração, uma falha moral, uma explicação científica ou um sinal de que o mundo está chegando ao fim.

O acontecimento pode ser o mesmo. O mundo usado para interpretá-lo, não.

É nesse ponto que aparece uma palavra difícil, daquelas que parecem ter sido inventadas para encerrar conversas em vez de esclarecê-las:

episteme.

O conceito aparece em um vídeo que serviu como disparador para esta reflexão. A explicação apresentada ali acerta num ponto essencial: ninguém olha o mundo de maneira completamente pura, neutra e desprovida de mediações.

Mas é possível dar um passo além.

Em bom português

Episteme é o nome difícil dos óculos invisíveis que uma época coloca em nós antes mesmo de aprendermos a dizer “eu penso”.

Não se trata apenas de opinião.

Também não é simplesmente uma crença individual, uma preferência pessoal ou aquilo que, nas discussões apressadas das redes sociais, costuma ser chamado de “minha verdade”.

Em Michel Foucault, a episteme é mais profunda. Ela corresponde ao conjunto histórico de condições que determina quais conhecimentos podem ser produzidos, compreendidos, aceitos e considerados sérios em determinada época.

É quase um chão invisível.

Uma sociedade pisa sobre ele para decidir o que pode ser pesquisado, o que merece explicação, o que será tratado como evidência, o que parecerá absurdo e até quais perguntas poderão ser formuladas.

Episteme é o nome difícil do chão invisível onde uma época pisa para chamar alguma coisa de verdade.

Ela não vive apenas dentro da cabeça de uma pessoa.

Está na linguagem, nas escolas, nas universidades, nos tribunais, nos hospitais, nos laboratórios, nas igrejas, nos meios de comunicação e nas instituições que decidem quais discursos serão reconhecidos como legítimos.

Por isso, dizer que cada pessoa possui a própria episteme seria uma simplificação. Cada indivíduo pode ter perspectivas, experiências e crenças diferentes. A episteme, porém, é mais ampla: organiza historicamente o campo no qual essas perspectivas conseguem existir e fazer sentido.

Um exemplo menos complicado

Imagine um homem que, há alguns séculos, começasse a ouvir vozes.

Dependendo do lugar e da época, ele poderia ser considerado:

um profeta;

um possuído;

um pecador;

um criminoso;

um louco;

um paciente;

ou alguém atravessando uma experiência que ainda precisaria ser compreendida.

O fenômeno humano poderia apresentar semelhanças. O sistema utilizado para nomeá-lo, classificá-lo e intervir sobre ele mudaria profundamente.

Não mudaria apenas a resposta.

Mudaria a pergunta.

Mudariam as pessoas autorizadas a falar.

Mudariam os métodos considerados aceitáveis.

Mudariam as instituições responsáveis pelo indivíduo.

E mudaria até aquilo que a sociedade entenderia como sendo a realidade do acontecimento.

Foucault dedicou boa parte de sua obra a investigar essas transformações. Em vez de perguntar apenas se determinado conhecimento era verdadeiro ou falso, ele também perguntava: quais condições históricas permitiram que isso começasse a ser reconhecido como conhecimento?

As pessoas discutem o mesmo fato?

À primeira vista, sim.

Duas pessoas assistem ao mesmo vídeo, leem a mesma notícia, observam a mesma imagem ou presenciam o mesmo acontecimento.

Mas cada uma pode mobilizar sistemas muito diferentes para transformar aquilo em algo compreensível.

Uma pergunta:

— Qual é a evidência?

Outra:

— Quem está por trás disso?

Outra:

— O que Deus deseja mostrar?

Outra:

— Quem lucra com essa narrativa?

Outra:

— Quantas visualizações isso produzirá?

Não são apenas respostas diferentes para uma pergunta comum. Muitas vezes, são perguntas nascidas de mundos interpretativos distintos.

A briga, portanto, não acontece somente em torno do fato.

Acontece em torno do tipo de mundo no qual aquele fato poderá ser reconhecido como verdadeiro, relevante ou digno de atenção.

