Por Gislaine Alves Lopes, Lauriza Gabriel Lima e Silmara Frederico
Texto produzido coletivamente durante a formação realizada no CEI Ana Souto Trevisan, em 8 de julho de 2026, e preparado para publicação no projeto VOZES.
Na Educação Infantil, alguns aspectos jamais poderão ser substituídos pela tecnologia. O vínculo afetivo, o cuidado cotidiano, as interações entre crianças e adultos, o brincar e as experiências sensoriais pertencem a uma dimensão da vida que não pode ser reduzida a comandos, respostas automáticas ou organização de informações.
Antes de qualquer aprendizagem, a criança precisa sentir-se acolhida, segura e pertencente ao espaço em que vive. Diferentemente do adulto, que muitas vezes estuda pensando em uma finalidade futura, a criança pequena aprende enquanto convive, brinca, explora, experimenta e estabelece relações com as pessoas e com o ambiente.
A presença da educadora é essencial nesse processo. É ela quem acolhe a chegada, percebe mudanças de humor, escuta o que ainda não foi dito com palavras e oferece apoio quando a criança precisa. Seu olhar atento permite reconhecer necessidades, interesses, descobertas e modos singulares de expressão.
Nenhuma ferramenta consegue interpretar plenamente um gesto, compreender um choro ou perceber as pequenas mudanças que revelam como uma criança está se sentindo. A tecnologia pode registrar informações, organizar observações e apoiar o planejamento, mas não estabelece vínculos afetivos nem participa verdadeiramente das experiências vividas pelo grupo.
Essa reflexão dialoga com Em terra de IA, texto que discute os limites da inteligência artificial diante da experiência humana. A máquina pode trabalhar com palavras, imagens e informações, mas não vive aquilo que organiza nem sente as consequências das relações sobre as quais escreve.
O brincar também ocupa um lugar insubstituível. Brincar é uma das principais linguagens da infância: por meio dele, a criança investiga o mundo, elabora experiências, desenvolve a imaginação e aprende a conviver. A tecnologia pode ampliar repertórios e oferecer recursos, mas não brinca com a criança, não compartilha suas descobertas e não constrói com ela uma história comum.
Da mesma forma, as experiências sensoriais dependem do encontro concreto com o mundo. Tocar diferentes materiais, movimentar o corpo, experimentar temperaturas, perceber aromas, ouvir sons, observar transformações e explorar espaços são ações fundamentais para o desenvolvimento infantil. Nenhuma representação digital substitui integralmente aquilo que é vivido pelo corpo.
O cuidado também não se separa da afetividade. Alimentar, trocar, ninar, acompanhar o sono, incentivar, consolar e conversar são ações que educam porque constroem confiança. Cada gesto comunica à criança que ela é vista, respeitada e protegida.
A afetividade, portanto, não é um complemento do trabalho pedagógico. Ela constitui uma de suas bases. Sem vínculos, a instituição corre o risco de se tornar apenas um espaço de procedimentos; com eles, transforma-se em lugar de pertencimento, desenvolvimento e encontro.
As tecnologias podem colaborar com a organização do trabalho, com os registros e com a comunicação. Seu uso consciente integra as discussões reunidas na estante Pedagogia e outras ciências, na qual teoria, prática educativa e experiência humana permanecem em diálogo.
Mesmo em tempos de rápido avanço tecnológico, é necessário reconhecer aquilo que a máquina não alcança. A presença, o afeto, o cuidado, o brincar e a experiência compartilhada continuam sendo essencialmente humanos.
A tecnologia pode apoiar a educadora. A relação construída com a criança, porém, nenhuma inteligência artificial poderá substituir.

