A porta abriu

Magenta! apresenta: #OJogo

Terceira parte — A partida começa

Capítulo 9

A primeira coisa que mudou foi tão pequena que nenhum dos quatro percebeu imediatamente.

Foi a cadeira.

Até então, qualquer tentativa de levantar terminava do mesmo jeito: o corpo obedecia por alguns centímetros, a madeira respondia com um leve rangido e tudo voltava ao lugar, como se a mesa aceitasse movimentos, mas recusasse partidas.

Dessa vez, não.

Paulinho apenas apoiou as mãos no tampo, quase por hábito.

Levantou.

E continuou levantando.

Ficou de pé.

Olhou para os próprios pés, como quem esperava uma ordem para voltar a sentar.

Ela não veio.

Caio foi o primeiro a reagir.

— Você conseguiu.

Paulinho deu um passo para trás.

Depois outro.

Nada.

Lia levantou também, mais devagar.

Testou o equilíbrio.

Sorriu pela primeira vez desde que aparecera ali.

— Então ela deixou.

Caio olhou para ela.

— Ninguém vai comentar o verbo que você usou?

Lia respondeu sem olhar para ele.

— Você também pensou “ela”.

Caio ficou em silêncio.

Pensara.

Davi apoiou as duas mãos na mesa e se levantou de uma vez.

A cadeira permitiu.

Ele permaneceu imóvel por um segundo.

Depois abriu os braços.

— Liberdade provisória.

— Você não consegue ficar sério nem quando a mobília controla seu corpo? — perguntou Lia.

Davi olhou para a cadeira.

— Principalmente quando a mobília controla meu corpo.

Caio se levantou por último.

Fez isso devagar, como se esperasse que a cadeira mudasse de ideia no meio do caminho.

Não mudou.

Os quatro estavam de pé.

Nenhum deles conseguia mais chamar aquilo apenas de mesa.

Havia alguma coisa naquele lugar que decidia.

E, por enquanto, decidira permitir.


Eles deram a volta ao redor da mesa.

Vista de pé, ela parecia menor.

Ou talvez fossem eles que agora a enxergassem de outro jeito.

As quatro cadeiras permaneciam ligeiramente afastadas do tampo.

As demais continuavam no lugar.

Vazias.

Esperando.

Paulinho desviou o olhar.

Ainda não gostava de pensar nelas.

Davi, ao contrário, aproximou-se de uma das cadeiras sem nome.

— Será que senta?

Caio segurou seu braço.

— Não.

— Eu só ia testar.

— Você disse isso antes de quase acusar alguém sem certeza.

Davi soltou o braço.

— E não acusei.

Lia passou por eles.

— Ainda.

A cadeira vazia rangeu.

Os quatro se afastaram.

Davi levantou as mãos.

— Certo. Teste concluído.


A porta do cômodo estava fechada.

Davi foi o primeiro a caminhar até ela.

Caio percebeu.

— Nem pensa.

Davi colocou a mão na maçaneta.

— Essa frase não funciona comigo.

— Nenhuma funciona.

Davi girou a maçaneta.

A porta abriu.

Nenhum dos quatro respirou durante um segundo inteiro.

Do outro lado…

havia um corredor.

Com paredes claras.

Um tapete comprido.

Quadros.

Uma luminária.

Uma casa.

Só isso.

Davi colocou apenas a cabeça para fora.

Olhou para a esquerda.

Depois para a direita.

Voltou.

— Acho que existe o resto da casa.

— “Acha”? — perguntou Lia.

— Você quer um laudo?

Caio franziu a testa.

— Você roubou minha frase.

— Eu melhorei sua frase.

Lia passou pelos dois.

Paulinho veio logo atrás.

O corredor era absurdamente comum.

Era justamente isso que incomodava.

Nada gritava.

Nada brilhava.

Nada parecia mágico.

A única diferença era uma estranha sensação de organização excessiva.

Como se alguém tivesse passado horas decidindo onde exatamente cada quadro deveria ficar.

Davi parou diante de um deles.

A moldura continha uma paisagem.

Uma casa pequena.

Um jardim.

Um céu azul.

Tudo bonito demais para parecer lembrança.

— Finalmente alguma coisa normal — disse.

Lia se aproximou.

— Não tem porta.

Davi olhou novamente.

A casa do quadro tinha janelas.

Telhado.

Chaminé.

Mas nenhuma porta.

— Eu retiro o que disse.


Encontraram uma sala.

Um sofá.