A ignorância mais perigosa não é ter pressupostos. É ter pressupostos e chamá-los de realidade.

Episteme não significa “cada um tem sua verdade”

Aqui é preciso colocar uma vírgula grande.

Reconhecer que nosso acesso ao mundo passa por linguagens, valores, instituições e métodos históricos não significa afirmar que a realidade não existe.

Também não significa que qualquer explicação vale tanto quanto qualquer outra.

Uma ponte continuará caindo quando seus cálculos estiverem errados, ainda que alguém possua uma opinião muito sincera sobre a resistência do concreto.

Uma doença não desaparecerá apenas porque determinada comunidade decidiu não acreditar nela.

Um documento não deixará de existir porque sua leitura contraria a narrativa preferida de alguém.

O conceito de episteme não elimina a realidade. Ele chama atenção para as estruturas pelas quais os seres humanos conseguem percebê-la, descrevê-la, investigá-la e disputar seu significado.

Existe mundo.

Mas não existe acesso humano ao mundo sem linguagem, classificação, memória, experiência, instrumentos e formas coletivas de produzir conhecimento.

O laboratório também usa óculos

A ciência procura desenvolver procedimentos capazes de controlar erros, confrontar hipóteses, produzir evidências e submeter conclusões à verificação pública.

Isso faz enorme diferença.

Mas nem mesmo a ciência nasce fora da história.

Os problemas considerados relevantes, os instrumentos disponíveis, as categorias empregadas e até as perguntas financiadas são atravessados por condições sociais e institucionais.

Perceber isso não diminui o conhecimento científico. Ao contrário: ajuda a compreender por que a ciência precisa conservar mecanismos de revisão, crítica, replicação e transparência.

Essa tensão entre conhecimento, experiência e autoridade também aparece em O jaleco, o chão e o vício das certezas, texto no qual a formação acadêmica é tratada como ferramenta indispensável, mas não como autorização para transformar o próprio enquadramento em verdade absoluta.

A pessoa intelectualmente responsável não é aquela que afirma não possuir pressupostos.

É aquela que cria métodos para desconfiar deles.

As lentes fabricadas pelas redes

Nas redes sociais, o problema ganha uma camada adicional.

Não recebemos apenas informações. Recebemos informações selecionadas por sistemas que aprendem o que nos prende à tela.

O algoritmo percebe nossas reações, mede nossos impulsos e reorganiza o campo visível.

Aos poucos, determinadas ideias aparecem tantas vezes que deixam de parecer interpretações e passam a se apresentar como descrição natural do mundo.

Não vemos apenas o que existe.

Vemos aquilo que foi selecionado para continuar nos fazendo olhar.

Cada ambiente estabelece informalmente suas próprias regras:

o que conta como prova;

quem merece confiança;

o que deve provocar indignação;

qual fonte será descartada;

quem poderá ser chamado de especialista;

e qual dúvida será interpretada como traição.

É assim que grupos diferentes podem observar o mesmo país, a mesma eleição, a mesma escola ou a mesma crise e descrever realidades quase irreconciliáveis.

Não necessariamente porque um dos lados perdeu completamente a capacidade de enxergar, mas porque cada grupo aprendeu a reconhecer sinais diferentes como indícios de verdade.

A inteligência artificial e o mundo já interpretado

A inteligência artificial também não observa o mundo de um ponto neutro.

Ela trabalha com registros humanos: textos, imagens, classificações, padrões linguísticos e decisões acumuladas historicamente.

Quando uma máquina produz uma resposta, ela não retira conhecimento diretamente da realidade. Ela reorganiza materiais construídos por pessoas, instituições e culturas.

Isso significa que as tecnologias de IA carregam, de maneira indireta, rastros das epistemes presentes nos dados com os quais foram desenvolvidas.

Carregam também escolhas técnicas: o que foi incluído, o que ficou de fora, o que recebeu maior peso, o que foi classificado como inadequado e quais formas de resposta foram consideradas desejáveis.

