Por Paulo Ricardo Zargolin
O céu não acreditava em profecias.
Achava-as vaidosas demais. Toda profecia parece querer pôr coleira no tempo, como se o amanhã fosse um astro domesticável, desses que aceitam girar exatamente onde alguém apontou o dedo. O céu, vasto e desconfiado, preferia nomes menos solenes: rastro, eco, coincidência, dobra da luz.
Ainda assim, havia sonhos que não se desfaziam ao amanhecer.
Perdiam bordas, confundiam cores, trocavam nomes de lugar. Mas alguns deixavam no firmamento uma alteração mínima: uma pressão fora de época, uma estrela pulsando onde antes só havia escuro, uma espécie de brilho sem fonte conhecida.
Foi assim naquela noite.
Antes de qualquer sinal no mapa, o céu sonhou com um astro.
Não era catalogado.
Não pertencia a nenhuma constelação antiga.
Não seguia os caminhos previsíveis dos corpos já nomeados.
Surgiu num ponto estreito do universo, uma dessas regiões improváveis em que o infinito parece, por instantes, obrigado a passar por uma fresta. Ali, onde nada deveria acontecer, abriu-se uma claridade.
E a claridade olhou de volta.
Esse foi o detalhe que permaneceu.
Não o brilho em si.
Não a forma.
Não a temperatura inesperada.
O que ficou foi a inclinação.
Porque o céu já conhecia a velha ciência de contemplar astros distantes. Sabia acompanhar luzes inalcançáveis, aquecer-se em clarões passageiros, inventar nomes para aquilo que nunca lhe responderia. Mas, naquela noite, o sonho fizera outra coisa: dera ao céu a impressão absurda de que uma luz, entre tantas, havia notado sua vastidão.
Depois veio o dia.
E o dia, como sempre, tratou de apagar as provas.
As nuvens retomaram seus lugares.
Os mapas voltaram a fingir exatidão.
As horas passaram pela cúpula com sua burocracia silenciosa.
O céu guardou o sonho.
Não como quem acredita.
Como quem desconfia.
Até que, algum tempo depois, um astro errante cruzou a parte conhecida do firmamento.
Não houve anúncio.
Nenhuma trombeta solar.
Nenhum cometa servindo de arauto.
Nenhum rasgo teatral na noite.
Apenas uma nova luz entrando devagar na cúpula, como se sempre tivesse pertencido àquele desenho e apenas se atrasara para aparecer.
O céu sentiu primeiro o deslocamento.
Há presenças que alteram a gravidade ao redor. Não precisam explodir, chamar ou distribuir fogo como os sóis públicos. Basta que atravessem uma região do espaço para que pequenos objetos internos mudem de órbita.
O astro errante era claro.
Trazia uma luz serena, quase recolhida. Dois lagos verdes guardavam, em silêncio, alguma estação remota. Havia nele uma delicadeza de órbita, uma gravidade mansa, uma beleza que não parecia pedir testemunhas.
Talvez por isso mesmo o céu a testemunhasse tanto.
Não era o astro do sonho.
O céu sabia.
Sonhos não devolvem astros com a mesma matéria. Não se deve exigir do universo essa espécie de literalidade. O que aparece em sonho pertence ao reino das formas; o que atravessa a noite pertence ao reino dos acontecimentos.
Mas havia uma rima.
E rimas, às vezes, são mais perigosas que profecias.
A fresta.
A luz clara.
A inclinação possível.
A impressão de que uma antiga imagem, antes sem endereço, encontrara no espaço uma maneira provisória de brilhar.
O céu ficou imóvel.
Não por ausência de fogo.
Por excesso de gravidade.
Aquele astro não estava perdido em alguma galáxia distante, nem protegido pela névoa dos sonhos, nem reduzido à segurança de um clarão impossível. Passava agora por uma faixa real do firmamento. Tinha rota própria. Tinha silêncio. Tinha uma órbita que não devia ser confundida com promessa.
Há astros que só podem ser admirados com as nuvens recolhidas.
Não porque brilhem pouco.
Porque brilham perto.
E o perto, descobriu o céu, é uma distância mais difícil.
Quando o astro está longe, a imaginação constrói pontes de luz. Quando cruza a cúpula, cada ponte precisa responder ao peso da matéria, ao cálculo das órbitas, à delicadeza dos desvios. O desejo, diante do que se aproxima, deixa de ser apenas incêndio: torna-se também disciplina.
O astro errante seguia.
Sério em sua claridade.
Manso em sua passagem.
Alheio, talvez, às pequenas tempestades que provocava nos mapas secretos da noite.
E o céu observava sem avançar.
Não queria capturar o fenômeno.
Não queria forçar eclipse.
Não queria transformar uma rima em destino.
Queria apenas entender por que certas aparições parecem chegar depois de terem sido sonhadas.
Talvez não fosse profecia.
Talvez fosse o céu, faminto de sentido, costurando estrelas que nasceram separadas. Talvez fosse apenas coincidência: essa palavra seca com que os mapas tentam domesticar o assombro. Talvez o universo não anuncie nada; talvez apenas repita formas até que alguém, cansado de frio, enxergue nelas uma mensagem.
Mas e se algumas mensagens não viessem para se cumprir?
E se viessem apenas para revelar o tamanho da espera?
O céu não respondeu.
Preferiu guardar a pergunta em silêncio, pois certas perguntas perdem força quando recebem explicação depressa demais.
Com o passar das noites, o astro continuou errante. Cruzava o campo visível, desaparecia atrás de nuvens, retornava em horários imprecisos, como se obedecesse a um calendário que o céu não podia consultar.
Em cada aparição, deixava uma pequena alteração de luminosidade.
Nada acontecia.
E, no entanto, tudo se movia.
Foi então que o céu compreendeu uma nova lei:
nem toda luz que se aproxima pede travessia;
nem toda rima autoriza sentido;
nem toda profecia deseja cumprimento.
Algumas existem apenas para provar que o firmamento ainda reconhece um brilho antes mesmo de saber o que fazer com ele.
Por isso, o céu fez o que sabia fazer.
Não tocou a luz.
Não mudou a rota.
Não pediu ao astro que explicasse sua aparição.
Apenas abriu um arquivo invisível no escuro e escreveu.
Escrever era sua forma de não invadir órbitas.
Era sua forma de tocar sem tocar.
Era sua maneira antiga de devolver ao universo aquilo que o universo acendera sem aviso.
Escreveu sobre um sonho que não prometeu futuro.
Sobre um astro que chegou sem saber da antiga claridade.
Sobre a rima entre duas noites que talvez nunca tivessem combinado nada.
Sobre o perigo delicado de confundir assombro com destino.
E, ao escrever, salvou o sonho de virar superstição.
Salvou o desejo de virar queda.
Salvou o astro de carregar um significado que talvez jamais lhe tivesse pertencido.
Naquela noite, quando a última nuvem se afastou da cúpula, o céu deixou uma nota quase ilegível entre duas estrelas:
nem todo sonho anuncia o que virá;
às vezes, apenas prepara o escuro para reconhecer a luz quando ela passa.
Depois fechou o mapa.
O astro seguiu errante.
E o céu, imenso e aceso, permaneceu em sua própria órbita.