Uma estante.

Livros.

Um rádio antigo.

Davi foi direto até ele.

Apertou o botão.

Silêncio.

Tentou outro.

Silêncio.

Girou todos os seletores.

Nada.

Caio se jogou no sofá.

— Nem música de elevador?

— Eu estava procurando uma transmissão de emergência — respondeu Davi.

— Claro.

Lia abriu um dos livros.

Todas as páginas estavam em branco.

Fechou.

Pegou outro.

Também.

Davi tirou um terceiro da estante.

Folheou rapidamente.

— Esse aqui também.

— Talvez ainda não tenham sido escritos — disse Paulinho.

Lia olhou para ele.

— Ou talvez só recebam o que o lugar considera necessário.

Davi fechou o livro.

— Espero que ele considere necessário um manual.

Paulinho aproximou-se da janela.

Afastou a cortina.

Parou.

Não havia rua.

Nem jardim.

Nem muro.

Havia luz.

Uma luz branca, uniforme, impossível de atravessar com os olhos.

Caio se aproximou.

— Tem alguma coisa lá fora?

Paulinho puxou a cortina de volta.

— Não existe lá fora.

Davi soltou o botão do rádio.

Dessa vez, não fez piada.


Na cozinha havia uma mesa posta.

Quatro pratos.

Quatro copos.

Quatro lugares.

Caio sorriu.

— Pelo menos aqui eles acreditam na gente.

Davi abriu um armário.

Pratos.

Copos.

Panelas.

Tudo perfeitamente comum.

Abriu outro.

Mais louças.

Mais panelas.

Mais normalidade.

Depois abriu a geladeira.

Ficou olhando.

Caio se aproximou imediatamente.

— Tem comida?

— Tem bolo.

Caio apareceu ao lado dele.

— Que sabor?

Davi inclinou o corpo para enxergar melhor.

— Parece chocolate.

Lia cruzou os braços.

— Vocês vão comer uma comida preparada por uma casa que sequestra adolescentes?

Caio pensou por alguns segundos.

— Dependendo do bolo…

Davi já procurava uma faca.

— Exatamente.

— Ninguém vai comer — decidiu Lia.

Davi fechou a gaveta.

— Você é muito autoritária para alguém que acabou de chegar.

— E você é muito confortável para alguém que foi sequestrado.

Paulinho riu.

Foi involuntário.

Curto.

Mas riu.

Caio riu também.

Até Lia sorriu.

Os quatro ficaram em silêncio logo depois.

Era estranho perceber que ainda conseguiam rir.

Mais estranho ainda era perceber que a casa permitia.


Voltaram ao corredor.

Havia três portas.

A primeira dava para um quarto.

Cama arrumada.

Guarda-roupa.

Escrivaninha.

Nenhum objeto pessoal.

Parecia quarto de hotel.

A segunda era idêntica.

Davi abriu o guarda-roupa.

Vazio.

Caio abriu uma gaveta.

Vazia.

Lia olhou para as duas camas.

— Dois quartos.

Paulinho entendeu.

— Para quatro pessoas.

Davi encostou no batente.

— A casa está otimista sobre a duração da visita.

A terceira porta…

estava trancada.

Davi segurou a maçaneta.

Girou.

Nada.

Tentou outra vez.

Nada.

Caio segurou seu ombro.

— Não quebra.

— Eu nem comecei.

Lia aproximou-se.

Na madeira havia apenas uma pequena placa metálica.

Sem desenho.

Sem número.

Uma única palavra.

ARQUIVO.

Os quatro ficaram olhando.

Davi voltou a segurar a maçaneta.

Lia segurou seu pulso.

— Não.

— Você não sabe o que tem aí.

— Exatamente.

Davi olhou para Paulinho.

— E você?

Paulinho observou a placa.

A palavra parecia antiga.

Não desgastada.

Antiga de outro jeito.

Como se tivesse esperado muito tempo para ser lida por eles.

— Acho que ainda não é a hora.

Davi soltou a maçaneta.

Dessa vez, não insistiu.

Porque, pela primeira vez desde que tudo começara, os quatro tiveram exatamente a mesma impressão.

Aquilo não estava trancado para impedir que entrassem.

Estava esperando que ainda não entrassem.

Ao longe, em algum lugar da casa, ouviu-se um clique.

Pequeno.

Discreto.

Como uma fechadura sendo destrancada.

Davi olhou para a porta.

Depois para os outros.

— Agora é a hora?

(continua)

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