Em Bem humaninho e sem travessões: simbiogênese da escrita ou terceirização do sujeito, discutimos justamente o perigo de tratar a máquina como uma consciência transparente, capaz de produzir respostas sem herdar marcas dos materiais e das decisões humanas que tornam seu funcionamento possível.

A IA não elimina os óculos.

Ela pode sobrepor milhares de lentes e apresentar o resultado com tamanha fluidez que esquecemos de perguntar de onde veio o enquadramento.

Quando controlar as palavras é controlar o campo visível

As palavras não servem apenas para descrever coisas que já estão prontas.

Elas também organizam o que conseguimos perceber.

Quando uma sociedade perde palavras, certas distinções se tornam mais difíceis. Quando uma instituição impõe vocabulários, ela também delimita quais experiências poderão ser reconhecidas, denunciadas ou investigadas.

Essa relação entre linguagem e realidade aparece de modo radical em 1984: quando controlar as palavras é controlar o mundo. No universo de George Orwell, reduzir o vocabulário não é apenas censurar expressões: é diminuir progressivamente o território no qual o pensamento pode circular.

Uma episteme não é a mesma coisa que uma língua oficialmente controlada.

Mas a aproximação ajuda a perceber algo importante: aquilo que uma época consegue dizer interfere profundamente naquilo que ela consegue pensar.

Ninguém pensa do nada. A gente pensa a partir de uma língua, de uma época, de uma dor, de uma escola, de uma fé, de uma classe e de uma tela.

Então ninguém consegue sair da própria lente?

Talvez não seja possível retirar completamente os óculos.

Até a tentativa de observar nossos pressupostos será realizada com instrumentos intelectuais construídos em determinada cultura e em determinado momento histórico.

Mas isso não nos condena à cegueira.

Podemos comparar interpretações.

Podemos confrontar evidências.

Podemos conhecer outras tradições.

Podemos investigar a história das palavras que usamos.

Podemos perguntar quem recebeu autoridade para nomear o mundo.

Podemos observar aquilo que nossas categorias iluminam — e também aquilo que deixam na sombra.

A formação verdadeira talvez comece justamente aí.

Não quando alguém acredita ter alcançado uma visão absolutamente neutra, mas quando se torna capaz de reconhecer que também está olhando por alguma lente.

Em bom português, outra vez

Episteme é o sistema invisível que ensina uma época a decidir o que parece verdadeiro, possível, pesquisável e até pensável.

Ela não é uma simples opinião individual.

Não prova que toda verdade é relativa.

Não significa que a realidade seja uma invenção arbitrária.

Significa que os seres humanos nunca chegam ao real completamente desarmados de palavras, métodos, valores, instituições e histórias.

Todos usamos lentes.

A diferença é que algumas pessoas confundem os próprios óculos com os olhos.

Outras aprendem a reconhecer os riscos, as possibilidades e os limites do campo de visão que receberam.

A formação verdadeira não elimina a lente: ensina a perceber que estamos usando uma.

Talvez a pessoa bem formada não seja aquela que conseguiu enxergar o mundo sem mediação.

Talvez seja aquela que, de vez em quando, interrompe a certeza, retira os óculos por um instante, limpa as lentes e aceita experimentar — ainda que provisoriamente — o campo de visão do outro.


Para continuar pensando

Este texto dialoga especialmente com Michel Foucault, sobretudo com as obras As palavras e as coisas e A arqueologia do saber.

Para uma introdução conceitual complementar, consulte:

Michel Foucault — Stanford Encyclopedia of Philosophy
Michel Foucault — Internet Encyclopedia of Philosophy

Veja também outros textos dos Estudos de Caso para Mentes Inquietas.


Mais explicações sobre teorias, aqui.
0Capa da categoria Acervo com a palavra “Acervo” em letras metálicas prateadas, sendo a letra O substituída por uma maçã prateada. Ao fundo, uma biblioteca digital futurista com estantes, documentos, telas e interfaces tecnológicas em tons de prata.
Consulte o acervo, aqui.
Volte ao início, aqui.

Fediverse reactions

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo