Por Paulo Ricardo Zargolin
Não me lembro de quase nada da história de Aventuras de uma Gota d’Água.
Mas me lembro perfeitamente de tudo o que aconteceu antes de eu conseguir lê-la.
A professora nos entregou o livro pouco antes das férias. Explicou que seria nossa leitura daquele período e que, quando as aulas voltassem, conversaríamos sobre a história. Recebi o exemplar com a responsabilidade que só uma criança consegue dar às coisas da escola: era um livro que precisava voltar inteiro.
Só que as férias também tinham seus próprios planos.
Eu passava horas montando cidades de LEGO no chão da sala. Pintava revistinhas até gastar os lápis mais bonitos da caixa. Fazia caça-palavras, ligava os pontos, descobria diferenças entre desenhos quase iguais. Cada dia parecia comprido o bastante para fazer tudo aquilo… e ainda sobraria tempo para ler o livro.
Sempre sobraria.
Foi justamente por isso que deixei a leitura para os últimos dias das férias.
Na minha cabeça infantil, era uma estratégia excelente.
Na prática, foi um desastre.
Quando finalmente resolvi procurar Aventuras de uma Gota d’Água, o livro não estava na mochila.
Nem na estante.
Nem embaixo da cama.
Nem em lugar nenhum.
Passei de futuro leitor a menino desesperado em questão de minutos.
Lembro-me mais da sensação do que da procura. Aquela angústia silenciosa de pensar que eu havia perdido um livro da escola. Não era um gibi meu. Não era um brinquedo. Era um livro da escola. Parecia existir uma diferença enorme entre essas coisas.
Contei para minha mãe.
Não sei se ela ficou brava. O medo que senti naqueles dias foi muito maior do que qualquer reação que ela pudesse ter tido. O que lembro é dela me levando até a escola, ainda durante as férias, para ver se havia alguma esperança.
A escola vazia era estranha.
Sem crianças correndo pelos corredores, ela parecia maior.
Uma inspetora nos acompanhou até a sala.
Ainda consigo imaginar o barulho da chave abrindo a porta e o cheiro característico da sala fechada por tantos dias.
Minha carteira continuava no mesmo lugar.
Bastou afastá-la alguns centímetros.
Lá estava ele.
Quietinho.
Como se tivesse passado as férias inteiras me esperando.
Acho que senti um alívio difícil de explicar para quem nunca teve oito ou nove anos.
Voltei para casa com o livro debaixo do braço e comecei a leitura imediatamente. As aulas, porém, voltaram antes que eu chegasse à última página.
Minha mãe conversou com a professora, explicou o que havia acontecido e pediu mais alguns dias para que eu terminasse a leitura.
Ganhei o prazo.
Li a história da gotinha.
E nunca mais esqueci da aventura que aconteceu do lado de fora do livro.
Porque…
…isso o livro não conta.
Quer conhecer a aventura da gotinha?
A edição que aparece nesta crônica foi a que li na infância. Para quem deseja procurar o livro atualmente, deixo uma sugestão de compra na Amazon.

