Por: Paulo Ricardo Zargolin
Há uns bons anos, num colégio que guardo em minha memória, o silêncio ecoava pelos corredores vazios, interrompido apenas pelo barulho de passos apressados. Alguns colegas e eu tínhamos uma missão especial: preparar um experimento para a feira de ciências que se aproximava. A professora de Química, sempre solícita, havia se oferecido para nos ajudar após o nosso horário regular de aulas, uma vez que só poderíamos nos reunir à noite.
Naquela escuridão amigável da escola quase vazia, carregávamos alguns limões, essenciais para nosso experimento de criar uma pilha voltaica. No entanto, logo nos deparamos com um problema prático: como cortar os limões sem acesso à cozinha que estava trancada? A solução proposta pela professora foi simples: pedir um estilete emprestado numa sala de aula próxima.
Com o cortante em mãos, cedido gentilmente por uma colega, voltamos ao nosso posto no laboratório. A docente, com um gesto seguro, tentou cortar o primeiro limão, mas o estilete, frágil demais para a tarefa, quebrou instantaneamente. Meu coração disparou! Eu havia prometido devolver o instrumento intacto.
Diante do meu evidente pânico, a professora não hesitou. Acompanhou-me até a dona do objeto, assumindo uma postura serena mas firme. Ao explicar o ocorrido, ela usou um “nós” que, naquele momento, me soou estranhamente injusto. Afinal, não tinha sido ela a quebrar o estilete? Por que arrastar-nos todos para dentro da sua confissão de culpa?
“Nós erramos”, disse ela, olhando nos olhos da minha colega, que aceitou as desculpas com uma mistura de surpresa e alívio. Ainda perturbado, devolvi o que restou do empréstimo, sentindo-me parte de um crime que não cometi.
Mas aquela noite me seguiu por anos. A frase da professora ecoava em minha mente cada vez que lembrava do incidente. Com o tempo, entendi o peso do que ela fizera. Ao escolher o “nós”, ela não apenas distribuía a culpa, mas compartilhava uma lição sobre responsabilidade coletiva. Em um grupo, não importa quem dá o passo em falso; todos são parte do processo e, por isso, devem enfrentar juntos as consequências.
A cumplicidade, percebi, não se trata apenas de compartilhar momentos de sucesso, mas também de assumir juntos os erros e aprender com eles. Naquela ocasião, sob o teto familiar de uma escola silenciosa, aprendi sobre ciência, sim, mas mais profundamente sobre o significado de ser parte de uma comunidade. Afinal, é nos momentos de falha que o verdadeiro espírito de equipe é testado e revelado.

