Maracangalha #14: Que escorra devagar

Por: Paulo Ricardo Zargolin

O expediente encerrava-se sem alarde, como uma frase que ninguém termina. A penumbra da prefeitura começava a se alongar pelos corredores, e os sons diminuíam — a fotocopiadora suspirava em um último ronronar do dia, e o ventilador do almoxarifado girava sem propósito, empurrando ar vencido. A maioria já havia ido embora, deixando para trás suas cadeiras quentes e arquivos de meia verdade.

Ísis fechou o notebook, recolheu os papéis da semana e os acomodou em ordem simbólica dentro da pasta azul. Vestia-se como sempre: elegante, discreta, firme. Mas havia algo no caminhar que era cansaço e intenção. Como quem sabe que não há respostas no ponto final, mas no que vem depois dele.

Atravessou a rua com passos curtos. Um calor morno subia do asfalto e dissolvia a silhueta dos carros. Do outro lado, sem planejamento, entrou numa sorveteria de esquina — uma das poucas que ainda resistia à estética do vidro fosco e letreiros digitais. Ali, o colorido era de cobertura de morango artificial, e o azulejo branco tinha cheiro de infância colada no rodapé.

O atendente ergueu os olhos do balcão assim que ela entrou. Tinha no máximo dezenove anos, e nos olhos um brilho sem controle. Endireitou o avental e ensaiou um sorriso que queria ser natural, mas tropeçava na surpresa de vê-la ali — tão fora de contexto, e ainda assim perfeitamente inserida. Era como se o açaí, o balcão e o sol das 18h tivessem sido arrumados só para aquela cena.

— Boa tarde… Posso ajudar?

Ela apoiou a pasta sobre o balcão de fórmica e respondeu com calma, como quem dita um feitiço:

— Um açaí, por favor. Com muito morango fresco. Leite em pó por cima. E um fio de leite condensado… mas apenas nas bordas do copo. Que escorra devagar.

O rapaz engoliu em seco. Anotou sem precisar, decorando o pedido que lhe pareceu tão poético. Quase tropeçou na própria respiração ao dizer:

— Vai ficar pronto já já. Quer sentar?

— Prefiro ficar por aqui.

Apoiou-se suavemente no canto do balcão, retirou o celular da bolsa e desbloqueou a tela. O ícone de mensagem piscava. Um novo nome familiar:

Sombra11: “Hoje foi um dia bom pra perguntar?”

Ela suspirou, sorriu de leve, e respondeu:

“Melhor pra responder.”

A conversa fluiu como nunca antes. Perguntas curtas, respostas mais longas. Um ritmo estranho, como dois dançarinos que não se olham nos olhos, mas adivinham os passos. Ele dizia pouco, ela decifrava muito. Até que surgiu um áudio.

Ela hesitou. Revirou a bolsa em busca dos fones. Achou o estojo. Nele, as miudezas: um brinco sem par, um clips, um lenço de papel dobrado com cuidado demais, uma moeda antiga. Os fones estavam lá, enredados como serpentes.

— Açaí da senhora — disse o atendente, com cuidado ritualístico.

O copo era grande. O leite condensado escorria pelas laterais como um sussurro doce. O morango cortado era fresco, vivo, levemente assimétrico, o que o tornava mais verdadeiro.

— Está lindo — disse ela, sincera.

Tomou a primeira colherada. O contraste entre o gelado do açaí e o calor de sua língua era quase um alerta. Engoliu devagar. Conectou os fones.

O áudio tocou.

“Você quer saber sobre a Casa dos Encantos. Você ainda não viu nada. Mas pode ver. Eu posso mostrar. Mas não fale de mim. Nunca.”

A voz era artificial. Uma entonação de GPS mal programado misturada a criança ensaiando autoridade. Fria. Sem ritmo humano. O tipo de voz que não se esquece — porque não se pertence a ninguém.

Ela parou. Retirou o fone, olhou ao redor. Tudo seguia igual: crianças rindo, ventilador rangendo, o atendente limpando o balcão com zelo de quem quer ser notado de novo.

E foi então que percebeu: estava lidando com alguém jovem. E, por consequência, alguém de fora da engrenagem da prefeitura. Isso estreitava as possibilidades — e aumentava o risco.

Digitou, com a ponta dos dedos já ligeiramente grudados de leite condensado:

“Casa dos Encantos. Onde fica?”

A resposta não veio em texto. Veio como um link.

Abriu. Um ponto marcado no mapa: Rua da Amendoeira, 215-B. Nenhum estabelecimento com esse nome. Nenhuma fachada cadastrada. Apenas o endereço. Nu. Cru.

***

Na outra ponta da cidade, Tomaz fechava o notebook e colocava o celular de lado. Estava deitado de bruços, os fones ainda quentes das últimas risadas ouvidas no grupo de WhatsApp — um grupo secreto, dos “descolados”, onde alunos do 6º ao 3º ano se misturavam sem regras. Ali não se falava de tarefa. Ali se aprendia onde os adultos se perdiam.

O link, ele havia salvado dias atrás. Pegou do comentário de um veterano — “quem nunca foi na Encantos, não sabe o que é Maracangalha de verdade” — seguido de risadas e emojis censuráveis. Ninguém dizia exatamente o que acontecia ali. Mas era consenso que não era lugar de criança.

Tomaz não sabia o que entregara, mas sabia que entregara algo. E isso o fazia sentir, pela primeira vez, parte da engrenagem. Não como peça — mas como alavanca.

Deitou-se de lado. Tocou o canto do celular com os dedos. E pensou, sem ousar escrever: “Você vai?”

E, no silêncio do próprio quarto, teve medo que sim.


Retome ao décimo terceiro capítulo, aqui.
Leia “A Ilha”, aqui.
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